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15 de novembro de 1889 - A Proclamação da República no Brasil
14/11/2015

 


“Senhor, esta noite, o 1º e o 9º Regimentos de Cavalaria e o 2º Batalhão de Artilharia, a pretexto de que iam ser atacados pela Guarda Negra, e de ter sido preso o marechal Deodoro, armaram-se e mandaram prevenir o chefe do Quartel General de que viriam desagravar aquele marechal. O governo toma as providências necessárias para conter os insubordinados, e fazer respeitar a lei. Acho-me no Arsenal de Marinha com meus colegas da Justiça e da Marinha. (Ouro Preto).”


Eram 5h30 da manhã do dia 15 de novembro de 1889, quando chegou no Palácio Imperial de Petrópolis telegrama com a nota de “urgente” passado pelo presidente do Conselho de Ministros, Affonso Celso de Assis Figueiredo, o visconde do Ouro Preto. Dom Pedro 2º o recebeu e leu várias vezes. Resolveu, mesmo assim, fazer seu passeio matinal. O próprio imperador foi até a estação para se informar com que antecedência devia solicitar o trem especial, recebendo como resposta que uma hora bastaria. O agente prometeu o transporte para às 11h.


Logo a seguir, foi à catedral de Petrópolis, em companhia de sua esposa dona Thereza Christina, e de pessoas de sua amizade, para assistir à missa pela alma de sua irmã, dona Maria 2ª, rainha de Portugal, pelo 36º aniversário de seu falecimento.


Na saída recebeu novo telegrama do visconde de Ouro Preto: “Senhor, o Ministério, sitiado no Quartel General da Guerra, à exceção do Sr. Ministro da Marinha, que consta achar-se ferido em casa próxima, tendo por mais de uma vez ordenado debalde, por ordem do Presidente do Conselho e do Ministro da Guerra, que se repelisse pela força a intimação armada do marechal Deodoro, para pedir sua exoneração, e diante das declarações feitas pelos generais visconde de Maracaju, Floriano Peixoto e barão do Rio Apa, de que, por não contarem com a tropa reunida, não há possibilidade de resistir com eficácia, depõe nas augustas mãos de Vossa Majestade o seu pedido de demissão. A tropa acaba de fraternizar com o marechal Deodoro, abrindo-lhe as portas do quartel.”


Após ler o telegrama, inteirou-se da gravidade da situação  e, dirigindo-se à imperatriz, disse: “Vamos à Corte, porque não se sabe o que fez Deodoro...” A imperatriz pediu a seu marido que o coche passasse pelo palácio antes para pegar sua valise e sua capa, mas o imperador respondeu que se quisesse acompanhá-lo, que fosse dali para a estação ferroviária. Assim fez dona Thereza Christina.


A preocupação da imperatriz era com as suas joias, que havia usado dias antes, no sábado, 9 de novembro, no baile da Ilha Fiscal, em homenagem aos oficiais chilenos do navio de guerra Almirante Cockrane, que realizavam uma visita ao Brasil. Como havia partido diretamente para Petrópolis, não tivera como guardá-las na Quinta da Boa Vista, palácio localizado em São Cristóvão, no Rio.


A linha ferroviária ligava Petrópolis ao distrito de São Francisco Xavier. A partir daí o transporte passou ser feito por terra, em carruagens e, pela primeira vez, não foram escoltadas por cavalarianos, para estranheza de todos.


Chegaram ao Rio às 14h. Dom Pedro dirigiu-se diretamente ao Paço Imperial, localizado no centro do Rio de Janeiro (hoje Praça 15 de novembro), por caminho diverso do habitual. No Paço, foi recebido pelo comandante do vaso de guerra chileno, o capitão de mar-e-guerra don Constantino Bannen, que ofereceu abrigo mais seguro a bordo do seu encouraçado. O imperador agradeceu e respondeu: “Fogo de palha, comandante, como o senhor verá. Conheço de sobra a minha gente... Fogo de palha!”.


Apesar de se mostrar confiante e calmo, estava seriamente sucumbido. Desde 1886, a saúde do monarca estava debilitada, ele sofria de apneia do sono tipo obstrutivo, e de diabetes, que lhe provocava incontinência urinária e fraqueza nas pernas. Na viagem à Europa em 1888, quando se encontrava em Milão, na Itália, durante os 20 dias que permaneceu acamado, seu estado chegou a ser considerado como desesperador. Em face da gravidade de seu estado de saúde, chegou ao ponto de receber extrema-unção, mas graças aos cuidados médicos conseguiu reagir.


As causas


A chamado do imperador, Ouro Preto, que havia sido preso juntamente com outros ministros e posteriormente libertado, informou com detalhes tudo que havia ocorrido envolvendo a tropa e Deodoro da Fonseca, inclusive a longa conversa havida entre eles na sede do quartel-general, quando este afirmou que se pusera na frente do Exército para vingá-lo das gravíssimas injustiças e ofensas recebidas do governo. Na realidade, eram boatos intencionalmente espalhados como notícia, a intriga foi feita perante a tropa sediada no Rio de Janeiro pelo major Frederico Sólon de Sampaio Ribeiro, que estava imbuído dessa tarefa pelos republicanos, missão nada honrosa para um militar, ainda mais um oficial do Exército. Outra inverdade era a ordem de prisão contra Deodoro e o embarque para outras províncias de alguns corpos do Exército, mais sabidamente  comprometidos com a conspiração. O derradeiro primeiro ministro do Império, ou presidente do Conselho de Ministros, como era titulado naquela época, diria para Lourenço de Albuquerque, ministro da Agricultura: “Fomos miseravelmente traídos. Chamaram-nos para esta ratoeira a fim de que não pudéssemos organizar lá fora a resistência. Antes me houvessem matado!”


Outro motivo que culminou com o advento da República o Brasil foi sanção da Lei Áurea, instituída em 13 de maio de 1888, pela princesa Isabel, na ocasião regente do Império, em virtude da viagem de seu pai dom Pedro 2º à Europa para tratar da saúde. Os proprietários rurais, na maioria conservadores, eram monarquistas, e com a libertação dos mais de 700 mil escravos que existiam no país, ficaram sem mão de obra e tiveram ainda um grande               prejuízo financeiro. O descontentamento com a coroa               foi enorme, e muitos agricultores passaram a apoiar o partido Republicano, e outros a partir de então não mais defenderam o regime monárquico dos ataques que sofriam dos opositores, e da imprensa republicana que soube aproveitar a situação.


Cabe ressaltar a função do marechal-de-campo Floriano Peixoto, (havia sido promovido a esse posto apenas cinco meses antes). No governo imperial ele exercia o cargo de  ajudante-general, o segundo mais importante no Exército, após o de ministro, para o qual havia sido nomeado pelo próprio Ouro Preto. Por essa função de estrita confiança, era seu dever defender o regime imperial, mas na hora que deveria agir contra os rebelados, faltou com a lealdade com o governo que tinha a obrigação de ofício. Quando inquerido pelo presidente do conselho para que os combatesse, Floriano, saindo pela tangente, afirmou: “As bocas de fogo  no Paraguai, senhor ministro, eram inimigas: aquelas que Vossa Excelência está vendo são brasileira..”


E assim o Império brasileiro chegou ao fim, sem nenhuma ação, e velada omissão de Floriano, que seria mantido no cargo na República e pouco tempo depois seria ministro da Guerra em substituição a Benjamin Constant, vice-presidente da República, e com a renúncia forçada de Deodoro em 1891, chefe da Nação, sem nenhum esforço. Seu lema era: “confiar desconfiando...”


Durante a sangrenta revolução federalista que eclodiu durante o seu governo, em 1893, não teve compaixão com os adversários, nem para seus colegas de farda e da Marinha de Guerra brasileira, e quanto menos com os civis que se revoltaram contra ele. Aos militares determinou fuzilamentos sumários, e, para os outros, os civis, a forca. Entre as vítimas estava o catarinense marechal Manuel de Almeida da Gama Lobo Coelho d’Eça, o barão de Batovi, herói da guerra do Paraguai. Não satisfeito, para espezinhar o povo de Santa Catarina, o nome da capital do Estado foi mudado de Desterro para Florianópolis, que significa “cidade de Floriano”. Não foi sem razão que foi chamado de “marechal de ferro”.


O visconde demissionário do Conselho de Ministros se recusou a permanecer no cargo, apesar dos apelos de do Pedro 2º. Ouro Preto sugeriu para o seu lugar o senador gaúcho Gaspar Silveira Martins, mas este estava em viagem de sua terra ao Rio de Janeiro, e só chegaria quatro dias depois. Mas eles não sabiam que Silveira Martins e Deodoro da Fonseca eram inimigos por causa de uma mulher, Maria Adelaide Andrade Neves Meirelles, a baronesa de Triunfo. Deodoro havia sido comandante de armas, vice-presidente e depois presidente da província do Rio Grande do Sul, e, apesar de casado, disputou com o político gaúcho o coração da baronesa, perdendo a contenda.


Fato consumado


Dom Pedro 2º solicitou a presença do marechal Deodoro da Fonseca no Paço Imperial, mas os emissários voltaram e lhe informaram que ele não veria ninguém por estar muito enfermo. Desde o dia anterior, vítima de grave dispneia, ele estava tão debilitado que fora obrigado a sair de casa em um coche e só então montou um cavalo, um baio, para entrar no quartel general no Campo de Santana, no centro do Rio. De retorno a casa, sua esposa, dona Marianinha, trancou as portas da residência, não permitindo o contato do marido com quem quer que fosse... Mas o tenente-coronel Benjamim Constant, o ideólogo dos republicanos, seria o único a ser recebido para levar-lhe os despachos iniciais do governo, como a proclamação e a nomeação dos novos ministros. Curiosamente esses atos haviam sido lavrados no Instituto dos Cegos, do qual Constant era diretor.


O imperador ainda aguardou a presença de Deodoro, que não apareceu e nem apareceria. Os jornais de todo o Brasil já traziam em manchete o advento da nova forma de regime. O primeiro a proclamar de fato a República foi José do Patrocínio, durante a reunião do Conselho Municipal do Rio de Janeiro, quando desfraldou o pavilhão republicano e, em nome do povo, declarou extinta a monarquia. O povo foi colocado à margem dos acontecimentos, e só tomou conhecimento dos fatos após estarem consumados. Não houve em nenhum momento um ato heroico, como ocorreu no dia 7 de setembro. Só depois veio o decreto e número 1, assinado na cama por Deodoro da Fonseca, que se encontrava prostrado devido a doença. Nele, em seu artigo 1º, está explicitado que ficava proclamada provisoriamente a República no Brasil. A decisão da mudança de regime partiu exclusivamente de Benjamin Constant, que pressionou o velho marechal para fazê-lo.


A cidade viveu mais um dia e, à noite, nada de anormal ocorreu, excetuando-se a determinação das autoridades de não haver ajuntamentos. E em torno do Paço, a tropa cercou dom Pedro 2º, sua família e amigos.


No dia seguinte, após deliberações que ocorreram à noite e de madrugada com o Conselho de Estado, ficou decidido que José Antônio Saraiva, o conselheiro Saraiva, deveria formar um novo ministério. Ao ser consultado pelo emissário do governo, major Roberto Trompowski, Deodoro, afirmou: “Agora já é tarde”. A partir das 10h veio à ordem de não deixar entrar nem sair do Paço quem quer que fosse. A família imperial estava literalmente presa.


Às 15h foi entregue ao imperador uma carta de Deodoro da Fonseca, portada pelo major Sólon Ribeiro, comandante interino do 9º Regimento de Cavalaria, acompanhado de alguns subordinados. Nervoso, o major tratou dom Pedro 2º de Vossa Excelência, depois Vossa Alteza e, finalmente, de Vossa Majestade, o correto. O documento informava da situação insustentável do gabinete de Ouro Preto; da perseguição deste contra o Exército; da situação do país, principalmente econômica, e, ao final, declarava a destituição do imperador e a consequente proclamação da República no Brasil, além de determinar a partida da família imperial para o exílio em 24 horas.


Dom Pedro, após da saída dos oficiais, ditou para Franklin Américo de Meneses Dória, o barão de Loreto, e depois assinou a resposta ao marechal Deodoro: “À vista da representação escrita, que foi entregue hoje às 3h da tarde, resolvo, cedendo ao império das circunstâncias, partir com toda a minha família amanhã, deixando esta pátria, de nós estremecida, à qual me esforcei por dar constantes testemunhos de entranhado amor e dedicação durante quase meio século em que desempenhei o cargo de chefe de Estado. Ausentando-me, pois, eu com todas as pessoas da minha família, conservarei do Brasil a mais saudosa lembrança, fazendo ardentes votos por sua grandeza e prosperidade. Rio de Janeiro,  16 de novembro de 1889.


O embarque para o exílio Todos permaneceram o dia 16 detidos no Paço, com soldados com baionetas e cavalarianos cercando o prédio.  Ficou acertado que no dia seguinte, domingo, 17/11, por volta das 15h, dom Pedro 2º e os demais embarcariam, tendo sido permitido a ele assistir de manhã à missa na Capela do Carmo, vizinha ao palácio. Mas, de madrugada, o Conde d´Eu foi inesperadamente despertado com a chegada do seu ajudante de ordens, o tenente-coronel João Nepomuceno de Medeiros Mallet, acompanhado do brigadeiro José Simeão de Oliveira, que lhe comunicou que o governo provisório temia o derramamento de sangue na partida da família imperial, pois soubera que havia um grupo disposto a provocar atritos quando da saída do monarca. Dom Pedro d´Alcântara.”


Acordado, o imperador foi informado que deveria se vestir para embarcar. Surpreso e revoltado, disse “que não sairia como um negro fugido...” Mas, por volta das três da manhã, foi escoltado juntamente com a imperatriz e toda a família, além de alguns amigos, para o Cais Pharoux, bem atrás do Paço Imperial, hoje Praça Quinze de Novembro. Somente um coche negro puxado por dois cavalos estava à disposição, no qual foram os imperadores e a princesa Isabel; os demais seguiram a pé. Uma lancha do Arsenal de Guerra, tripulada por quatro alunos da Escola Militar, aguardava-os. Foram transportados para o pequeno cruzador Parnaíba, apelidado de “Gazela do Mar”, fundeado na Baía da Guanabara, próximo à Ilha Fiscal.


Às 10h chegaram os três jovens príncipes, Pedro, de 14 anos, Luiz, de 11, e Antônio, de 8, que se encontravam em Petrópolis, acompanhados pelo seu preceptor, o barão de  Ramiz Galvão, e pelo engenheiro André Rebouças, amigo  da família imperial, que havia subido a serra especialmente para trazer os filhos da Redentora e do Conde D´eu. A bordo, profundamente abalada, estava a imperatriz dona Thereza Christina, que muito chorava; não menos comovida estava a princesa Isabel, mas aliviada com a chegada dos seus filhos.


O segundo decreto assinado por Deodoro concedia ao imperador deposto uma soma de dinheiro para sua viagem à Europa. O tenente Jerônimo Teixeira França foi incumbido  de levar esse documento do governo provisório a dom Pedro; primeiramente deveria ser entregue no Paço, mas o major Mallet, receando que o imperador pudesse criar algum mal estar no momento, não deixou entregá-lo, o que foi feito somente a bordo do Parnaíba. Mas ele recusaria por mais de uma vez a oferta monetária. Entre os poucos amigos que foram se despedir de dom Pedro 2º, estava o velho almirante Joaquim Marques Lisboa, o marquês de Tamandaré.


Ao meio dia de 17 de novembro de 1889, a embarcação, sob o comando do capitão-de-fragata José Carlos Palmeira, levantou ferros e partiu em direção a Ilha Grande para encontrar o paquete Alagoas, da Companhia Brasileira e Navegação a Vapor, o mais novo e moderno navio de passageiros da marinha mercante do Brasil, que fora requisitado especialmente pelo governo republicano para levar a realeza destronada para o exílio na Europa e o seu pequeno séquito. Além dos membros da família imperial, viajaram André Rebouças; o barão e baronesa  Loreto, Franklin Américo de Meneses Dória e a sua esposa Maria Amanda Lustosa Paranaguá; o marquês e a marquesa de Muritiba, Manuel José Vieira Tosta e sua esposa Maria José Velho de Avelar (amiga e dama da princesa Isabel); a octogenária viscondessa de Fonseca Costa, Josefina de Fonseca Costa (dama da Imperatriz por mais de 40 anos); o professor de línguas orientais dr. Cristian F. Seybold; o médico do imperador Claudio Velho de Motta Maia, conde Motta Maia, e seu filho Manoel Augusto, de 14 anos;as criadas da imperatriz Joana de Alcântara, Leonídia L.Esposel, Ludomilla de Santa Mora, Maria da Gloria e Julieta Alves; o  criado do príncipe dom Pedro, Augusto François N. Boucher; os criados dos filhos da princesa Isabel, Eduardo Damer e Guilherme Wagner Camerloker; o professor dos príncipes mais novos, Fritz Stoll, além de Francisco de Lemos Faria Pereira Coutinho, o conde de Aljezur, substituindo o mordomo imperial. O transbordo dos passageiros para o navio Alagoas foi realizado com dificuldades e perigos de um mar agitado, sendo a imperatriz ajudada por dois marinheiros.


O novo governo determinou que o encouraçado Riachuelo da Marinha de Guerra, sob o comando do então capitão tenente Alexandrino Faria de Alencar (seria ministro da Marinha em três governos da República) fizesse a escolta do Alagoas até a linha do Equador, já fora de águas territoriais brasileiras. Durante a viagem, dom Pedro notou a que a velocidade da embarcação estava muito lenta e indagou ao comandante do navio (o português, mas brasileiro por adoção, João Maria Pessoa) a velocidade do Riachuelo. Foi informado que era de apenas sete ou oito milhas náuticas. Apesar de não ser antigo – tinha apenas pouco mais de cinco anos de uso – e dom Pedro 2º de muita boa memória, sabia que quando foi construído, sua velocidade máxima era de 16 milhas. Concluiu-se que a embarcação de guerra estava com problemas mecânicos. Um dia o imperador reclamou ao capitão Pessoa, e apontando ao 1º tenente João Augusto do Amorim Rangel, oficial da Marinha que estava a bordo para cumprir as determinações das autoridades republicanas, juntamente com seu colega, o 2º Tenente Antônio Barbosa de Magalhães Castro:


– Diga a esse moço que vem a bordo que se o Riachuelo é honraria, eu dispenso; se quer dizer receio, eu não quero voltar. O Brasil não me quer, vou-me embora!


Na altura da Bahia, no dia 22 de novembro, para alívio de todos, e em especial de dom Pedro, o Riachuelo encerrou sua missão, e deu meia volta para dirigir-se a Salvador, e o Alagoas pode então seguir sua longa viagem, em uma velocidade compatível com suas caldeiras.


Durante a viagem, o jovem príncipe dom Pedro Augusto, neto de dom Pedro 2º, criado por ele e pela imperatriz desde a morte de sua mãe, a princesa Leopoldina de Bragança, quando contava com quase cinco anos de idade, começou a dar sinais de debilidade mental. Com mania de perseguição, no seu primeiro surto psicótico, tentou esganar o comandante do navio, a quem acusava de ter recebido dinheiro para eliminar a todos. Contido e confinado em seu camarote, foi acometido de delírios persecutórios, chegando a envolver seu corpo numa boia salva-vidas,


temendo que o navio fosse bombardeado. Alternando momentos de excitação e de letargia, Pedro Augusto jogava garrafas ao mar com pedidos de socorro. Pelo menos uma dessas mensagens foi encontrada na praia de Maragogi, próximo a Maceió, em Alagoas. Posteriormente, seu pai, o príncipe austríaco Luís Augusto de Saxe-Coburgo-Gota, o internou. Primeiro em Graz e depois em um sanatório em Tülln an der Donau, onde permaneceu por quarenta anos, até sua morte em 1934.


No dia 1º dezembro, houve uma parada para reabastecimento em São Vicente, no arquipélago de Cabo Verde, uma possessão portuguesa no oceano Atlântico, próximo à costa africana. No dia 1º dezembro houve uma parada para reabastecimento em São Vicente, no arquipélago de Cabo Verde. Os passageiros autorizados a descer foram visitar alguns pontos da cidade, incluindo uma igreja, onde rezaram. Dessa escala, foi içada na popa do Alagoas uma bandeira imitando o “M” do Código Internacional de Sinais, com o fundo completamente vermelho e sobre filetes brancos em xis as 21 estrelas em filete azul, sendo a estrela do centro maior. Essa bandeira foi entregue em alto mar pelo comandante do Riachuelo ao capitão Pessoa, como símbolo do novo regime brasileiro. A nova bandeira iria causar uma quase crise com Portugal, que determinou a sua retirada por não ser reconhecida de acordo com as normas internacionais. Para evitar maiores problemas, o governo provisório brasileiro determinou que durante a permanência do navio em águas portuguesas não fosse arvorado nenhum pavilhão.


Quando da partida do Alagoas, o navio da marinha portuguesa Bartolomeu Dias, que estava no porto, deu uma salva de 21 tiros de canhão. Nesse momento, foi içada a bandeira do Império, e todos que estavam a bordo, se levantaram e bateram palmas, alguns emocionados até as lágrimas. Da embarcação lusitana e de alguns navios alemães que ali se encontravam, tripulantes e passageiros sacudiram lenços brancos. No dia seguinte, foi comemorado a bordo o 64º aniversário do imperador, que ficou muito comovido ao ouvir as palavras de saudação do comandante Pessoa em sua homenagem, quando este ergueu um brinde, ao lado dos presentes. Dom Pedro respondeu com palavras trêmulas:


- Bebo à prosperidade do Brasil!


Em Portugal


Em 7 de dezembro, com a bandeira do Império tremulando no mastro, o Alagoas finalmente chegou a Lisboa. Dom Pedro foi recebido com honras por seu sobrinho dom Carlos e toda a corte portuguesa. Permaneceu na capital lusitana por 15 dias. Nesse curto período, visitou o túmulo de seu pai, dom Pedro 1º (dom Pedro 4º para os portugueses), na igreja de São Vicente de Fora, onde rezou e depositou, no mesmo local, uma coroa de flores no túmulo do rei Luís, recentemente falecido, tendo participado de uma missa em intenção da alma desse seu sobrinho.


Foi a escolas superiores, associações científicas, como o Museu do Carmo, a Escola Politécnica, o Curso Superior de Letras, onde assistiu aulas, o bairro lisboeta da Alfama, o Jardim Zoológico, a Escola Médica, o Hospital São José, a Academia de Ciências, o Mosteiro dos Jerônimos, onde


colocou uma coroa no túmulo do poeta e escritor português Alexandre Herculano, e no hotel onde ficou, local em que recebeu algumas visitas. Esteve também nos palácios das Necessidades, residência dos reis de Portugal, e de Queluz, em Sintra. Neste último, permaneceu em silêncio por muito tempo, meditando, diante da cama aonde havia falecido seu pai, em 24 de setembro de 1834. Esteve ainda na Ajuda, palácio real de verão, e em Belém, residência oficial dos príncipes reais, para retribuir as visitas que o rei e a família real portuguesa fizeram no hotel Bragança, onde estava hospedado com sua família e comitiva.


Seu sobrinho dom Carlos seria coroado rei de Portugal em 28 de dezembro, e dom Pedro resolveu então realizar uma visita à região do Minho, no norte do país. No dia 22, chegou a Coimbra, sendo recepcionado pelos estudantes e professores da velha universidade, e depois seguiu para a cidade do Porto. Seu único intuito era não perturbar os festejos reais. No Porto, enquanto visitava a Academia de Belas-Artes, no mesmo dia 28, a imperatriz dona Thereza Christina, com a saúde debilitada, sofrendo de bronquite, amargurada e abalada com a situação causada com a proclamação da República e o consequente exílio, faleceu repentinamente, aos 67 anos de idade. Avisado do grave estado, retornou rapidamente ao hotel, mas quando chegou sua companheira por longos 46 anos estava morta. Sua tristeza foi profunda; em silêncio, chorou a partida de sua amada Thereza Christina. Sua filha Isabel, com seu marido Conde D´Eu e seus filhos, tinham ido à Espanha visitar os tios, os condes de Montpensier, que lá residiam, e et retornaram a Portugal assim que receberam a triste notícia do passamento da imperatriz.


O corpo de dona Thereza Christina, depois de embalsamado e velado na igreja da Lapa – local onde permanece guardado o coração do imperador do Brasil, dom Pedro 1º – foi transportado de trem do Porto para Lisboa e depositado no Panteão dos Braganças, na Igreja de São Vicente de Fora, ao lado da segunda imperatriz do Brasil, dona Amélia, em cerimônia que contou com a presença da família real portuguesa e autoridades. Após os funerais de sua esposa, permaneceu poucos dias em Lisboa, seguindo para a França, hospedando-se em Cannes para fugir do forte inverno europeu.


Exílio e morte do imperador


Menos de dois anos depois, o imperador se encontrava em Paris para participar das sessões do Instituto de França, na Academia de Ciências, da qual era sócio. Em 24 de novembro, foi fazer um passeio em carruagem aberta até Saint-Cloud, nas margens do rio Sena, onde, apesar do frio do inverno, resolveu fazer uma caminhada. No dia seguinte amanheceu febril, com um forte resfriado. E seu estado de saúde foi se agravando.


O último imperador do Brasil veio a falecer aos vinte minutos do dia 5 de dezembro de 1891, vitimado por uma pneumonia aguda no pulmão esquerdo, em um modesto quarto do Hotel Bedford, localizado na Rue de l´Arcade número 17, três dias após completar 66 anos de idade. Uma placa de bronze na parede da frente do hotel lembra o fato até os nossos dias.


Dom Pedro 2º, em seu leito de morte, estava vestido com o uniforme de marechal do Exército Imperial Brasileiro, com as condecorações do Brasil, França, Portugal, e um crucifixo em suas mãos, que havia recebido do Papa Leão 13. Um livro, significando que descansava sobre o conhecimento, foi colocado embaixo do seu travesseiro, com terra de todas as províncias (hoje Estados) brasileiras. Um pedido que havia deixado por escrito.


O governo francês resolveu prestar as últimas homenagens de Estado ao imperador brasileiro e comunicou à princesa Isabel, que aceitou as honras oficiais, mas o governo brasileiro protestou por essa atitude. No Brasil, ao saberem da morte do antigo monarca, o comércio fechou as portas e várias missas foram realizadas por sua alma por todo o país.


O corpo embalsamado do imperador foi levado para a Igreja da Madalena, situada perto da Praça da Concórdia, a poucos passos do hotel onde morreu. Ao meio dia de 9 de dezembro, com o caixão coberto com a bandeira do Império brasileiro, colocado em um catafalco elevado na nave da igreja, as exéquias solenes foram celebradas pelo arcebispo de Paris, com a igreja totalmente lotada e a presença da Casa Militar do presidente da França, Sadi Carnot, que o representou. Além dos presidentes da Câmara e do Senado da República francesa, esteve presente o cônsul-geral de Portugal em Paris, o escritor Eça de Queiroz, todo o corpo diplomático, dentre inúmeras autoridades.


Pelas ruas de Paris, 80 mil homens das tropas francesas, oriundas de várias guarnições militares situadas em torno da capital, participaram das honras. O coche fúnebre, puxado por oito cavalos cobertos de negro, foi escoltado pela guarda republicana, acompanhado por uma banda de música militar tocando a marcha fúnebre de Chopin, e nada menos que 300 mil pessoas, apesar do frio, foram prestar as derradeiras homenagens a dom Pedro 2º, uma das maiores realizadas a uma autoridade na história da França. Quando o cortejo passou pela Praça da Concórdia, foram prestadas as honras militares e uma bateria de artilharia deu as salvas de estilo. O corpo foi transportado em um trem especial para Lisboa, com uma parada em Madrid, onde a Casa Real espanhola prestou também suas homenagens. Em Lisboa, o rei dom Carlos, toda sua família, o ministério, altas autoridades, e milhares de pessoas participaram também das honras e despedidas ao velho imperador brasileiro. Na igreja de São Vicente de Fora, o cardeal dom José Sebastião de Almeida Neto, Patriarca de Lisboa, recebeu o esquife. Depois de rezada uma missa, o ataúde com o corpo do imperador foi colocado ao lado do jazigo da imperatriz Thereza Christina, no panteão da família Bragança.


No governo Epitácio Pessoa, em 1920, foi revogado o decreto de banimento da família imperial, e no ano seguinte a bordo do encouraçado São Paulo, da Marinha de Guerra, os restos mortais de dom Pedro 2º e de dona Thereza Christina foram trazidos para o Brasil. No ano de 1939, foram finalmente depositados em um túmulo especialmente construído na catedral de Petrópolis, no estado do Rio de Janeiro, em solenidade presidida pelo então presidente da República Getúlio Vargas.


*Antônio Sérgio Ribeiro, advogado e pesquisador. É funcionário da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.


 


DOE, Legislativo, 14/11/2015, p. 7 a 9