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Em crise, hospitais de SP cortam gastos e limitam atendimento
01/07/2015

 

Três das principais instituições com serviços gratuitos estão endividadas e sem acesso a empréstimos

 

Caixa negativo e corte de investimentos em melhorias atingem Santa Casa, Hospital São Paulo e Santa Marcelina

JAIRO MARQUES
DE SÃO PAULO

Três grandes e estratégicos hospitais que fazem atendimento gratuito à população de São Paulo vivem séria crise financeira e trabalham no limite de suas possibilidades.

Na Santa Casa (centro), no Santa Marcelina (zona leste) e no Hospital São Paulo (zona sul), o problema maior é que essas instituições chegaram a seus ápices de endividamento com credores, estão trabalhando com caixas negativos e, como consequência, com dificuldades de contrair novos empréstimos.

Dessa maneira, não há capacidade de investimento em melhorias nem mesmo dinheiro para que o funcionamento normal seja garantido.

O médico José Roberto Ferraro, diretor-geral do Hospital São Paulo, que atende cerca de 5.000 pessoas por dia, defende um "pacto nacional" em busca de recursos financeiros para "salvar a saúde pública do país".

A instituição acumula dívidas de R$ 90 milhões e fecha, todos os meses, com um deficit de cerca de R$ 1,5 milhão. Há atraso no pagamento de fornecedores e faltam insumos em alguns setores.

Liderada pelos médicos residentes, parte dos funcionários da instituição está em greve há quase um mês.

"É urgente buscar uma solução para a saúde por meio de uma mobilização nacional, de um pacto", disse Ferraro à Folha. "Ou cria-se um fundo novo de recursos ou volta a CPMF [cobrança sobre operações financeiras]. Precisamos de uma fonte financeira estável para conseguir resistir", completou.

RENEGOCIAÇÃO

Com a situação mais drástica a ser resolvida, a Santa Casa de São Paulo, maior complexo hospitalar filantrópico da América Latina, também tem com os bancos o seu problema mais nevrálgico.

Novo provedor da instituição, o médico José Luiz Setúbal colocou como meta de seu início de mandato buscar apoio político para conseguir mais prazo e espaço para renegociar a dívida de cerca de R$ 800 milhões do hospital.

Setúbal, acionista do banco Itaú e que assumiu a Santa Casa há menos de um mês, avalia que serão necessários ajustes no potencial de atendimento e no quadro de funcionários para manter abertas as portas da instituição.

Fabrício Santana, administrador do hospital filantrópico Santa Marcelina, referência da zona leste da capital, com 300 mil atendimentos por ano apenas no pronto-socorro, diz que, todos os meses, fecha a conta com cerca de R$ 4 milhões de rombo.

"Não sei até quando iremos suportar e não há nenhuma perspectiva de melhoria dos repasses do SUS. O que recebemos dá conta de cerca de 40% das despesas", afirma.

Dos 700 leitos do hospital, 87% são ocupados por pacientes do sistema público. Mas não será possível manter o percentual, diz Santana.

"Não conseguimos mais gerar recursos para manter o hospital com esse volume de pacientes SUS. A solução tem sido ampliar a participação dos planos de saúde. Não queremos parar de atender gratuitamente, mas estamos muito perto desse caminho."

OUTRO LADO

Procurados, Ministério da Saúde e Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo trocaram farpas sobre o caso.

Em nota, o ministério afirmou que os repasses para assistência hospitalar estão regulares. A pasta informou que "o financiamento federal das unidades de saúde vai além da tabela SUS" e que, em 2014, dos R$ 14,8 bilhões repassados às instituições filantrópicas, 40% foram incentivo para além do valor de tabela.

Já a secretaria estadual disse que "repassa de forma voluntária recursos extras do tesouro estadual para os hospitais mencionados com o objetivo de combater o subfinanciamento federal".

Segundo a pasta, o Hospital São Paulo recebe R$ 56 milhões anuais do Estado e o Santa Marcelina, R$ 43 milhões. O caso da Santa Casa foi tratado como "falhas graves de gestão". Segundo a secretaria, o governo estadual repassou à entidade R$ 682 milhões desde 2011.

Folha de S. Paulo