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Hospital Mario Covas passa a oferecer cirurgia para mudança de sexo
14/05/2015

 

O Hospital Estadual Mario Covas, em Santo André, no ABC Paulista, começa a realizar a transgenitalização (cirurgia de redesignação sexual), conhecida popularmente como “troca de sexo”. Destina-se à população transgênero atendida no Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais, unidade pertencente ao Sistema Único de Saúde (SUS).

O encaminhamento será feito pelo Ambulatório do Centro de Referência e Treinamento de Doenças Sexualmente Transmissíveis (CRT/DST/Aids-SP), localizado na Vila Mariana, zona sul da capital. No local, o paciente recebe atendimento médico e psicológico durante, no mínimo, dois anos, para, então, seguir para a cirurgia no Hospital Mario Covas. A unidade recebe recursos da Secretaria de Estado da Saúde e é administrada pela Fundação do ABC, Organização Social de Saúde (OSS), mantenedora da Faculdade de Medicina do ABC.

O coordenador da equipe cirúrgica e professor auxiliar de Urologia da Faculdade de Medicina do ABC, Roberto Vaz Juliano, diz que, antes de trabalhar na área, estudou a transexualidade e se convenceu da importância da cirurgia para essa população.

“O transexual não identifica seu corpo em relação ao seu sexo, o que resulta em sofrimento extremo na vida pessoal, familiar e social”, esclarece o especialista.

Ainda neste ano, serão realizadas oito operações em transexuais femininos – intervenção para transformar a genitália masculina em feminina. Para tanto, há uma equipe composta de dois urologistas e dois cirurgiões plásticos. Em 2016, está previsto o início do procedimento em transexuais masculinos com o apoio de ginecologistas e cirurgiões plásticos.

Treinamento – Cerca de 300 transexuais atendidos no ambulatório do CRT estão aptos ao procedimento. Desses, 36 foram encaminhados ao Ambulatório de Transexualismo da Clínica de Endocrinologia do Desenvolvimento, ligado ao Hospital das Clínicas (HC), da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). Além do Hospital Mario Covas, o HC já oferecia o procedimento, estando apto a realizar 12 operações anuais.

Vaz Juliano conta que seus médicos foram treinados por especialistas do HC, com vasta experiência na área: “Aqui, a cirurgia segue dois princípios: a estética aceitável e a funcionalidade, que vai garantir o prazer sexual”. Além de ampliar a oferta de cirurgias de redesignação sexual e atender a um direito dos cidadãos, o hospital vai capacitar profissionais do SUS nesse tipo de intervenção.

“É fácil imaginar a cirurgia ao compará-la a uma manga de camisa virada do outro lado. O pênis é virado do avesso; sua cabeça equivaleria ao colo do útero e a pele do pênis passa a revestir a vagina. O aspecto final fica parecido com a vagina, inclusive com a criação dos grandes lábios. O cirurgião preserva a uretra, nervos e artérias, assegurando a sensibilidade na hora da relação sexual”, explica o coordenador.

Avanços – A primeira paciente foi operada, com sucesso, no último dia 6 e passa bem. Retornará às atividades sociais após três semanas e “só poderá ter relacionamento sexual daqui a seis meses. Durante pelo menos 40 dias, ela usará molde de silicone no interior da vagina para evitar a retração do local, o que prejudicaria a penetração”, alerta o urologista.

Para a diretora do CRT/DST/Aids-SP, Maria Clara Gianna, a parceria com o Mario Covas significa grande avanço na atenção aos transgêneros, pois terão à disposição um procedimento que garantirá, sem dúvida, mais qualidade de vida: “Em 2009, quando estruturamos o Ambulatório de Travestis e Transexuais, havíamos identificado a necessidade de ampliar o serviço de cirurgia de resignação sexual”, explica.

“Hoje, o HC continua sendo importante parceiro, mas com a chegada do Mario Covas, temos recursos necessários para essa ampliação”, afirma Maria Clara. Ela diz que, além dos dois centros especializados no Estado de São Paulo, o procedimento também está disponível em Goiás, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Pernambuco e Espírito Santo.

A especialista ressalta que existe a necessidade de se criar ainda mais serviços, que ofereçam tratamento hormonal, psicoterapia, laudo para registro civil em que conste o novo nome social e a cirurgia.

“O HC é importante centro formador de novas equipes. A partir da parceria com a Faculdade de Medicina do ABC e o Mario Covas, nossa expectativa é treinar novas equipes para habilitar outros serviços no País ligados ao SUS”, almeja a diretora.

DOE, Executivo I, 14/05/2015, p. II