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A busca pela sobrevivência na França ocupada
07/05/2012

 







Há poucas semanas, ao declamar orgulhosamente um poema do escritor Robert Brasillach (1909-1945), o ultradireitista Jean- Marie Le Pen causou um grande constrangimento à filha, Marine, candidata à presidência. O motivo é simples: Brasillach foi um dos intelectuais fuzilados por colaborar com os nazistas na França ocupada. Fascista de primeira hora, ele ajudou a inflamar o ódio antissemita que alimentou a presença invasora no país. E não foi o único. E eles não foram poucos.

Muitos livros estrangeiros e poucos volumes nacionais já colocaram o dedo na ferida que envergonha os franceses. Nascido no Brasil, filho de pais britânicos, o jornalista Alan Riding fez a mais recente investida no assunto. Recém-lançado também na França, "Paris, a Festa Continuou - A Vida Cultural Durante a Ocupação Nazista, 1940-4" (Companhia das Letras) ainda não provocou nenhuma reação mais acalorada entre os franceses. "Outro dia eu estava brincando com um amigo. Se quisesse ter tido mais atenção, devia ter sido mais agressivo com eles", diz Riding.


Saltam do livro personalidades contraditórias e pouco heroísmo de capa-e-espada. Os artistas e intelectuais de "Paris, a Festa Continuou" são demasiadamente humanos. "Quis investigar, mas sem julgar demais. O que eu teria feito no lugar deles? Esta é uma pergunta que sempre me fiz quando cobria a América Latina para o 'New York Times'. Eu tinha muitos amigos ameaçados e perguntava: o que eu faria?", diz Riding. "E também tem o meu lado inglês. Os ingleses e os americanos passaram décadas esculhambando os franceses como covardes, colaboracionistas, esse tipo de xingamento. Não é uma questão de nacionalidade - o ser humano busca a sobrevivência".


Nos primeiros momentos da invasão, Hitler percorreu as ruas desertas de Paris em triunfo silencioso. A relação dos invasores com a cidade partiu desse primeiro contato. Paris será para os nazistas uma espécie de colônia de férias requintada. Os cidadãos comuns tiveram que engolir a vergonhosa passividade de seu exército e passaram a se exercitar no esporte favorito da humanidade, a sobrevivência.


Já os intelectuais, em sua maior parte, foram mais abusados, tentando arrancar um pouco de luxo dentro das possibilidades. O poeta Jean Cocteau, por exemplo, continuou frequentando os salões da aristocracia e publicando sempre que possível. Arletty, diva do cinema nacional, dormiu com o inimigo. Riding se encarrega de tentar esclarecer a anedota clássica sobre Picasso, que continuou pintando em Paris, a despeito de suas notórias simpatias pela República espanhola. "Você fez isso?", teria perguntado um oficial nazista diante do quadro "Guernica". "Não, vocês fizeram", teria respondido Picasso. "Cheguei a falar com Françoise Gillot, amante do pintor na época, e ela me garantiu que a história é verdadeira. Se eu não colocasse isso no livro, as pessoas não iriam perdoar", diz Riding.


Um dos personagens mais surpreendentes encontrados pelo autor foi o escritor Jean Paulhan (1884-1968), editor da "Nouvelle Revue Française" (NRF), um ninho das melhores cabeças da França que continuou sendo publicada durante a Ocupação. "Achei fascinante ele ter uma vida pública muito ativa e ao mesmo tempo ser a chave do debate central da resistência intelectual. Depois da Libertação, ele foi um dos primeiros a criticar o tipo de depuração que o Partido Comunista comandou, com suas posições muito duras. Ele foi uma voz ética contra o stalinismo que estava se impondo na França naquele momento."


Jean-Paul Sartre (1905-1980) não foi um resistente no estilo irrepreensível de um Louis Aragon (1897-1982), herói comunista e poeta de grande força. Sartre, segundo Riding, foi o gênio criador da narrativa heroica e épica da Resistência. Após a Libertação, ele começa a escrever como se estivesse no centro dos acontecimentos, embora, na vida real, tivesse tido um papel menor. "Ele é como qualquer jornalista e escritor. A nossa ideia de como foi a vida de Cristo, por exemplo, vem da narrativa criada pelos grandes artistas plásticos. Certamente não foi nada assim. Com Sartre, ocorreu algo parecido. Autor da narrativa que mais se aproxima dos aspectos míticos da Resistência, Sartre passa a ser identificado com ela", diz Riding.


"Paris, a Festa Continuou" mostra que, de fato, a expressão "festa móvel", inventada por Ernest Hemingway para definir os loucos anos 1920 na cidade, não era tão absurda no caso de certos artistas e intelectuais forçados a conviver e trabalhar com o inimigo na mesa ao lado. Alguns, como Louis-Ferdinand Céline (1894-1961), conseguiram ser mais antissemitas até que os próprios nazistas. Na hora da verdade, porém, as entranhas falaram mais alto, como no caso do autor de "Viagem ao Fim da Noite". Diante da aproximação dos Aliados, Céline implorou aos nazistas para deixar a França, refugiando-se na Dinamarca até que as coisas acalmassem (o que, para ele, demorou nove anos). "É curioso ver como pessoas capazes de exigir a cabeça de milhares de homens com sangue-frio, se preocupam com suas vidinhas sujas. Os dois fatos devem estar relacionados", escreveu em seu diário o oficial nazista baseado em Paris e escritor Ernst Jünger.


Riding escolheu o caminho do equilíbrio para falar de mentes tão brilhantes quanto paradoxais. Seu livro não deixa de ter uma leveza essencial. "Estou com a pretensão de escrever uma peça teatral sobre os salões literários de Paris, tema de um dos capítulos. Um produtor da cidade está interessado. É a minha grande ilusão", diz o autor.


"Paris, a Festa Continuou - A Vida Cultural Durante a Ocupação Nazista, 1940-4"


Autor: Alan Riding. Tradução: Celso Nogueira e Rejane Rubino. Editora: Companhia das Letras (464 págs., R$ 54).


Fonte: Valor Econômico/Cultura