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Clarice Lispector era uma "anti-intelectual fingida", diz autor
18/04/2012

 

Por Amarílis Lage | De São Paulo






Agência EstadoObra de Clarice Lispector (1920-1977) tem dimensão política, diz autor que lançou “Clarice – Uma Literatura Pensante”



"Outra coisa que não parece ser entendida pelos outros é quando me chamam de intelectual e eu digo que não sou. De novo, não se trata de modéstia e sim de uma realidade que nem de longe me fere. Ser intelectual é usar sobretudo a inteligência, o que eu não faço: uso é a intuição, o instinto." É assim que Clarice Lispector (1920-1977) se autodefinia, mas não é isso que mostra a sua obra, segundo o recém-lançado "Clarice - Uma Literatura Pensante", de Evando Nascimento.


A escritora estruturou em seus livros um pensamento complexo e com uma orientação ética, avalia Nascimento, que é professor de estudos literários da Universidade Federal de Juiz de Fora e especialista na obra do filósofo francês Jacques Derrida, de quem foi aluno na École des Hautes Études en Sciences Sociales. O pesquisador alfineta: é um "antiintelectualismo fingido".


Para explicar o "funcionamento" da obra de Clarice, Nascimento diferencia literatura pensante de filosófica. Esta última englobaria, por exemplo, a ficção feita por Jean-Paul Sartre (1905 - 1980), em que o texto literário serve à transmissão de conceitos que vêm da filosofia - no caso de Sartre, o existencialismo.


"Clarice não precisou citar nenhum teórico para demonstrar a complexidade da relação homem-mulher nos contos de 'Laços de Família'. Você tem ali um pensamento que pode ser relacionado com a psicanálise, com a antropologia e com a filosofia, mas que é próprio dela", diz o autor.


Entre os autores que desenvolveram uma literatura pensante, Nascimento inclui Thomas Mann, Franz Kafka, Jorge Luís Borges, Guimarães Rosa e João Cabral de Mello Neto. "A literatura não substitui a filosofia. São discursos complementares. Na literatura, o tom é diferente, as estratégias textuais são outras, e o pensamento produzido acaba sendo distinto."


Na obra de Clarice, uma característica dessa reflexão seria a desconstrução de dicotomias, como masculino e feminino, homem e animal, animal e planta. O romance "A Hora da Estrela" seria um exemplo disso, quando o narrador, Rodrigo, diz sobre Macabéa: "Vejo a nordestina se olhando ao espelho e - um rufar de tambor - no espelho aparece meu rosto cansado e barbudo. Tanto nós nos intertrocamos".


Nesse processo, Clarice investiga até o limite entre o que é vivo e o que não é; um raciocínio que culmina na figura do ovo, uma imagem forte na obra dela. "Clarice investe de subjetividade as plantas e os objetos", diz Nascimento, citando o livro "Água Viva", em que ela faz referência aos sentimentos das flores, e "Um Sopro de Vida", no qual um personagem, o Autor, cria uma personagem feminina, Ângela, que dá vida aos objetos.


É por meio desses questionamentos que a obra de Clarice ganha uma dimensão política, na análise feita por Nascimento.


"Nessas oposições, normalmente um dos elementos do par é diminuído. No momento em que você presta atenção na singularidade do outro - do animal, da planta, do feminino -, há a possibilidade de esse outro se afirmar. A ética, nesse caso, significa construir espaços para que o outro possa emergir. Trazer à cena o que é excluído", diz Nascimento, que traça um paralelo entre Clarice e Derrida. "Eu diria que ela resolve ficcionalmente o que Derrida resolve filosoficamente, quebrando as hierarquias entre o feminino e o masculino, ou entre o humano e o animal,


Talvez aí esteja até uma pista para entender o "antiintelectualismo fingido" de Clarice. E Nascimento arrisca uma teoria. "A meu ver, foi uma tentativa de valorizar um polo que foi sempre desvalorizado, dizer que tudo é espontâneo. Mas a graça dela é juntar intuição e razão."


"Clarice - Uma Literatura Pensante"


Evando Nascimento. Editora: Civilização Brasileira (304 págs.; R$ 34,90).


Fonte: Valor Econômico