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Seca avança, e Cantareira recebe só 1/4 da água esperada para agosto
11/08/2015

 

Fraca entrada de água no maior manancial da Grande São Paulo indica futuro preocupante para 2016

 

Apesar de crise, Sabesp nega rodízio em 2015 e ampliará captação nas represas que abastecem 5 milhões de pessoas

FABRÍCIO LOBEL
DE SÃO PAULO

Nos dez primeiros dias deste mês de agosto, entraram apenas 6.600 litros de água por segundo no maior sistema de represas da Grande São Paulo, o Cantareira.

Esse volume representa pouco mais de um quarto da média histórica para este mês, de 24 mil litros por segundo.

A entrada de água nos reservatórios, tanto pelos rios como pelas chuvas, é o principal indicador da "saúde" de uma represa e indica um futuro preocupante, já que a temporada seca só deve acabar no mês de outubro –em 2014, as chuvas eram esperadas para outubro, mas só vieram em fevereiro deste ano.

Com reservatórios em situação crítica, a Grande São Paulo está há mais de um ano sob racionamento (entrega controlada de água), o que atinge principalmente bairros altos e das periferias.

Algumas residências chegam a ficar 20 horas do dia com as torneiras secas. A Sabesp, empresa de água do Estado, evita o termo "racionamento" e se refere à manobra como redução de pressão nos encanamentos da Grande SP.

A medida também reduz as perdas de água nas inúmeras falhas das tubulações da empresa, por onde se perde cerca de 19% da água tratada.

RODÍZIO

Apesar do quadro grave, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e o comando da Sabesp descartam um rodízio (corte do fornecimento de água) ao menos neste ano.

O problema é que a seca atual começa a minar o estoque para o ano que vem.

Isso porque a Sabesp, para atender –mesmo que a conta gotas– 5 milhões de moradores na região do Cantareira, precisa retirar ao menos 10 mil litros de água por segundo a cada dia.

É aí que a conta não fecha, já que a entrada diária tem ficado próxima dos 4.000 litros por segundo. Ou seja, com gasto maior do que a entrada de água, o volume das represas passa a cair.

O nível do Cantareira não sobe desde o dia 5 de junho. Só neste mês, o sistema já perdeu 9,4 bilhões de litros.

Nesta segunda-feira (10), iniciou o dia com 13,7% de sua capacidade –nessa mesma data do ano passado, o manancial estava com 26,4%.

O cenário do Cantareira já é tão preocupante que rios de sua bacia entraram em nível de alerta (leia texto na pág B3).

Apesar disso, a Sabesp não deverá reduzir o volume de água retirado do sistema até o final deste mês. Pelo contrário, a empresa pediu autorização para a ANA (Agência Nacional de Águas) e para o DAEE (Departamento de Águas e Esgoto do Estado de São Paulo) para aumentar a retirada das represas.

Tudo isso para que o Cantareira possa socorrer o sistema Alto Tietê, o segundo maior da região metropolitana e que tem perdido água muito rapidamente.

Localizado no extremo leste da Grande São Paulo, o Alto Tietê tem sido usado para abastecer moradores antes atendidos pelo Cantareira –que, com essa manobra, reduziu sua "clientela" de 9 milhões de pessoas para 5 milhões ao longo da crise.

O Alto Tietê deve ser socorrido a partir de setembro ou outubro, se cumprida a promessa do governo de entregar a principal obra contra a crise, a ligação por meio de tubulações entre o sistema Rio Grande (cheio) e o crítico Alto Tietê.

A obra, inicialmente anunciada para maio, está 75% concluída, segundo a Sabesp.

Folha de S. Paulo