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Estudo investiga doenças crônicas no País
30/03/2016

 

Os brasileiros tiveram aumento de peso médio nos últimos anos. A obesidade e uma de suas decorrências, o diabetes, estão hoje entre as preocupações mais relevantes para a saúde pública. Essas são algumas das conclusões de ampla pesquisa realizada no País, que tem como um dos coordenadores o médico e docente Paulo Lotufo, do Hospital Universitário da USP.

O Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (Elsa-Brasil) acompanha a saúde de 15 mil servidores e servidoras de seis instituições públicas de ensino superior e pesquisa, entre os quais cerca de 5 mil da USP. O objetivo é investigar a incidência de fatores de risco para doenças crônicas – em particular as cardiovasculares e o diabetes.

Lotufo chama a atenção para um aspecto dos resultados obtidos até agora: “Temos prevalência de diabetes em 20% dos pesquisados, ou seja, um em cada cinco participantes do estudo. Mas somente metade dessas pessoas sabia ser diabética”. A hipertensão atinge um terço dos investigados, mas, nesse caso, 80% tinham consciência de sua condição. Isso indica que a hipertensão tem diagnóstico mais fácil do que o diabetes. De modo geral, concluiu-se que os principais fatores de risco de doenças cardiovasculares são: obesidade, hipertensão arterial, colesterol elevado (que atinge quase metade dos participantes) e diabetes.

O Elsa-Brasil examina funcionários e docentes da Fundação Oswaldo Cruz (Rio de Janeiro), USP e as universidades federais da Bahia (UFBA), Espírito Santo (UFES), Minas Gerais (UFMG) e Rio Grande do Sul (UFRGS). Trata-se de um estudo longitudinal, ou seja, que acompanha os participantes durante longo período de tempo. No início, em 2008, os pesquisados tinham idade entre 35 anos e 74 anos.

Gastos – “As doenças cardiovasculares são a principal causa de mortes no País, por isso precisamos ter informações sobre os fatores de risco. A forma é examinar uma população por um determinado prazo. Senão ficaremos repetindo as informações externas”, afirma Lotufo.

Além de responderem por altos índices de mortalidade e prejudicarem a qualidade de vida da população adulta, as doenças crônicas provocam aumento de gastos do País. De acordo com o site do Elsa-Brasil, essas enfermidades respondiam, em 2002, por 75% das despesas com internações hospitalares no Sistema Único de Saúde (SUS).

Lotufo conta que, no início da década de 2000, ao voltar para o Brasil depois de fazer pós-doutorado nos Estados Unidos, tinha a intenção de pesquisar a saúde do brasileiro. Uma das dificuldades a resolver era como acompanhar o mesmo grupo de voluntários durante muito tempo. Isso levou à proposta de pesquisar funcionários e docentes universitários, que em geral mantêm certa estabilidade no emprego.

O projeto foi apresentado a outros pesquisadores, em 2004, num evento na USP. Com o interesse do Ministério da Saúde (MS) e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, abriu-se a perspectiva de concretização do estudo. Um edital, lançado pelo MS, teve como vencedor o consórcio composto pelas seis instituições universitárias. Em 2006, foi liberada a verba inicial. Dois anos depois, a primeira participante começou a ser examinada e a responder às entrevistas.

De acordo com Lotufo, a pesquisa, financiada pelo MS, tem custo total de R$ 50 milhões, entre 2006 e 2018. Em São Paulo, tem a retaguarda da USP, que fornece o espaço físico e a logística, pagando energia elétrica, telefone, segurança, etc.

Comprovação – Apenas neste ano foram divulgados, de modo mais amplo, os primeiros resultados obtidos pela pesquisa. A razão para isso é a preocupação em apresentar somente dados comprovados. “Decidimos divulgar informação apenas daquilo que já tenha sido publicado (em revista científica) com revisão independente”, justifica Lotufo.

Um dado novo, e preocupante, é o fato de que 8% dos pesquisados estão na fase inicial da doença renal. Essa enfermidade, que leva o rim a parar da funcionar, afeta 100 mil brasileiros e tem um caro tratamento, que consiste em diálise e transplante do rim. Com relação à enxaqueca, o estudo concluiu que alguns dos determinantes são a obesidade e o estresse no trabalho.

O médico explica que a grande incidência de doenças cardiovasculares e do diabetes está relacionada à mudança de hábitos, à urbanização crescente e à alteração do padrão alimentar, além da redução das doenças infecciosas, ocorrida a partir de meados do século passado. “A pessoa, em vez de morrer de tuberculose aos 30 anos, tem colesterol alto com mais idade”, afirma.

O coordenador informa que o Elsa-Brasil deu origem a cerca de 100 artigos e a quase 50 dissertações e teses. Com relação à quantidade de dados coletados, o pesquisador brinca: “Temos tanta informação, tantos dados, que, se eu ficar apenas analisando, não farei mais nada na vida”. De acordo com Lotufo, uma necessidade atual, tanto no Brasil quanto em outros países, é encontrar pessoas qualificadas para fazer essas análises.

DOE, Executivo I, 30/03/2016, p. IV