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FMI anuncia inclusão do yuan chinês em cesta de moedas de reservas
01/12/2015

 

MARCELO NINIO
DE WASHINGTON

Em uma importante vitória política da China, o FMI (Fundo Monetário Internacional) anunciou nesta segunda (30) a inclusão do yuan em sua cesta de moedas de reservas. A moeda chinesa se junta às demais que compunham a cesta, o dólar americano, o euro, o iene japonês e a libra esterlina.

O Comitê Executivo do FMI, que representa os 188 membros do Fundo, justificou a decisão afirmando que o yuan cumpre a condição de ser uma moeda "livremente utilizável". A conclusão é controvertida, devido às intervenções do governo chinês. Para muitos economistas, a decisão é motivada pelo interesse político de estimular a China a acelerar sua abertura financeira.

A mudança entra em vigor em 1º de outubro de 2016. O yuan terá a terceira maior participação na cesta de moedas, com 10,92% _contra 41,73% do dólar, 30,93% do euro, 8,33% do iene e 8,09% da libra.

Para a diretora-gerente do Fundo, Christine Lagarde, a decisão é "um importante marco na integração da economia chinesa ao sistema financeiro global" e um reconhecimento do progresso das reformas.

"A continuação e o aprofundamento desses esforços contribuirão para um sistema monetário e financeiro internacional mais robusto, que por sua vez dará suporte ao crescimento e à estabilidade da China e da economia global", afirmou a diretora-gerente do FMI.

DIVERSIFICAÇÃO

Os Direitos Especiais de Saque (SDR, na sigla em inglês), nome oficial da cesta de moedas, foram criados em 1969 para complementar as reservas dos bancos centrais e dar apoio ao sistema de taxas de câmbio fixas estabelecido pelos acordos de Bretton Woods, em 1944.

Conhecido como "a moeda do FMI", o SDR tem sua composição reavaliada a cada cinco anos. A campanha chinesa pela diversificação da cesta é antiga, mas na última revisão, em 2010, o FMI decidiu não adicionar o yuan por considerar que a moeda não era "livremente utilizável".

CRITÉRIOS

Dois critérios básicos são levados em conta para a inclusão de uma moeda no SDR. O primeiro é uma participação significativa nas exportações mundiais da economia atrelada à moeda. Tal requisito é amplamente cumprido pela China, que já tem a maior fatia do comércio global. Além disso, no mês passado o yuan tornou-se a quarta moeda mais usada em pagamentos globais, numa ascensão meteórica: em 2012 estava na 16ª posição.

O segundo critério é que a moeda seja plenamente conversível e que o Estado emissor mantenha um sistema aberto para que investidores de outros países possam negociar ativos nessa moeda com base nas forças de mercado. Segundo alguns analistas, as dúvidas em relação a esse critério causaram divisões entre técnicos do FMI, que hesitaram em corroborar que a moeda chinesa é "livremente utilizável", já que pode variar dentro de uma banda de 2%.

Segundo ele, é compreensível que a decisão tenha causado divisões entre membros do comitê do FMI. "Eles estão absolutamente certos em ficar hesitantes. Os ricos da China não tem nenhum problema em driblar os controles de capital, mas o homem comum enfrenta sérios obstáculos para converter suas economias para uma moeda diferente", escreveu. "A conta de capital ainda é fechada, apesar da retórica do PboC [banco central chinês]".

POLÍTICA

Para Jake van der Kamp, comentarista de finanças do jornal "South China Morning Post", de Hong Kong, o cálculo do FMI foi principalmente político, o que causou desconforto entre técnicos do organismo. "Eles estão absolutamente certos em ficar hesitantes", escreveu, lembrando que ainda há "sérios obstáculos" para a flutuação da moeda chinesa.

A decisão do FMI tem sobretudo importância simbólica, por reconhecer o peso da China na economia mundial. A curto prazo, o impacto é limitado, pois há poucos ativos precificados em SDR. Enquanto satisfaz o desejo de Pequim em entrar no clube das principais moedas do mundo, também aumenta a pressão para que as autoridades chinesas permitam a ação efetiva das forças de mercado sobre o câmbio.

Sem o aumento da transparência na política monetária do país, o uso do yuan como moeda de reserva continuará sendo visto com ceticismo, segundo André Soares, ex-coordenador de pesquisa e análise do CEBC (Conselho Empresarial Brasil-China).

"Há sempre a possibilidade de o governo impor variações bruscas no valor do yuan, o que cria riscos para quem quer ter a moeda como reserva. Nada garante que o yuan irá apreciar no ritmo das regras de mercado", afirma.

Folha de S. Paulo