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Spike Lee filma contradições brasileiras
04/05/2012

 

02/05/2012 às 00h00
Por Diego Viana | De São Paulo
Entrar sem gravata no Supremo Tribunal Federal (STF) é um feito nada corriqueiro, mas o cineasta Spike Lee teve o privilégio. No Brasil por apenas uma semana, na primeira etapa de preparação de um documentário sobre o Brasil, o americano calhou de estar em Brasília no dia em que a Corte Suprema aprovou por unanimidade a aplicação de cotas raciais em universidades públicas.


Lee, que discutiu em diversos filmes a condição dos afrodescendentes nos EUA - sobretudo os aclamados "Faça a Coisa Certa" (1989) e "Malcolm X" (1992) -, diz que a data não foi planejada, mas mesmo assim não foi coincidência. "Eu sou um homem de muita sorte. Isso só pode ser um bom sinal: os céus nos iluminaram", comenta o cineasta, aos risos. O documentário brasileiro de Spike Lee está programado para chegar aos cinemas logo antes do início da Copa do Mundo de 2014, provavelmente com o nome "Go, Brazil, Go!".


A produção das entrevistas do documentário no país ficou a cargo da empresa paulistana Paranoid. Tatiana Quintella, sócia da produtora, conta que o cineasta gosta de se misturar, incógnito, às populações que ele retrata, mesmo a ponto de criar situações difíceis para a equipe que o acompanha. "No dia da votação das cotas raciais no STF, ele se enfiou no meio de uma manifestação para filmar e foi difícil segurá-lo", conta a produtora. "Mas logo as pessoas o reconheceram e fizeram festa. Foram abraçá-lo e beijá-lo."


"Go, Brazil, Go!", como tantos outros filmes, surgiu casualmente, no momento em que outro projeto de Lee não avançava. Segundo o próprio diretor, o gigante sul-americano começou a chamar sua atenção porque muitas coisas estão acontecendo aqui. Lee enumera: "Além da Copa e da Olimpíada [de 2016, no Rio], que são os mais óbvios, teve um presidente operário, agora uma presidente, uma nova classe média, as cotas raciais... O Brasil está chamando muita atenção".


Os produtores - os espanhóis José e Victor Ibañez e o americano Rob Wilson - também estão entre os responsáveis pelo filme de Oliver Stone sobre os governos de esquerda sul-americanos, "Ao Sul da Fronteira" (2009). Eles começaram a correr atrás de representantes brasileiros há menos de um mês, segundo Tatiana. "Tudo foi fechado muito rápido e foi preciso montar a equipe correndo", diz.


Muitos aspectos da produção seguem em aberto, do orçamento ao número de visitas ao Brasil. Eram planejadas cinco, neste ano e no próximo, mas a produtora já estima que serão necessárias oito, pelo menos. O cineasta, que voltou para os EUA na segunda-feira, após entrevistas com o jogador Neymar e o músico Tom Zé em São Paulo, planeja vir ao país novamente em julho. Suas pesquisas contam com a consultoria do escritor Fernando Morais.


Lee explica que chegou ao Brasil com poucos conhecimentos sobre o país, ou seja, "uma mente aberta, sem expectativas", mas, principalmente, sem um roteiro narrativo em que se basear. "Não uso narrações. Um documentário se torna bom na medida em que os entrevistados sejam bons", diz. "Quando falo com as pessoas, são elas que me educam." Por isso, o documentário em preparação não tem ainda uma estrutura definida. Com prazo de cerca de dois anos para terminá-lo, Lee não tem pressa. "A estrutura virá da sala de edição. As entrevistas têm de fluir naturalmente."


O documentarista demonstra preferência por comentar os temas mais positivos da agenda brasileira atual, mas, apesar do título com tom de torcida, afirma que pretende apresentar um quadro tão amplo quanto possível do Brasil, contendo seus problemas, suas contradições e seus desafios. "Não pensem que só vou mostrar coisas positivas. Este filme não foi encomendado pela Câmara de Comércio brasileira!"


Lee cita o célebre desinteresse da população americana pelas culturas de outros países. "A grande maioria dos americanos não tem nem passaporte", diz. "Eles tiram suas conclusões sobre o resto do mundo a partir dos filmes que veem, nem que seja só o estereótipo do Carnaval e das mulheres seminuas na praia." Por isso, lembra, ao contar a seus conhecidos que começaria a rodar um filme sobre o Brasil, ouviu como resposta mais comum: "Me leve com você!"


Em Brasília, o cineasta esteve com a presidente Dilma Rousseff. Ele também se encontrou com o ex-presidente Lula, mas esses dois encontros ainda não foram propriamente entrevistas. "Espero conseguir marcar essas entrevistas para julho", diz. Outros personagens que deverão aparecer são os deputados Benedita da Silva (PT-RJ) e Romário (PSB-RJ), os atores Wagner Moura e Lázaro Ramos, e os músicos Caetano Veloso e Gilberto Gil - este último, "uma conversa extraordinária, porque, além de artista, foi ministro", nas palavras do cineasta -, entre inúmeros outros nomes.


A par de uma longa lista de celebridades, Lee afirma que seu maior interesse é entrevistar "todo tipo de gente", de grandes empresários a vendedores ambulantes. "Vai ser tanto material e um país tão complexo, que talvez o documentário possa virar uma série", afirma.


Fonte:Valor Econômico/Cultura