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Unesp de Botucatu apresenta soro antiveneno de abelhas
06/04/2016

 

Pesquisadores apresentarão nesta sexta-feira, 8, o soro antiapílico, primeiro
tratamento específico contra  veneno de abelhas africanizadas  as mais comuns no Brasil. A substância,que passará a ser testada , seres humanos, foi desenvolvida
por cientistas do Centro de Estudos de Venenos e Animais Peçonhentos (Cevap) da Unesp de Botucatu, em parceria com o Instituto Vital Brazil, de Niterói (RJ).


Produto, resultado da parceria entre a universidade e o Instituto Vital Brazil, com apoio do Ministério da Saúde, começará a ser testado em humanos


Recursos - O projeto é apoiado pelo Departamento de Ciência e Tecnologia (Decit) do Ministério da Saúde (MS) e, depois de ser analisado pela Comissão Nacional de Ética em  Pesquisa (Conep) – ligada ao Conselho Nacional de Saúde –, recebeu a autorização da Agência Nacional de igilância Sanitária (Anvisa) para o teste em pessoas.


Os recursos financeiros do MS, a partir de 2013, possibilitaram o ensaio clínico do soro. A Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp ingressou também no trabalho, e um de seus integrantes, Alexandre Naime Barbosa, é o médico responsável.


O investimento somado das três instituições (Cevap-Unesp, Instituto Vital Brazil e MS) foi de aproximadamente R$ 2 milhões. “Com isso conseguimos superar a dificuldade principal em iniciativas desse tipo, que é fazer a pesquisa básica chegar à pesquisa aplicada, para levar os serviços à população”, diz Ferreira Jr.


Exportação - Dados do MS indicam que, em 2013, houve 10,8 mil envenenamentos e 40 mortes, no Brasil, em decorrência de ataques das abelhas africanizadas. Como a notificação de casos não é obrigatória, especialistas estimam que possa haver anualmente até 15 mil ataques, com 140 óbitos.


As abelhas africanizadas são um híbrido, resultado do cruzamento, no Brasil, entre subespécies da Apis mellifera trazidas da Europa desde o tempo do Brasil Colônia e outras subespécies da mesma abelha que vieram da África há cerca de 60 anos. Espalhando-se desde 1957, a partir do Estado de São Paulo, as africanizadas estão presentes atualmente em quase todo o continente americano, com exceção de poucos países, como o Chile e o Canadá.


Essas abelhas têm como característica o alto grau de defensividade, ou seja, atacam sempre que ocorre uma situação considerada de perigo. Isso dá origem a diversos acidentes. Estima-se que as abelhas africanizadas respondam por 8% dos acidentes causados por animais peçonhentos no País.


Ferreira Jr. chama a atenção para o fato de que o soro antiveneno, além de potencialmente salvar dezenas de vidas a cada ano em território brasileiro, poderá tornar-se um produto de exportação para as demais nações da América que sofrem os efeitos dos ataques.


 Ajustes - Quando um adulto é picado por mais de 200 abelhas, o corpo recebe uma quantidade de veneno suficiente para causar lesões nos rins, no fígado e no coração. Cerca de 500 picadas podem levar à morte.


Ferreira Jr. chama a atenção para o fato de que o soro antiveneno, além de potencialmente salvar dezenas de vidas a cada ano em território brasileiro, poderá tornar-se um produto de exportação para as demais nações da América que sofrem os efeitos dos ataques.


O soro será aplicado por via intravenosa. Os pesquisadores chegaram à conclusão de que 10 mililitros da substância serão capazes de neutralizar o veneno de cem abelhas. Com isso, estabeleceram uma posologia de administração do soro antiapílico. Se a pessoa recebeu, por exemplo, entre 5 e 200 picadas, serão administradas duas ampolas do produto. Entre 201 e 600 picadas, seis ampolas, e assim por diante, até o limite de dez ampolas. O período de testes que se iniciará agora servirá, entre outras coisas, para confirmar ou ajustar essa posologia.


Três cidades participarão dos testes: Botucatu (SP), Tubarão (SC) e Uberaba (MG). Os locais foram escolhidos em razão da incidência de ataques de abelhas e da existência de hospitais que atendem aos requisitos da Anvisa. Caso uma pessoa de outra região seja picada, poderá eventualmente ser transportada para um dos hospitais participantes da pesquisa.


Registro - Ferreira Jr. explica: “Inicialmente, será aplicado o soro em 20 pacientes, para verificar a segurança e se não há nenhuma reação e também para avaliar se a dose está adequada”. Em seguida, os testes passarão a ser feitos com pelo menos 300 pacientes.


O coordenador do Cevap estima em um ano o tempo necessário para obter resultados conclusivos. “A partir da comprovação da eficácia, será solicitado o registro à Anvisa. Com o registro, a substância poderá ser comercializada, e o Sistema Único de Saúde (SUS) terá condições de fornecê-la a quem sofreu picadas de abelhas”, completa. Ferreira Jr. avalia que “o ponto forte desse projeto é ver o estudo de uma universidade pública transformar-se em um produto útil para a sociedade”.


Nesta sexta-feira, os pesquisadores darão informações detalhadas sobre os procedimentos a serem adotados para a seleção de pacientes. Na véspera, será ministrado um treinamento à equipe de profissionais de saúde responsável pela aplicação do soro.


Cláudio Soares


DOE, Executivo I, 06/04/2016, p. I