Notícias

De volta, o patrimônio, a história e a cidadania
16/12/2015

 

Quem já ouviu falar na história do Castelinho da Rua Apa – casarão que foi palco de um crime enigmático na década de 1930 – logo lembra: “Tem fama de mal-assombrado”. A aparência que o imóvel quase centenário exibe há décadas, ali, pertinho da Avenida São João, também é motivo de má impressão, já que, apesar de vistoso, está bastante deteriorado.

No entanto, essa trajetória, marcada pela tragédia e abandono de muitas décadas, acaba de ter seu rumo alterado com a notícia da restauração. A obra teve início em outubro, graças aos recursos obtidos pela Secretaria de Estado da Justiça e da Defesa da Cidadania no Fundo Estadual de Defesa dos Interesses Difusos (FID). O órgão vai investir cerca de 90% do custo total previsto para a obra de restauração, R$ 2.876.643,33, e R$ 208 mil serão aplicados como contrapartida pela Oficina Profissionalizante Clube de Mães do Brasil – organização social que detém o direito de uso do prédio desde 1996.

Para o presidente do Conselho Gestor do FID, Luiz Souto Madureira, o significado dessa recuperação vai muito além do aparente. “Não se trata apenas do restauro de uma obra de grande significado, mas, acima de tudo, é uma iniciativa de reinserção social, do restauro da crença e da pessoa humana”, considera, tendo em vista a atuação da ONG e de sua criadora e presidente, Maria Eulina Hilsenbech.

Sonho – Desde que assumiu o imóvel, a maranhense de 63 anos, que chegou a São Paulo aos 20 anos, fez dele uma referência de apoio a moradores de rua, principalmente dependentes de drogas. Para isso, desenvolve há 40 anos, num espaço anexo ao Castelinho, o trabalho assistencial que agrega acolhimento, formação profissional e conscientização ambiental.

O destino atual do casarão paulistano, construído entre 1912 e 1917 e tombado pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Compresp) em 2004, é fruto do grande esforço de Eulina. “A recuperação do castelinho é um grande sonho que está se realizando. Aqui vai ser o nosso quartel-general”, diz ela.

Para a historiadora e professora Maria Candelária Volponi Moraes, a importância da realização da obra está vinculada a dois aspectos fundamentais. “Por um lado pelo Castelinho ser um ícone da memória da cidade e, por outro, pela função social, representada pelo trabalho do Clube de Mães do Brasil.”

Responsável pela consultoria histórica do projeto de restauro, ela ressalta que o edifício é um marco da ocupação da região, decorrente da expansão do centro, e vestígio de época numa cidade que sofreu alterações brutais. “Inicialmente, o local era um bairro elegante, ocupado por famílias ricas, e praticamente tudo o que havia sumiu”, explica a professora.

Destino – “Um dia você vai ser meu e vou montar aqui uma obra social para quem quiser sair das ruas”, pensou Maria Eulina há mais de 40 anos, quando ela própria vagava pela cidade desconhecida, por não ter um teto. “Eu me abrigava aqui para dormir”, conta.

No início dos anos 1970, recém-formada normalista, ela abandonou sua pequena cidade, São José dos Basílios, no Maranhão, e o conforto que desfrutava na casa de classe média em que morava com pais e irmãos, para perseguir o sonho de ser dona do “próprio nariz”. Para isso, era necessário libertar-se da tutela do pai. “Vim fugida para cá, porque ele era muito austero, não ia concordar.”

Depois de hospedar-se por 15 dias na casa da prima, como havia sido combinado previamente entre as duas, foi surpreendida pela rejeição do marido dela. “Ele me pôs para fora, dizendo que havia se casado com ela e não com a família toda.” Sem trabalho, em pouco tempo teve de passar a viver nas ruas. “Eu considerava que não tinha o direito de voltar para casa. Foi uma experiência dura, de quase dois anos. Mas aprendi muito durante esse período, principalmente a olhar para o outro”, afirma Maria Eulina.

Carta atendida – A reviravolta em sua vida começou, segundo ela, em decorrência de sua fé no Universo e da grande ajuda que recebeu de Vânia, que considera seu anjo da guarda. “Um dia, eu estava sentada no Parque Dom Pedro, como costumava fazer enquanto morei na rua, e vi uma moça da minha idade, muito irritada porque seu carro havia quebrado. Pensei, é a minha chance.”

Era Vânia, que diante do questionamento de Maria Eulina sobre como se sentiria, então, se estivesse sem casa como ela, quis conhecer sua história. Não apenas a levou para casa, como pouco tempo depois conseguiu uma vaga para ela na empresa onde trabalhava como secretária do diretor Alexandre Hilsenbeck, que viria a ser o marido de Eulina.

“Aos 23 anos me casei e, como tínhamos uma boa situação financeira, pude me dedicar ao que havia prometido fazer: ajudar as pessoas.” Logo após o casamento, deu início ao trabalho social prestando apoio a famílias que moravam em cortiços e favelas, principalmente na região do Jaraguá.

Enquanto isso, passou a batalhar também pelo uso do Castelinho. “Mandei cartas a vários governos federais, pedindo a cessão do imóvel, até que, em março de 1996, cinco meses depois de ter escrito para a então primeira-dama do Brasil, Ruth Cardoso, contando sobre o meu grande sonho de desenvolver ações sociais no Castelinho, recebi a resposta de que o prédio seria concedido para que eu criasse nele a minha entidade. Nem acreditei que era verdade”, lembra.

As lutas e conquistas tornaram-se uma constante na vida de Maria Eulina que, à frente do Clube de Mães do Brasil, presta atendimento a milhares de pessoas em situação de risco e de rua. Em 2004, ela obteve o tombamento do Castelinho pelo Compresp e, agora, a aprovação do projeto solicitado por ela para a captação dos recursos.

Diamante – Milton Nishida foi o 17º arquiteto consultado por Maria Eulina para a elaboração do projeto de recuperação do imóvel. “Até então, ninguém tinha aceitado”, diz ela. Mas, o que aos olhos e ouvidos dos outros pareceu difícil ou desinteressante, para esse especialista em restauro revelou-se um desafio encantador.

“Isso aqui é um pequeno diamante que estamos conhecendo aos poucos”, afirma Nishida. Segundo ele, apesar de suas pequenas dimensões – 180 metros quadrados distribuídos em dois pavimentos mais um porão – o Castelinho é um representante bastante requintado da arquitetura eclética da época. Erguido entre 1912 e 1917, teve como inspiração um castelo medieval francês. “Estamos encontrando na sua composição muitos elementos importados, bastante avançados para a época”, diz o profissional.

A maior surpresa, porém, de acordo com o arquiteto, foi a constatação que, mesmo bastante deteriorado, pois no decorrer do tempo perdeu telhado e piso e sofreu intervenções, o prédio ainda apresenta boa estrutura. “Descobrimos que é uma construção de qualidade excepcional.” Nishida informa que essa condição está relacionada tanto ao material utilizado quanto às técnicas da construção. “O estudo mais a fundo mostrou que a alvenaria de tijolos amarrados garantiu resistência ao prédio que não foi impactada nem pelo que aconteceu no seu entorno – construções do chamado Minhocão e Metrô”, explica.

O requinte do palacete pode ser observado no uso de vários elementos metálicos, como os caixilhos de aço das janelas, numa época em que normalmente eles eram de madeira, e de gancheiros e suportes na área externa. “Esse material era raro e caríssimo. E o que temos aqui possui até sistema de abertura basculante, ainda em funcionamento”, destaca o arquiteto.

Outro detalhe que também chama a atenção é a torre finalizada em ameias – recurso típico da arquitetura medieval. “A obra em execução, segundo ele, tem como objetivo resgatar a estética original, suas características históricas e dotar o Castelinho de condições que o tornem mais eficiente e seguro nos dias atuais. Além disso, está prevista a construção de um prédio novo, de cinco andares, no anexo em que hoje funciona o Clube de Mães (ver boxe). O local originalmente era a garagem da família Reis e foi adaptado por Maria Eulina para a realização das atividades da entidade. “Tivemos de levantar paredes aqui”, explica ela.

“Vamos resgatar toda a unidade estilística, o desenho do telhado, por meio da volumetria, e a ornamentação da fachada e dos pisos, com os levantamentos que estamos realizando. No quintal, por exemplo, achamos a borda dos canteiros originais”, afirma Nishida. A entrega está marcada para outubro de 2016. “Não vejo a hora de vê-lo recuperado. Ele é único. Não tenho conhecimento de outro com esse conjunto de características”, finaliza o arquiteto.

DOE, Executivo II, 16/12/2015, p. II