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Museu de Saúde Pública é reaberto
15/05/2015

 

Quem passar pela Rua Tenente Pena, 100, no bairro Bom Retiro, vai perceber a movimentação diante do antigo patrimônio arquitetônico, datado de 1893. No prédio, projetado por Ramos de Azevedo e que foi sede do chamado Desinfectório Central, está instalado o Museu de Saúde Pública, reaberto ao público nesta semana com a exposição As grandes epidemias. O novo espaço integra o Centro de Desenvolvimento Cultural, do Instituto Butantan, unidade da Secretaria de Estado da Saúde, um dos maiores centros de pesquisas biomédicas do mundo.

Na mostra, o visitante poderá conhecer a história de várias doenças – Aids, meningite, peste bubônica, varíola, gripe. Para a historiadora e curadora da exposição, Josiane Roza Oliveira, o objetivo é informar e dialogar com os visitantes sobre os processos de transmissão, prevenção, tratamento e cura das doenças.

Ao falar da história do museu, Josiane lembra: “A ideia de criar um espaço direcionado à área de saúde surgiu em 1965, com a criação de um memorial, em homenagem ao sanitarista brasileiro Emílio Ribas. O espaço deixou de ser memorial em 1979, e, a partir de então, começou a funcionar de modo mais abrangente, como Museu de Saúde Pública. Em 2010, passou a pertencer ao Instituto Butantan. Agora, está sendo reaberto, depois de cinco anos de reforma”.

Epidemias – A curadora planeja exposições futuras, entre elas A relação de Monteiro Lobato com Artur Neiva – pesquisador da saúde, biólogo atuante no combate às pragas do café, gestor que imprimiu marca forte ao organizar e dirigir o Instituto Biológico de São Paulo: “Eles foram amigos, mantiveram longa correspondência, sempre muito preocupados com a saúde do brasileiro”, diz. Nos planos de Josiane está, ainda, a criação de uma sala de cinema – o cinedebate – para a exibição de filmes como Filadélfia, Preciosa, Ensaio sobre a cegueira, A peste, O amor nos tempos do cólera. “A ideia é incentivar a leitura do livro, assistir ao filme e levar a questão para debate”, explica a curadora.

Percorrer a sala da mostra das grandes epidemias pode ser bastante informativo. Merece destaque a gripe de 1918 (mais conhecida como gripe espanhola), responsável pela morte em todo o mundo de cerca de 40 milhões de pessoas, entre 1918 e 1919, anos finais da Primeira Guerra Mundial. Há fotos e recortes de jornais sobre a epidemia, bem como informações a respeito da gripe asiática, de 1957, e a de Hong Kong, de 1968, que, juntas, dizimaram mais de 100 mil pessoas.

Mau-olhado – Outro vírus da gripe, altamente contagioso, bastante conhecido de todos, o influenza, também está na mostra. Varíola, peste bubônica e meningite ganharam especial realce com curiosidades, informações e fotografias. Um desenho do cartunista Henfil (Henrique de Souza Filho, 1944–1988), da época da ditadura, compara a meningite ao Esquadrão da Morte – organização paramilitar da época. Diz a legenda: “Na década de 1970, a meningite espalhou-se de forma epidêmica em São Paulo e Rio de Janeiro. Em pleno regime militar, a doença foi ocultada por um tempo, pois não combinava com o período de ‘bonança’ propagandeado pelo governo”.

Curioso, também, ver as roupas utilizadas para proteção individual no combate às doenças. Dois manequins simbolizam a época da idade média e a atualidade. Um deles, de túnica marrom de tecido grosso, está encapuzado, usa uma máscara com bico – no qual eram postas substâncias aromáticas para disfarçar o mau-cheiro de cadáveres – e óculos de vidro vermelho, que teriam a função de proteger contra mau-olhado. O outro manequim veste roupas brancas e está protegido com máscara para atuar no combate ao vírus Ebola.

Exposição e debate – Maria Eliete de Oliveira, funcionária há 30 anos do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, achou o museu lindo, familiar e interessante, “porque temos coisas parecidas no acervo do instituto. Tinha ouvido falar, muitas vezes, das curiosidades do Museu da Saúde Pública”, comenta, admirada com a máquina antiga de vacinação de varíola e meningite, precursora da moderna. “É sensacional!”, comemora.

Josiane prefere ser fotografada junto aos manequins representativos das doenças. “Gosto da comparação do médico da Idade Média com o da atualidade, do contraste entre os dois”, relata.

Paralelamente à exposição, o público pôde participar do debate Epidemias: Pesquisa, políticas públicas e história, intermediado por gestores públicos da área de controle de doenças. O diretor do Instituto Butantan, Jorge Kalil, discorreu sobre a inserção institucional diante das demandas de saúde pública.

Participaram da mesa-redonda o pesquisador Cláudio Bertolli, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e Alexander Precioso, diretor de Ensaios Clínicos e Farmacovigilância, do Instituto Butantan, que trabalha diretamente com a produção no enfrentamento de doenças, como a dengue, e Luiz Carlos Pereira, diretor do Instituto de Infectologia Emílio Ribas.

Ainda no primeiro andar do prédio, vale apreciar outra parte da mostra, sob o tema Saúde no Brasil Colônia. No térreo, o visitante conhece duas exposições permanentes: uma sobre o funcionamento do Desinfectório Central, além da Sala Emílio Ribas, com objetos e pertences do infectologista.

DOE, Executivo II, 15/05/2015, p. I