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USP isola substância promissora no combate à metástase
26/04/2016

 

Pesquisa realizada no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP com organismos marinhos apresentou resultados promissores para o desenvolvimento de uma droga que possa combater a metástase do câncer de mama.

Segundo a coordenadora do trabalho, professora Glaucia Maria Santelli, testes in vitro em culturas de células do tumor de mama humana mostraram que o geodiamolide H, isolado da esponja brasileira Geodia corticostylifera, conseguiu inibir a proliferação celular. Além disso, o composto também levou à redução da movimentação da célula.

“Essencialmente, o que essa substância faz é diminuir a capacidade de migração celular do tumor, pois ela ataca o citoesqueleto, responsável por essa movimentação. Pode vir a atuar preferencialmente no controle do que chamamos de colonização do tumor, a metástase”, explica Glaucia. Ela informa ainda que o geodiamolide H apresentou atividade em células de tumores de mama, de fígado e de melanomas, não tendo efeito em células normais.

Mecanismos – O câncer de mama é o segundo tipo mais prevalente no mundo, ficando atrás apenas do câncer de pulmão, de acordo com informações da Organização Mundial de Saúde (OMS). A estimativa do Instituto Nacional de Câncer (Inca) para o biênio 2016/2017 indica a ocorrência de aproximadamente 600 mil novos casos de câncer, sendo o de mama o mais frequente em mulheres, com 58 mil registros.

A metástase ocorre quando as células cancerígenas do tumor original se movimentam para outros órgãos por meio do sistema linfático ou sanguíneo. Em busca de substâncias que possam inibir esse processo, há mais de 15 anos a equipe do ICB estuda os compostos de origem marinha. Eles estão no foco dos estudos da biologia da célula tumoral por serem considerados fontes de moléculas bioativas muito mais ricas do que as plantas, amplamente utilizadas em medicina popular.

A coordenadora explica que isso está vinculado ao fato de os organismos marinhos imóveis necessitarem de mecanismos de defesa contra predadores. “O que exigiria a síntese de ‘venenos’ para sua proteção”, esclarece. Mas, segundo ela, ainda não há consenso sobre a origem dessas moléculas: se elas são produzidas pelas próprias células das esponjas ou por micro-organismos.

Entre os animais marinhos, as esponjas (Phylum porifera) exibem a maior porcentagem de moléculas citotóxicas (que atacam as células), muitas das quais com atividade antitumoral. Exemplos de compostos isolados de organismos marinhos, utilizados no tratamento de câncer, no caso a leucemia, são o Ara-U (espongouridina) e Ara-T (espongotimidina), da esponja Tectitethya crypta.

Experimentos – A equipe do ICB da USP iniciou suas pesquisas com extratos brutos de esponjas e, depois da abordagem experimental inicial, as espécies que mostraram atividade citotóxica ou antiproliferativa tiveram esses extratos submetidos à separação de componentes para novos testes. Nesses, foram identificados os mecanismos de ação e a estrutura da molécula em questão.

Para a realização, o grupo teve a colaboração da dra. Marisa Rangel, do Instituto Butantan, na parte de biologia celular, e do Centro de Biologia Marinha (Cebimar) da USP, que auxiliou na coleta do material, em São Sebastião. Os experimentos de separação e caracterização das moléculas foram realizados em conjunto com pesquisadores da área de Química.

Agora, o estudo pretende sintetizar a substância isolada da esponja em laboratório para que seu uso seja viável em experimentos mais amplos. “Estamos nessa etapa e temos a colaboração do professor Rodrigo Cunha, da Unifesp-ABC”, informa Glaucia. Para que o composto possa tornar-se um medicamento, de acordo com ela, ainda há um longo caminho a seguir, condicionado à obtenção de sucesso em várias fases, que incluem experimentos com animais e, por último, os testes clínicos realizados com as substâncias candidatas a medicamentos em três fases.

DOE, Executivo I, 26/04/2016, p. IV