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Leilão de linhas de transmissão fracassa
27/08/2015

 

Pouco interesse é atribuído a retorno baixo e incertezas e deve limitar a expansão na oferta de eletricidade no país

 

Apenas 4 dos 11 lotes ofertados foram arrematados; R$ 1,45 bilhão será investido, 19% do total esperado

TATIANA FREITAS
DE SÃO PAULO

Baixo interesse das empresas e ausência de disputa marcaram o leilão de linhas de transmissão de energia realizado nesta quarta-feira (26) pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica).

Apenas 4 dos 11 lotes ofertados foram arrematados e somente um deles recebeu mais de uma proposta. Os empreendimentos leiloados representam investimentos de R$ 1,45 bilhão, apenas 19% do total estimado pelo governo para as 11 linhas ofertadas.

O resultado atrasa a construção de linhas de transmissão no país, problema que afeta a segurança do sistema elétrico e restringe a expansão da oferta de energia.

Dois lotes foram arrematados pela espanhola Isolux, um pela estatal goiana Celg GT e outro pela Planova, uma empresa de planejamento e construções novata no setor.

A baixa concorrência resultou em um deságio baixo, de 2,04%, em média. O único desconto representativo em relação ao teto estabelecido pela Aneel foi de 15,5%, apresentado pela Celg, subsidiária da Eletrobras, para a construção de uma subestação em Goiás, sua área de atuação.

A Isolux ofereceu descontos de 1,49% e 0,12% nos empreendimentos que serão construídos na Bahia e em Rondônia. A Planova não ofereceu desconto na proposta apresentada para operar linhas no Rio Grande do Sul.

O presidente do Instituto Acende Brasil, Cláudio Salles, classificou o leilão como um "fracasso", que ele atribui à baixa remuneração imposta pela Aneel.

Embora tenha sido elevada de 5,5% para um intervalo entre 7,63% e 7,86%, a taxa mínima de remuneração (WACC) não reflete as condições atuais do mercado. "É uma taxa irrealista", afirma.

A alta do dólar, que eleva os custos com insumos, incertezas com a obtenção de licenciamento ambiental e o crédito escasso aumentaram o risco dos empreendimentos –o BNDES reduziu a parcela de financiamento nos projetos de 70% para 50%.

Ricardo Savoya, diretor da consultoria Thymos, especializada no setor, lembra que as empresas que atuam em transmissão já estão com grandes obras em curso, o que pode ter limitado o apetite delas no novo leilão.

CRONOGRAMA ATRASADO

Essa não é a primeira vez que leilões de transmissão são marcados pelo desinteresse do setor privado. Em janeiro, apenas metade dos lotes ofertados foi arrematada.

Nos certames do ano passado, 12 linhas de transmissão não receberam propostas. Em 2013, dez projetos ofertados não foram licitados e, em 2012, três, segundo o Instituto Acende Brasil.

Os lotes não arrematados são oferecidos posteriormente em outros leilões.

"A situação ainda não é crítica, mas a frustração nos leilões sinaliza que algumas usinas possam ter seu cronograma deslocado por causa de atrasos nas linhas de transmissão", diz Savoya.

A Aneel, que planeja um novo leilão de linhas de transmissão para outubro, indicou que pode reavaliar as condições impostas para os próximos certames. "O resultado foi aquém de nossa expectativa. Com base nele, faremos uma avaliação", disse Reive Barros, diretor da Aneel, após o leilão, segundo a Reuters.

Folha de S. Paulo