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O grito do nosso tempo
27/04/2012

 

Funcionários da Sotheby's seguram "O Grito", durante a preparação do leilão dessa versão da obra de Munch, datada de 1895, única restante em posse particular.
Realiza-se na semana que vem o leilão de uma das obras de arte mais famosas a ingressar no mercado aberto. "O Grito", de Edvard Munch, será submetido às batidas do martelo na Sotheby's de Nova York na quarta-feira. A noite promete ser memorável. A casa leiloeira atribuiu sua maior estimativa de todos os tempos ao quadro, na expectativa de que alcance pelo menos US$ 80 milhões. Mas poderá até ultrapassar o recorde do valor obtido por uma obra de arte em leilão, alcançado na Christie's de Nova York dois anos atrás, quando "Nu, Folhas Verdes e Busto", de Pablo Picasso, foi vendido por US$ 106,5 milhões.


Mas há algo mais significativo em jogo aqui do que apenas números. "O Grito" é uma das imagens mais perturbadoras a despontar na história da arte contemporânea. Retrata um momento de calamidade psíquica, de nervos em frangalhos. Ao criar a imagem, em 1893, Munch pretendia registrar "a vida moderna da alma" - e que visão atormentada, carregada de ansiedade foi essa sua. Por décadas, sua visão distorcida foi encarada como um excêntrico afluente do expressionismo, pleno da melancolia escandinava e de desnecessário pessimismo cósmico.


Mas cá estamos nós, os hiper-ricos principais colecionadores de obras de arte do mundo, aparentemente inclinados a tornar "O Grito" uma das mais valiosas imagens artísticas jamais criadas. Uma visão vinda do atormentado ocaso do século encontrou seu lapso de sucesso mais de cem anos depois. Munch chegou ao "mainstream". Estamos, afinal, suficientemente fortes para engolir seu grito. Alguém de algum lugar do mundo planeja febrilmente afixar esse símbolo da desintegração humana acima da lareira, a um custo fabuloso. Deixamos para trás, ao que parece, a era das ninfeias e girassóis. O caos rodopiante e o semblante inexpressivo manifestos na obra mais famosa de Munch tornaram-se a pedra de toque dos nossos problemáticos tempos.


Não foi sempre assim. Petter Olsen, o empresário norueguês que está vendendo a obra, cresceu com "O Grito". "Estava pendurado na parede da nossa casa, num canto", lembra. "Meus pais tentaram explicar que se tratava de um quadro muito importante. Quando eu era criança, pensava que essa pessoa era uma mulher de cabelo loiro comprido à frente de um lindo pôr do sol. Em alguns outros de seus quadros vi duendes escondidos. Com meus vinte e poucos anos, li livros sobre Munch e visitei sua pequena casa em Aasgaardstrand. Foi aí que descobri o significado de sua arte."


Conversamos na sala do conselho de administração do escritório da Sotheby's em Londres, cercados por quadros de borboletas de Damien Hirst. Seu efeito vistoso, decorativo, serve de eloquente contraponto ao autocrítico quadro de Munch, em exibição pública no andar de baixo. A casa leiloeira instaurou medidas de segurança semelhantes às de aeroportos para todos os que desejarem ingressar na sala drasticamente escurecida na qual "O Grito" impressiona um fluxo persistente de visitantes. Essa versão, datada de 1895 e a única restante em posse particular, é um dos quatro "Gritos" feitos por Munch; dois foram roubados, e depois recuperados, de museus de Oslo.


Auto-retrato de Munch, óleo sobre tela de 1919: marginalizado como "neurótico escandinavo" nos compêndios de história do modernismo.
As casas leiloeiras, que precisam vender quadros para sobreviver, têm talento para apresentar obras de arte ao público com mais estilo do que as galerias públicas. Isso fica demonstrado com "O Grito". Na sala, que tem uma atmosfera "meio de capela, meio de casa noturna", segundo a descrição do mais graduado especialista da Sotheby's, Philip Hook, a vivacidade dos pastéis de Munch é chocante. Essa versão nunca foi vista no Reino Unido ou nos Estados Unidos, a não ser por uma breve temporada na National Gallery de Washington, décadas atrás.


Há mais um motivo que a torna, possivelmente, a mais irresistível versão dos quatro "Gritos": é a única que incorpora o poema do artista, escrito de próprio punho, no qual se baseou sua visão:


"Eu andava pela rua com dois amigos/ O Sol estava se pondo - O céu ficou vermelho sanguíneo/ E senti um sopro de melancolia - Parei/ Quieto, mortalmente cansado - sobre o fiorde negro-azulado/ e a cidade estendiam-se sangue e línguas de fogo/ Meus amigos continuaram andando - eu fiquei para trás/ - tremendo de angústia - Senti o grande grito na natureza - EM."


Olsen, 64 anos, diz que essas palavras tiveram pouco significado para ele enquanto crescia. "Apenas recentemente entendi o significado de 'O Grito', embora meus pais tenham tentado me explicar esse sentimento de 'angústia' e 'o grande grito na natureza'." O poema pintado a mão por Munch na moldura termina com essas palavras. É como se ele tivesse tido uma premonição do que o homem iria infligir à natureza.


Correspondia, diz Olsen, a "esse sentimento de destruição reinante em Viena e Berlim na década de 1890, 'der Untergang des Abendlandes' [a queda do Ocidente], o fim de uma era".


Quase inevitavelmente, o próprio "O Grito" tem uma história aventurosa. Foi o pai de Olsen, Thomas, cujo avô fundou a companhia marítima Fred Olsen & Co., quem comprou o quadro de um marchand escandinavo, em 1937. Thomas era amigo e cliente de Munch desde a década de 1920. "Meu pai aprendeu a velejar em Hvitsten na época em que Munch se radicou lá e pintava mulheres e homens nus na praia. Munch lamentava o fato de os jovens velejadores capotarem insistentemente perto de onde ele trabalhava", diz Petter Olsen.


"Em 1932, Munch pintou um retrato de minha mãe Henriette. Foi aí que eles puderam se conhecer bem. Conversavam muito sobre arte e política e mantiveram contato até o fim da década de 1930." Quando a obra de Munch foi declarada degenerada pelo nazismo, os museus de toda a Alemanha foram despojados de sua arte. "Meu pai foi providencial em salvar 74 de suas criações ao fechar um acordo com o governo alemão em 1937."


Na ocasião, "O Grito" estava no acervo pessoal de Olsen de cerca de 35 das obras do artista, que o empresário optou por esconder num celeiro de feno na região central da Noruega depois que a guerra foi formalmente declarada, mas antes da invasão da Noruega pela Alemanha, em abril de 1940.


"Elas poderiam ter sido atingidas e destruídas quando o rei e o governo ficaram por alguns dias em nossa fazenda, nas proximidades, ao fugir dos alemães", diz Olsen. "O Grito" ficou lá até a libertação, em 1945. Como sinal de gratidão ao Reino Unido por abrigá-lo quando fugiu dos nazistas, Thomas Olsen presenteou a galeria Tate com um dos quadros mais notáveis de Munch, "A Menina Doente".


Munch em seu estúdio em Elkely, 1943: primeiro artista cujo tema implacável, consciente, era sua própria psique.
Petter Olsen herdou "O Grito" depois de uma batalha judicial com seu irmão Fred em torno da herança da mãe, que foi solucionada na Justiça em 2001.(As obras de Munch pertencentes a Fred Olsen foram vendidas pela Sotheby's em Londres em 2006, alcançando quase 17 milhões de libras esterlinas).


Petter comprou a casa de Munch em Hvitsten, próximo ao imóvel de sua família, e pretende transformá-la num museu dedicado ao artista, com os recursos da venda de "O Grito". "Participaremos das comemorações do aniversário de 150 anos do nascimento de Munch no ano que vem, com uma exposição da decoração do auditório da Universidade de Oslo, que ele criou em Ramme."


Em decorrência de sua universalidade, parodistas e espoliadores fizeram a festa com "O Grito". Algumas semanas atrás, no fim de março, a Sotheby's vendeu a serigrafia de Andy Warhol "The Scream (After Munch)" por mais de 300 mil libras esterlinas. Warhol fez apenas algumas distorções de pouca importância na imagem original de Munch.


Existem canecas, panos de prato, camisetas com "O Grito". O ator-mirim Macaulay Culkin imitou a expressão de horror da boca escancarada num cartaz que anunciava o filme "Esqueceram de Mim". O abominável protagonista (e o título) da série "Scream" de filmes de terror de segunda categoria, de Wes Craven, é baseada no aturdido personagem de Munch.


Estranhamente, uma campanha publicitária dos doces M&M apresentava a imagem onipresente para promover sua linha de chocolate "escuro" (entendeu?). Mais estranhamente ainda, quando a versão de 1910 do quadro foi roubada por mascarados do Museu Munch de Oslo, em 2004, a Masterfoods USA ofereceu 2 milhões dos doces pela devolução da obra. (O quadro foi recuperado dois anos depois, e o valor financeiro dos doces foi doado ao museu.)


Simon Shaw, colega de Hook e diretor da área de impressionismo e arte contemporânea da Sotheby's em Nova York, diz que é a maleabilidade da imagística do quadro que a torna perfeita para apropriação pela nossa promíscua era visual. "Munch é muito inteligente em não explicar que diabos quer dizer. A capacidade [do quadro] de comportar tantos significados permite que possa estar onde você quer que ele esteja. Mas é também uma imagem inesquecível, poderosa, densa. Se for ver a 'Mona Lisa', constatará que sua aparência é exatamente a que você esperava. Mas, com relação a 'O Grito', as pessoas não estão preparadas para ele. Pensam que o conhecem porque conhecem as charges, os pastiches, as paródias. Mas o original é outra coisa. Seu poder de chocar continua irredutível."


Numa sociedade que é a de transformação mais acelerada, a mais multissegmentada e desnorteante do que em qualquer outra época, "O Grito" passou a representar nossos vários estados de ansiedade, que vão desde o medo de deixar o forno aceso quando saímos de casa até a tragédia pessoal. "Munch pode ter tido essa visão presciente dos múltiplos horrores que adviriam no século XX", diz Shaw. "Mas todos nós temos empatia com ele porque todos nós temos nossos próprios 'gritos' pessoais. E era exatamente a essa universalidade que Munch estava tentando chegar. Ele era um 'showman'. E essa imagem veio do nada, para depois desaparecer e nunca mais voltar."


O duradouro significado especial de "O Grito", diz Hook, o torna uma das raras obras que transcendem as tendências do mercado de arte. A estimativa alta atribuída pela Sotheby's se baseia em alguns robustos resultados registrados nos últimos anos em leilão pela faixa máxima do mercado - o quadro de Picasso e "L'Homme qui Marche I", de Alberto Giacometti, e a venda privada de "Jogadores de Cartas", de Paul Cézanne, que teria alcançado US$ 250 milhões, e o "No 5, 1948", de Jackson Pollock, que teria alcançado US$ 140 milhões.


Além disso, uma obra menos imponente de Munch, "Vampiro", foi vendida por US$ 38,2 milhões em novembro de 2008, quando o mercado de arte passava por uma perigosa depressão após o colapso do Lehman Brothers. O mercado pode se prestar pouco a previsões, mas parece não haver dúvida de que o prestígio de Munch é alto. Entre as grandes mostras de galerias dedicadas recentemente ao artista estão "Edvard Munch: The Modern Eye", que causou impressão no Centro Pompidou de Paris e no Schirn Kunsthalle de Frankfurt, e que estreia na Tate Modern em junho.


Edvard Munch nasceu em dezembro de 1863, meses depois de Manet ter pintado sua rebelde prostituta "Olympia", e morreu em 1944, no ano em que Francis Bacon concluiu as formas abstratas, aos gritos, de "Three Studies for Figures at the Base of a Crucifixion".


É revelador de sua modernidade fluida, manifestada por meio da alteração das formas, o fato de Munch poder ser examinado no contexto de qualquer das duas obras - ele é ao mesmo tempo um realista atordoado pelas tensões sociais e psicológicas causadas pela emancipação feminina e um existencialista "avant la lettre".


No século XIX, Schopenhauer afirmou que o limite do poder de expressão de uma obra de arte era sua incapacidade de reproduzir um grito, "das Geschrei". Ao responder a isso com uma imagem tão radical e urgente que sua composição o obrigou a abandonar o campo de perspectiva central que vinha marcando a pintura desde o Renascimento, Munch se tornou um pioneiro do século XX.


Como no caso de Picasso e "Les Demoiselles d'Avignon", o contato com uma obra de arte primitiva determinou a imagem inédita de Munch: ele se apropriou dos olhos ocos, da boca entreaberta, do crânio e da postura aterrorizada de sua figura que emitia um grito exibidos por uma múmia inca enterrada numa jarra em posição fetal. Mas "O Grito" é revolucionário também porque Munch não mostra guerra, crucifixão ou qualquer dos outros tormentos físicos que, até então, tinham caracterizado as imagens de sofrimento: este é o homem contemporâneo em confronto consigo mesmo, e anunciou Munch como o primeiro artista cujo tema implacável, consciente, era sua própria psique.


"Minha arte está enraizada numa única reflexão: por que não sou como os outros? Por que havia uma maldição sobre o meu berço? Por que vim ao mundo sem qualquer opção?", perguntou Munch. Uma infância cruel - sua mãe morreu em 1868, seguida por sua irmã, em 1877 - o revestiu de um temperamento pessimista. Foi a vitalidade gráfica de suas xilogravuras e gravuras, feitas em Berlim na década de 1890, que transformou seus primórdios simbolistas numa linguagem nova, dona de expressão direta. Depois, no momento mesmo em que era saudado em Berlim como o pai espiritual do expressionismo, Munch sofreu uma crise nervosa, voltou para casa em 1908 e nunca tornou a sair da Noruega. "Por vários anos fiquei quase louco", explicaria ele. "Você conhece meu quadro, 'O Grito'? A natureza estava gritando em meu sangue... Depois disso, abandonei qualquer esperança de ser capaz de voltar a amar."


Ao morrer, era pouco conhecido fora da Alemanha e da Escandinávia. Por décadas depois, foi marginalizado como um "neurótico escandinavo" nos compêndios de história do modernismo. Mas, no século XXI, sua reputação está se transformando: a mostra "Edvard Munch: By Himself" (2005), da Royal Academy, trouxe à luz autorretratos tardios no estilo solto, liberado, de meados do século; a "Becoming Edvard Munch" de 2009, em Chicago, o propôs como um sofisticado manipulador de sua persona de louco, e a mostra da Tate Modern do próximo verão (de junho a setembro no Hemisfério Norte) apregoa um artista multimídia engajado com fotografia e cinema. (Tradução de Rachel Warszawsk)


Fonte: Valor Econômico/Cultura