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Projeto cria clubes da leitura em prisões de SP
23/08/2015

 

Grupos de detentos leem livros em 30 dias e depois fazem resenhas

 

Voluntários de editora analisam textos antes de enviá-los à Justiça, responsável por decidir sobre redução de pena

DE SÃO PAULO

Na penitenciária feminina de Santana, na zona norte de São Paulo, há presas com nível avançado de leitura.

"Algumas estão lendo autores como Raduan Nassar e Jack London", conta Janine Durand, coordenadora do núcleo de incentivo à leitura da Companhia das Letras.

Foi ali que, em 2011, em parceria com a Funap (fundação de amparo ao preso, ligada à Secretaria de Administração Penitenciária de SP), a editora criou seu primeiro clube de leitura numa prisão.

Em abril deste ano, a iniciativa se expandiu para oito cadeias. Foi criada uma biblioteca circulante com oito títulos, entre os quais "Cada Homem é Uma Raça", de Mia Couto, "Dois Irmãos", de Milton Hatoum, e "Persépolis", de Marjane Satrapi.

Grupos de 20 presos têm 30 dias para a leitura. Ao final, as obras são discutidas sob supervisão de um monitor da Funap treinado pela editora, e resenhas a respeito são elaboradas pelos detentos.

Sirlene Domingues, 39, que cumpriu pena de 2009 a 2013 por tráfico de drogas, defende o estudo e a leitura como melhor estratégia para a ressocialização dos presos.

"A cadeia em si não muda nada para o preso. Só causa revolta", diz.

Ela participou do clube organizado na penitenciária feminina em Santana.

Sirlene prestou Enem na prisão, conseguiu uma bolsa do Prouni e hoje está no terceiro ano do curso de farmácia. Ela não foi beneficiada pela remição pela leitura porque a medida não era aplicada na ocasião.

COERÊNCIA

Após a recomendação de 2013 do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), incentivando a remição por meio da leitura, a Companhia das Letras incluiu as resenhas como atividades dos clubes.

Hoje, antes de serem enviadas à Justiça para os pedidos de remição, elas são avaliadas por funcionários voluntários da editora, que fazem um parecer sobre os textos.

"A correção não passa pela questão ortográfica. É feita em cima da coerência e citação do livro", diz Janine.

Eduardo Oberg, juiz titular da Vara de Execuções Penais do Tribunal de Justiça do Rio, afirma que projetos assim beneficiam poucos presos, já que a grande maioria tem o fundamental incompleto. "Não podemos tratar cada um de um jeito."

Para Janine, o livro "é um direito humano básico que foi negado a uma determinada camada da população". "A leitura é um processo de formação. Não consigo entender como alguém é contra", diz.

Folha de S. Paulo