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Valter Hugo Mãe lança livros no Brasil
13/04/2012

 

Autor português fala sobre a época em que assinava com minúsculas e sobre os opostos literários

 

12 de abril de 2012 | 3h 09










UBIRATAN BRASIL - O Estado de S.Paulo





O autor português Valter Hugo Mãe - Joana Souza/Divulgação

Joana Souza/Divulgação

O autor português Valter Hugo Mãe

Uma coincidência curiosa: a partir de amanhã, as livrarias começam a receber o primeiro romance publicado pelo português valter hugo mãe, o nosso reino (Editora 34), que saiu em 2004, quando ele ainda assinava com minúsculas, e também O Filho de Mil Homens (Cosac Naify), lançado no ano passado, momento em que o autor passou a utilizar letras maiúsculas para seus títulos e sua assinatura. Ambos opostos mas, ao mesmo tempo, muito próximos, como ele observa na seguinte entrevista, feita por e-mail.

O que há em comum entre esses e o que diferencia os livros?

Ambos têm uma ligação ao universo das ingenuidades infantis. O primeiro, o nosso reino, acaba sendo o negativo de O Filho de Mil Homens. Os resultados dos livros são opostos. Quando comecei a escrever prosa, tudo me surgia muito disfórico, uma necessidade qualquer de entender essa tristeza que penso ser fatalmente portuguesa. Hoje, depois de muito pensar como é Portugal, creio que quis contar uma história encantada. Queria inventar alguém raro, difícil de ser real, mas que mostrasse o quanto as coisas fundamentais da felicidade são simples e se colocam ao nosso alcance. Eu diria que ambos os livros são um começo. O primeiro, já sei de quê, o segundo, estou muito curioso por descobrir.

E o que dizer da crueza poética da linguagem literária, notada nas duas obras?

Gosto da expressão muito extremada, para o êxtase e para a tristeza. Tenho pouca atração pela expressão média, essa coisa meio de manutenção, como se o texto estivesse só a ganhar tamanho. Sempre trabalho com esses limites. As minhas personagens estão muito bem ou muito mal, e o livro vai observando como elas podem oscilar entre ter e perder tudo. Isso leva a uma poética crua, eu diria que a cada frase bela pode assistir já uma contaminação de medo que impede que a beleza seja unicamente boa. Acredito muito que o esforço para a felicidade é quase desumano e precisa de ser feito a cada segundo, em cada pensamento e cada gesto. Por isso é tão fácil desistir de ser feliz e apenas sobreviver.

A tristeza ronda O Filho de Mil Homens e o que importa a Crisóstomo é ter consciência dessa tristeza, mais que combatê-la.

No livro diz-se que é preciso assumir a tristeza para reclamar o direito a ser feliz. Penso muito que vamos mascarando demasiado o modo como sentimos, e tanto assim até que já não permitimos que o nosso consciente saiba quem somos, como somos, o que nos tornaria melhores. O Crisóstomo, que não existe e que eu quis que fosse o indivíduo certo, perfeito, decide terminar com o seu tempo triste. Coloca diante de si tudo quanto lhe falta, e busca-o candidamente. Acontece como num conto de fadas. Gosto muito disso. Como se precisássemos todos de viver num conto de fadas para vencer as armadilhas que montamos para nós mesmos. É muito irônico.

Esse livro também parece ter sido escrito por alguém com lucidez sobre a perenidade da vida. Isso incomoda ou é uma ótima ferramenta literária?

Incomoda muito. Vivo demasiadamente sentindo o tempo, perco o tempo, lamento não ter feito um milhão de coisas, duvido constantemente de ter escolhido o caminho certo, conheço gente que me parece muito mais decente do que eu. É uma porcaria pensarmos que o melhor que podemos fazer pelos outros é escrever um texto. Gostava de agir mais sem pensar. Penso tudo e isso é um modo de ficar só.

E no que é melhor se apoiar para escrever, na lucidez ou na insanidade?

Na insanidade, não. Não quero nada ser louco. Muito ao contrário. Queria ser tão lúcido e inteligente que pudesse resolver problemas, ter ideias perfeitas para mim e para os outros. Salvar tudo. Adorava não me desperdiçar. Os loucos podem divertir-se muito, mas talvez estejam demasiado encerrados sobre si mesmos, não constroem em favor do outro. E acho que a glória de um autor estará toda na possibilidade de se aperceber de uma boa frase, de uma boa história. Eu fico maravilhado quando alguma frase me transcende. Fico a admirá-la. Sem perceber muito como foi possível mas procurando entendê-la lucidamente, como a incorporá-la, quase suplicando para que essa frase passe a fazer parte de mim. Já é um pouco louco, isso. O suficiente. Mais, não. Por outro lado, também acho que o papel de um autor é tomar as personagens, por mais loucas que pareçam, e entender quanto puder entender sobre elas. Criando uma lucidez naquilo que as define. Algo sempre se perde, mas a utopia é alcançar essa lucidez, a informação, o retrato absoluto.

A amargura e o tédio seriam os grandes males contemporâneos? Por que vivemos tempos tão cheios de desgosto?


Talvez todos os tempos tenham sido assim. Todas as épocas se consideraram de crise em alguma coisa, desde logo, crise de valores. O que significa que, uma e outra vez, valorizamos as coisas erradas ou não valorizamos o que está certo. Sempre vivemos acossados por uma sobrevivência que deixa pouco espaço para a verdadeira lealdade. Tudo é tão escasso ou mal distribuído que parece obrigar-nos a uma competição. Ainda estamos muito longe de sermos gente civilizada. Isto ainda não é um mundo de gente. Devemos estar a caminhar para lá, mas isto é a pré-história da humanidade, porque o intelecto ainda não retirou de nós o lado mais bicho. Somos bichos inteligentes, o que é maravilhoso mas acarreta muitas falhas.

O poder das redes sociais e ferramentas eletrônicas parece consolidado. É possível dizer que já existe uma ciber-humanidade nascida na ciberesfera?

Será o início dessa mudança, sim. Não tem como voltar atrás. A menos que uma grande guerra nos reponha na Idade Média. Percebo como as gerações mais jovens se completam pelo lado virtual. A virtualidade tem necessariamente o desejo do tangível mas, em muita coisa, parece que o desejo basta, como se conscientemente cada indivíduo aceitasse ir perdendo a materialidade das coisas e das relações em favor do conforto, da portabilidade e dispersão do contato virtual. Na internet a nossa identidade é aperfeiçoada. Somos o melhor que sabemos e policiamos, até sem grande esforço, essa identidade. Isso cria uma autoestima muito peculiar. E o retorno que recebemos é sempre mais generoso do que no contato real, porque quem nos fala quer ser o melhor que pode e, normalmente, exagera. Diria que, o cidadão mais comum, com o seu Facebook, procura fazer virtualmente tudo quanto não se encoraja a fazer no cotidiano. É como fazer de uma dimensão das suas vidas algo perfeito, embora ilusório. A ilusão foi sempre fundamental, hoje torna-se uma estratégia. Um dia seremos alimentados por comprimidos e olharemos para paredes apenas imaginando a vida inteira. Quero morrer bem antes.

Você parece escrever compulsivamente. Qual assunto que te interessa no momento?

Confesso que sei apenas escrever. Se não estiver a escrever, estou só a fazer parvoíces. Sempre procuro estar interessado em algo. Agora escrevo um livro a passar-se na Islândia. Procuro pensar sobre um exercício de solidão muito específico. Quero imaginar um inverno rigoroso num fiorde islandês. Coloco as personagens numa povoação mínima que se isola em absoluto. Quero saber como a cabeça das pessoas transforma o lugar, o próprio lugar, feito de rocha, gelo, neve e água, numa companhia. Ter uma rocha por companhia, ter a água como um ser vivo. Os islandeses recônditos sentem o espírito de tudo. É muito assustador e fascinante.

Com O Filho de Mil Homens, você passa a assinar definitivamente seu nome com maiúsculas? O que motivou a mudança?

Sim. Com o encerramento da teatralogia que escrevi, e que terminou com a máquina de fazer espanhóis, não podia deixar de mudar. Aterroriza-me a ideia de cristalizar fórmulas. Foi difícil, porque acredito muito nas minúsculas e na pertinência de como as usava, mas era importante não ficar preso a nada. Fazer a mesma coisa pela vida inteira é violento. Não quero. Prefiro arriscar outra vez. Recomeçar. Fugir um pouco de mim mesmo.


Fonte: Estadão.com.br/Cultura