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USP estuda produção de água de reúso potável
24/10/2015

 

O problema da escassez de água na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) agravou-se nos últimos anos em decorrência da falta de chuvas, evidenciando a urgência na busca de alternativas para o abastecimento público. Resulta dessa situação um estudo inédito no País, a ser realizado em parceria pelo Centro Internacional de Referência em Reúso de Água (Cirra), da Universidade de São Paulo (USP), e a Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento (Sanasa), órgão responsável pelo fornecimento de água e tratamento de esgoto de 1,1 milhão de moradores de Campinas. A iniciativa visa à criação do primeiro sistema de produção de água de reúso potável para abastecimento da população.

“A priori, se pensou em produzir água de reúso não potável, que pode ter várias aplicações, como, por exemplo, o uso para descarga em bacias sanitárias, mas percebemos que essa não seria uma solução viável”, explica o engenheiro químico José Carlos Mierzwa, professor do Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental da Poli-USP e pesquisador do Cirra.

Mierzwa esclarece que o mais caro num sistema de abastecimento não é o tratamento da água, mas a estrutura e o funcionamento da rede de distribuição. “Estimamos que essa etapa consome cerca de 80% do custo. E, quando lidamos com o atendimento a um grande centro, como é o caso de Campinas, temos de ter em vista a criação de uma rede paralela para a distribuição da água de reuso não potável. Isso é viável financeiramente? Claro que não”, afirma.

A opção, então, surgiu de uma proposta que os especialistas do Cirra – a mais importante instituição de pesquisas na área do Brasil – defendem há alguns anos. O investimento no tratamento avançado de efluentes, capaz de convertê-los em água potável, ou seja, um produto seguro para ser consumido. “Hoje temos tecnologias no mercado que asseguram a obtenção de água de qualquer qualidade a partir de qualquer padrão. Então eu posso pegar desde esgoto e produzir água para uso bastante nobre, como a potável. Essas tecnologias são mais baratas do que fazer duas redes”, garante.

De acordo com o pesquisador, o maior propósito do estudo é demonstrar isso. “Embora a água de reúso potável seja uma realidade em vários países, como Estados Unidos, Austrália, Namíbia e África do Sul, entre outros, ainda é motivo de dúvida por aqui. O principal entrave para a sua utilização é a aceitação pública”, esclarece.

Tecnologias – Em fase final de concepção, o projeto, previsto para ter duração de cerca de sete meses, abrange a análise dos processos necessários ao tratamento num sistema em escala piloto, que terá capacidade de tratar 700 litros de esgoto por hora. Ele será alimentado com água de reúso não potável produzida pela Estação Produtora de Água de Reúso (Epar) Capivari II, da própria Sanasa.

As avaliações permitirão o estabelecimento de parâmetros para a utilização das tecnologias mais avançadas de tratamento de efluentes. São elas: a de membranas submersas, responsável pela remoção da matéria orgânica, a de osmose reversa, usada para a eliminação de contaminantes (hormônios, por exemplo) e sais dissolvidos, e, ainda, a de carvão ativado de meio granular, que tem como objetivo principal a redução de odores, coloração e gostos estranhos, incluindo o cloro.

Mierzwa informa que serão realizados testes em dois períodos diferentes, o mais crítico e o mais favorável, para que, ao final, seja projetado um sistema em escala real de reúso potável capacitado a operar em diferentes condições. “Isso é necessário porque ao longo do ano a característica do esgoto varia: por exemplo, no inverno as pessoas gastam menos água, então o esgoto fica mais concentrado. No verão, tomam muito mais banhos, e o esgoto fica mais diluído. As condições operacionais do tratamento também devem ser alteradas para que se obtenha água da mesma qualidade ao longo do ano”, pondera o especialista.

DOE, Executivo I, 24/10/2015, p. I