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Aparelho auxilia médicos em cirurgias de câncer
14/04/2016

 


Um aparelho desenvolvido no Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC--USP) auxilia médicos a identificar, em cirurgias de pacientes com câncer, o processo conhecido como metástase, que desencadeia a disseminação de células cancerígenas pelo corpo. Os tumores sólidos iniciam a metástase desprendendo células malignas que são drenadas pelo sistema linfático. O primeiro linfonodo (gânglio linfático) a receber essas células é o chamado lin- fonodo sentinela. O que o equipamento faz é utilizar a fluorescência para indicar de modo mais preciso qual é o linfonodo sentinela do tecido.


Equipamento desenvolvido no Instituto de Física de São Carlos localiza, de modo mais exato, indicadores do processo de metástase


O protótipo do aparelho foi construído como parte da pesquisa de mestrado em Física Biomo-lecular de Angelo Biasi Govone, sob orientação da professora doutora Cristina Kura chi, do Grupo de Óptica do IFSC-USP. O pesquisador explica que, para saber se já ocorreu a metástase, o cirurgião precisa retirar o linfonodo sentinela, que é analisado para identificar ou não a presença das células metastáticas. “A técnica consiste em, pouco antes da retirada do tumor, localizar o linfonodo sentinela e realizar a retirada somente desse linfonodo, que será enviado para análise patológica”, diz.


Govone conta que, durante a discussão de seu projeto de mestrado, surgiu a demanda de uma equipe de médicos do Hospital de Câncer de Barretos, que buscava a parceria do Grupo de Óptica para desenvolver um protótipo de baixo custo, capaz de localizar o linfonodo sentinela, com melhorias em comparação com os sistemas comerciais existentes. O resultado foi o protótipo criado.


Funcionamento – O equipamento é constituído por duas câmeras, uma que capta imagens em preto e branco e outra que permite visualizar imagens coloridas; LEDs (diodos emissores de luz) infravermelhos e brancos, que ajudam a detectar as células e a captar as imagens; um monitor que permite visualizar as cenas captadas no instante em que se realiza a operação; e uma manopla que pode ser manuseada pelo próprio cirurgião.


Para localizar o linfonodo sentinela, o cirurgião injeta um corante com propriedades  fluorescentes ao redor do tumor. Quando é excitado pelos LEDs, o corante emite uma fluorescência que é observada através do aparelho, permitindo localizar mais facilmente o gânglio. Após essa localização, são realizadas a dissecação e a análise patológica do tumor.


Vantagens – O método mais comum utilizado na detecção do linfonodo sentinela é o radiofármaco, por meio do qual se injeta uma substância radioativa no paciente, que é drenada com as células malignas, permitindo localizar o gânglio no qual estão instaladas.


Apesar de ser muito sensível, a precisão dessa técnica não é tão elevada. Com isso, o cirurgião pode encontrar diversos linfonodos e não saber ao certo qual deles abriga as células malignas, tendo de dissecar grande extensão de tecido. Isso provoca aumento de efeitos colaterais e complicações pós-operatórias, entre as quais edemas, redução de mobilidade ou parestesia (sensação desagradável na pele, tais como queimação, dormência e coceira).


“A fluorescência gera imagens bastante precisas, nas quais é possível observar a localização do linfonodo, independentemente da presença de outros linfonodos próximos”, garante o pesquisador. O equipamento já foi empregado em cirurgias de 16 pacientes do Hospital de Câncer de Barretos. “Ele pode ser utilizado de modo geral para localizar linfonodos sentinela de tumores sólidos em estágio inicial. Como exemplo, há os casos de câncer de cabeça e pescoço, língua, pele (melanoma) e de mama”, afirma Govone.


O pesquisador avalia que o aparelho desenvolvido no IFSC-USP traz vantagens em relação ao similar existente no mercado,


que é importado. “O nosso apresenta imagens coloridas, pode ser manuseado pelo próprio cirurgião, por ser dotado de uma manopla, e dispõe de tela que melhora a ergonomia do cirurgião, pois fica bastante próxima do campo cirúrgico”, enumera.


Parceiros – A patente do sistema foi requerida, e dois serviços de saúde privados já se mostraram interessados em sua aquisição. “Ainda não há uma definição sobre a comercialização, mas a USP possui uma agência para gerenciar as patentes geradas na universidade, que será a responsável por buscar parceiros para a produção do equipamento”, diz o pesquisador.


O custo de um aparelho similar comercial, no ano passado, era de aproximadamente US$ 30 mil, sem considerar valores de importação e de tributos brasileiros. “Nosso sistema ainda não possui um custo de venda calculado, temos apenas os valores de produção. Os gastos com matéria--prima foram de aproximadamente US$ 4 mil”, informa Govone.


Cláudio Soares


DOE, Executivo I, 14/04/2016, p. III