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A história de SP a partir das pedras de construção
25/08/2015

 

Elas são onipresentes e bastante diversificadas nas cidades, mas muitas vezes passam despercebidas, ou melhor, anônimas, mesmo tendo muito a revelar. Em São Paulo, a observação das rochas presentes em prédios e monumentos do Centro Histórico permite não só a percepção de suas variadas colorações, texturas e padrões, como também de aspectos da história.

É o que propõe o Roteiro Geoturístico Urbano do Centro Velho de São Paulo, publicado em junho na revista especializada Geoheritage. Elaborado pela geóloga Eliane Del Lama, professora do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com uma equipe de pesquisadores, o passeio cultural abrange 19 pontos de visitação ao longo de 6,5 quilômetros do centro da cidade.

Estão lá construções bastante conhecidas, como o Theatro Municipal, Catedral da Sé, Centro Cultural Banco do Brasil e Edifício Martinelli, e outras nem tanto, como vários edifícios comerciais de ruas da região (XV de Novembro, da Quitanda, etc.) – todos adornados com pedras.

A ideia do roteiro surgiu, inclusive, a partir de um levantamento realizado por Eliane sobre o estado de conservação desse material, que ela chama de patrimônio geológico urbano. Constatou que o maior problema a enfrentar para a preservação das rochas não é a exposição ao tempo, mas o vandalismo. “Surgiu a necessidade de tornar a geologia mais acessível ao público leigo. Mostrar que ela está muito mais próxima do que se imagina. Isso é um estímulo à conservação, pois as pessoas só cuidam do que elas conhecem”, explica a professora, que considera a trilha uma alternativa conciliável para o turismo histórico.

Por enquanto, esse percurso em que mais de duas dezenas de rochas diferentes dão o tom às construções só está disponível somente em inglês na publicação científica. “Temos interesse que ele seja oferecido junto a roteiros já consagrados do Centro Histórico, que são muitos. A intenção é que se misturem o quanto antes”, torce Eliane.

Modalidades – A especialista conta que a proposta de geoturismo urbano, nova em São Paulo, já existe em outras cidades, como Salvador, Curitiba e Natal, e principalmente fora do Brasil. Teve início nos anos 1980, em Londres, por iniciativa do geólogo Eric Ronbinson. “Ele foi o precursor. Aposentou-se e criou vários roteiros bastante conhecidos na cidade”, explica.

Outras modalidades do gênero, mais disseminadas fora do Brasil, são as que visam às pedras usadas em igrejas, conhecida como geologia eclesiástica, e as que abordam as construções dos cemitérios, a geologia tumular. Exemplo dessa última acaba de ser concluído por uma orientanda de Eliane, Luciane Kuzmickas, que desenvolveu, em sua pesquisa de mestrado, o Roteiro Geoturístico do Cemitério da Consolação de São Paulo.

“Trata-se de um local que concentra grande gama de rochas, como adorno de jazigos, mausoléus e, inclusive, esculturas maravilhosas de Victor Brecheret”, relata a professora, referindo-se às obras esculpidas em granito, O grande anjo (1938), que faz parte do túmulo da família Botti, e O sepultamento (1923), pertencente ao túmulo de Olívia Guedes Penteado. “A observação da arte tumular em pedra é mais uma opção a fazer parte do circuito de atrações da cidade”, sugere.

Granito – Foi no início do século 19 que as pedras passaram a integrar o cenário de São Paulo: as construções, de taipa (terra batida) até então, começaram a ser erguidas em alvenaria e ter as rochas incorporadas na decoração. “O granito cinza-itaquera é a mais importante nessa fase de crescimento da cidade e foi muito usado na ornamentação de pisos e calçadas”, conta Eliane.

Oriunda de uma região do bairro que lhe empresta o nome, a rocha foi explorada por cerca de um século, até que se exauriu da natureza, podendo ser encontrada, hoje em dia, somente nas construções. É ela, por exemplo, que constitui o monumento mais antigo do município, localizado no atual Largo da Memória: o Obelisco do Piques.

Projetado pelo engenheiro Daniel Muller e construído pelo mestre Vicente Pereira, em 1814, ele marcava o limite do núcleo urbano e era uma das portas de entrada da cidade no século 19. Um tanto mais tarde, no século 20, a cidade de dimensões bem mais amplas exibia muitas outras rochas, entre as quais os granitos cinza-mauá, verde-ubatuba, rosa-itupeva e o negro-piracaia, que embora seja conhecido como tal é, na verdade, um monzonito.

Em todos esses casos, as denominações apontam para o local de origem. “Temos no Brasil uma variedade muito grande de rochas ornamentais, para todos os gostos e bolsos”, informa Eliane. As maiores reservas estão no Espírito Santo, seguido por Bahia, Minas Gerais, Ceará e São Paulo. Mesmo assim, no processo de urbanização as pedras importadas também ganharam espaço por aqui, principalmente os mármores italianos de Carrara e Travertino, além do calcário português de Lioz.

Eles estão presentes principalmente nas construções que pertenceram ou foram financiadas pelos barões do café, que buscavam ostentar riqueza. “É bem visível como – depois da queda da bolsa e da crise do café – esse uso diminuiu e foi substituído pelo das pedras nacionais”, comenta a professora.

Segundo ela, faz parte dessa história, ainda, a aplicação indevida de pedras como revestimento em consequência do desconhecimento científico a respeito. Sobre isso, cita o caso do Theatro Municipal de São Paulo, um dos cartões-postais da cidade, construído em 1911 por Ramos de Azevedo. Sua fachada frontal, revestida com arenito-itararé, está bastante deteriorada, porque essa rocha não resiste bem à umidade.

“Foi usado porque é bonito, mas é uma rocha que, como possui argila mineral na composição, se degrada em contato com a água, sendo difícil a sua conservação. Ramos de Azevedo, um grande arquiteto, certamente não tinha esse conhecimento geológico”, avalia Eliane. “Já os granitos, tão usados, são muito resistentes”, finaliza.

DOE, Executivo II, 25/08/2015, p. II