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Um liberal sem medo de polêmica
09/05/2012

 

Eugênio Gudin

 


Por Oscar Pilagallo | Para o Valor, de São Paulo






Reprodução / ReproduçãoEugênio Gudin (à esquerda) e Roberto Simonsen: antagonistas em debate vigoroso, iniciado em torno da necessidade de criação de um Banco Central


Patriarca do pensamento conservador brasileiro, Eugênio Gudin (1886-1986) esteve quase sempre na contramão da política econômica do país. Liberal, crítico do gigantismo estatal e inimigo da inflação, Gudin conviveu com governos que, com poucas exceções, foram intervencionistas, estimularam a estatização e se mostraram ineficientes no combate à inflação.


O liberalismo atual, no entanto, parece conceder uma vitória, póstuma e parcial, a teses do economista. Embora a biografia "Inventário de Flores e Espinhos", de Márcio Scalercio e Rodrigo de Almeida, não trate do seu legado, é forçoso notar que o Brasil do real está mais próximo de seu ideário do que o país dos mil-réis e do cruzeiro em que ele viveu.


Autodidata, Gudin só começou a estudar economia em meados da década de 1920, com quase 40 anos. As convicções que nunca o abandonaram vieram das leituras de Adam Smith (1723-1790) e da formação de engenheiro. "Gudin inaugurou uma tradição bastante forte no Brasil: a dos engenheiros que, ao longo de suas carreiras, se converteram em economistas", comentam os autores.


Dois episódios nos anos 1940 fizeram Gudin despontar para a carreira que o tornaria conhecido. Em 1943, publicou "Princípios de Economia Monetária", um marco no estudo da disciplina e que o projetou no mundo acadêmico, onde é considerado um dos introdutores do ensino de economia. No mesmo ano, envolveu-se numa polêmica com o industrial Roberto Simonsen (1889-1948) que fundou, no Brasil, as duas correntes majoritárias do pensamento econômico contemporâneo: a monetarista e a desenvolvimentista.


O debate se deu, inicialmente, em torno da necessidade da criação de um Banco Central. Simonsen defendia uma instituição que, com o objetivo de promover o desenvolvimento, drenasse o capital para os elos mais fracos da economia. Gudin, sempre avesso ao planejamento, até aceitava que o banco coordenasse a economia, mas apenas para garantir a liquidez do sistema bancário, e não para fortalecer setores que não gerassem vantagens comparativas.


A troca de farpas se intensificou quando, dois anos mais tarde, no final da ditadura do Estado Novo (1937-1945), Getúlio Vargas convocou os dois para debater os rumos da economia. Enquanto Simonsen defendeu um modelo intervencionista, Gudin o acusou de aderir à "mística da planificação", algo que associava à "experiência fracassada" do New Deal americano. Para o economista, tal proposta, que implicaria déficits orçamentários e políticas monetárias permissivas, não passavam de "keynesianismo bastardo".


Quem ganhou a polêmica? Scalercio e Almeida são de opinião que a argumentação de Gudin foi mais convincente. Mas reconhecem que, a julgar pelos rumos da economia nas décadas seguintes, o vencedor foi Simonsen. Na prática, suas teses prevaleceram, e Simonsen entrou para a história como autor do primeiro projeto industrialista do país. Quanto a Gudin, emergiu da polêmica como adversário da industrialização, "pecha da qual não conseguiria escapar", como observam os autores.


Gudin construiu a carreira longe dos governos. Sua experiência direta com o poder foi fugaz. Logo após o suicídio de Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954, assumiu como ministro da Fazenda do presidente Café Filho, em meio a um ambiente econômico marcado por inflação em alta e reservas cambiais zeradas. Ficou no cargo apenas sete meses, demitindo-se assim que viu tolhida a liberdade de agir de acordo com seu pensamento.


Nessa curta passagem pelo primeiro escalão do Executivo, Gudin patrocinou uma medida que facilitou a entrada do capital estrangeiro. Com uma resolução da Superintendência da Moeda e do Crédito (Sumoc), órgão precursor do BC, Gudin adotou um câmbio mais favorável para os investidores estrangeiros. Uma nova pecha colou em sua biografia: a de "entreguista". A decisão serviria de arcabouço legal para o presidente seguinte, Juscelino Kubitschek, atrair a indústria automobilística estrangeira, mas os críticos de Gudin não passaram recibo: não foi por isso que deixou de ser considerado adversário da indústria.


Na política, Gudin sempre foi um conservador. Não escondia nem a admiração pela encenação democrática das oligarquias durante a República Velha. Antipopulista, apoiou o golpe militar de 1964 contra o presidente João Goulart. "Nunca fui muito de vocação democrática, acho que é preciso preparo para ter democracia", escreveria em suas memórias. E não via contradição entre o ceticismo em relação à democracia e a defesa do capitalismo liberal.


O professor se entusiasmou com o início da ditadura militar. Afinal, a economia foi entregue a Roberto Campos e Octávio Gouvêa de Bulhões, a dupla responsável pelas reformas de cunho liberal. Aos poucos, no entanto, os elogios deram lugar à frustração, devido à crescente estatização. Em 1974, afirmou num discurso: "Vivemos, em princípio, em sistema capitalista. Mas o capitalismo brasileiro é mais controlado pelo Estado do que o de qualquer outro país, com exceção dos comunistas".


Gudin falava de outros países com conhecimento de causa. Gostava de viajar, e não dispensava uma passada na França de seus antepassados. Bem vestido, com ternos feitos sob medida, era um "dândi eduardiano", na definição dos autores. "Gudin era incapaz de resistir a um vinho velho e uma ideia nova", disse certa vez Roberto Campos. Também apreciava ópera. Quando ainda engenheiro, em Recife, chegou a subir ao palco para cantar em uma apresentação de "Mephistofeles", de Arrigo Boito.


Com tom de biografia autorizada, "Inventário de Flores e Espinhos" dá mais voz aos admiradores de Gudin. Os críticos são ouvidos, mas entram principalmente como contraponto, na medida justa para manter algum equilíbrio.


Gudin morreu pouco depois de fazer cem anos, em 24 de outubro de 1986. O Plano Cruzado, que ele elogiara com ressalvas meses antes, morreria, na prática, no final daquele ano. Só oito anos mais tarde, a partir do Plano Real, alguns dos valores que ele defendeu - como inflação sob controle e economia desestatizada - seriam incorporadas à realidade do país.


Oscar Pilagallo é jornalista e autor de "História da Imprensa Paulista" (Três Estrelas) e "A Aventura do Dinheiro" (Publifolha).


"Inventário de Flores e Espinhos"


Márcio Scalercio e Rodrigo de Almeida. Insight. 311 páginas


Fonte: Valor Econômico/Cultura