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Alunos da USP listam plantas tóxicas para animais domésticos
14/04/2016

 


Comigo-ninguém-pode, azaleia, antúrio, avenca, bico-de-papagaio, entre outras, são plantas bastante comuns nas residências. Bonitas, tornam agradável o ambiente doméstico tanto para os donos quanto para seus animais de estimação. Mas a combinação de plantas e pets em casa, embora pareça inofensiva, requer cuidados. As espécies ornamentais citadas, entre outras, costumam causar intoxicação aos bichinhos quando ingeridas.


Pesquisa em clínicas veterinárias da capital paulista identifica espécies responsáveis por intoxicação de cães e gatos; o trabalho foi elaborado por graduandos da Faculdade de Medicina Veterinária e Zoologia   


A preocupação em disseminar essa informação de modo esclarecedor motivou quatro grupos de alunos da Faculdade de Medicina Veterinária e Zoologia (FMVZ) da USP a realizar levantamento sobre o assunto em clínicas veterinárias. A partir de proposta elaborada pela professora coordenadora Silvana Gorniak, responsável pela disciplina de toxicologia veterinária, eles percorreram consultórios das quatro regiões da cidade para verificar se havia plantas prevalentes entre as ocorrências de intoxicação.


Pensamos – “Pensamos em informar aos proprietários que, embora os cães e gatos sejam carnívoros, há situações nas quais podem comer plantas, sendo muitas delas tóxicas”, explica a professora.


Segundo ela, a ideia derivou da observação de que, muitas vezes, diante de sintomas  típicos de intoxicação, os proprietários dos animais não consideraram a possibilidade de eles terem ingerido alguma planta em casa ou durante um passeio. “Por causa disso, os sintomas podem ser confundidos com outros tipos de afecções, como as doenças infectocontagiosas, e levar à realização de diagnósticos e tratamentos errôneos”, alerta.  


O trabalho resultou em uma lista (ver tabela) com as principais espécies responsáveis por intoxicação na cidade, dispostas em ordem alfabética e identificadas pelos nomes popular e científico, além dos sintomas da toxicidade provocada por elas. A iniciativa abrange ainda a criação de banners para a divulgação da lista em clínicas, com apoio financeiro da indústria farmacêutica Zoetis.


Impacto – Para a professora, a ação atende a dois objetivos principais. Além de auxiliar o diagnóstico e a prevenção desse tipo de problema, proporciona   uma vivência didática mais abrangente aos alunos. “O ato de eles realizarem uma ação que impactará diretamente em benefício para a sociedade torna o aprendizado,  sem dúvida, infinitamente mais eficaz”, considera.


A participante Gabrielle Cristina Dias concorda com a avaliação. “A realização desse trabalho foi de extrema importância, uma vez que me ajudou a identificar e conhecer maior variedade de plantas tóxicas   e saber quais delas apresentam risco potencial aos cães e gatos”, conclui.


A Dieffenbachia sp, popularmente conhecida como comigo-ninguém-pode, é a campeã entre as mais consumidas por cães e gatos, segundo o levantamento. Muito comum nas residências, pela beleza de suas  folhas e facilidade de cultivo, ela costuma provocar irritação e edema na boca, língua,  glote e cordas vocais dos animais, causando dificuldade para deglutir, além de distúrbios gastrointestinais e renais. Em casos extremos, pode levar à morte.


Surpresa – A toxicidade da planta, de acordo com a professora, ainda não está totalmente clara, mas acredita-se que grande parte dos sintomas é causada pelo oxalato de cálcio, princípio ativo de algumas plantas. “O nível de toxicidade depende de fatores como presença de princípios    ativos, tipo de cultivo, quantidade ingerida e condições específicas do animal”, explica a especialista.


Embora não seja ornamental e tenha seu cultivo proibido no Brasil, outra espécie destaca-se na pesquisa. É a Cannabis sativa, mais conhecida como maconha. A hipótese para essa ocorrência surpreendente é que a intoxicação ocorre por inalação da fumaça produzida quando o dono do animal consome a planta, na forma de cigarro. Mas há também a suspeita de que os pets possam ingerir alimentos que levam Cannabis na sua composição.


Nesse caso, os sintomas são depressão, perda do controle muscular durante movimentos voluntários, tremores, convulsões, desordens comportamentais, estupor, aumento de sensibilidade de maneira geral, como maior reação a estímulos externos, ou mesmo aumento da sensibilidade à dor (hiperestesia).


Identificação – A pesquisa foi realizada no Departamento de Patologia, na disciplina Toxicologia, ministrada para os alunos do 6º semestre do curso. A intenção, de acordo com a coordenadora Silvana, é que, futuramente, seja feito um levantamento  detalhado, no qual sejam considerados mais fatores, a fim de avançar ainda mais na prevenção desse tipo de acidente.


A partir dos resultados já obtidos, a professora aconselha os donos de animais  a manterem as plantas listadas inacessíveis aos bichos e a procurarem um  médico veterinário sempre que seus  bichinhos apresentarem sintomas semelhantes aos relacionados. Silvana também recomenda para que, no caso de suspeita de intoxicação, haja um esforço para a identificação da planta possivelmente ingerida, a fim de levar uma amostra ao profissional. Por fim, salienta que as plantas medicinais somente   devem ser ministradas aos animais com  orientação de um médico veterinário.


Simone de Marco


DOE, Executivo I, 14/04/2016, p. IV