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Cores, texturas e histórias compõem roteiro no Cemitério da Consolação
07/06/2016

 

Que tal um passeio por um local tranquilo, que concentra obras de escultores conceituados, muita história e, além disso, uma diversidade singular de rochas? Essa é a proposta do Roteiro Geoturístico pelo Cemitério da Consolação, criado pelas geólogas Luciane Kuzmickas e Eliane Aparecida Del Lama.

A atração busca revelar aos olhos dos visitantes um mundo de cores, texturas e características das rochas utilizadas na chamada arte tumular. Além disso, a intenção é desmistificar o conceito de que cemitério é um local desagradável, reforçar seu caráter de museu a céu aberto e introduzir as geociências no cotidiano das pessoas.

“Procuramos integrar nosso roteiro ao programa que promove visitas monitoradas pela necrópole, oferecido pela prefeitura no local (ver serviço). A ideia é agregar informação, tendo em vista, principalmente, o objetivo de difundir as geociências”, afirma Eliane, professora e pesquisadora do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (IGc-USP).

Foi durante o mestrado de Luciane, orientado pela docente, que as duas tiveram a iniciativa de formalizar o roteiro, tão conhecido por ambas. “Passei a andar muito pelo cemitério e a perceber que havia uma quantidade enorme de rochas, inclusive vários tipos que quase não se vê por aí”, relata. “Além disso, elas estão concentradas e fazem parte de construções que contam muita história. Por isso, o roteiro surgiu quase como uma consequência natural e acabou constituindo-se um anexo da minha dissertação”, conta a aluna.

Para definir o itinerário, elas elegeram dois critérios: o passeio deveria reunir os túmulos mais famosos e pedras diferentes. “Aqui, temos muitos, tanto de um quanto do outro”, comenta a professora. Por isso, foram organizados não um, mas dois percursos. Um deles, abrange dez túmulos ‘ilustres’ em que predominam as rochas carbonáticas, ou seja, calcários e mármores. As chamadas rochas silicáticas, silicosas e silíticos-argilosas foliadas, que compreendem vasta gama de granitos, podem ser apreciadas nos 18 jazigos da outra rota.

Status – Entre os túmulos reunidos no primeiro grupo está o da Marquesa de Santos, construído com o mármore estatutário, importado de Portugal, e muito semelhante ao carrara. A mesma pedra também pode ser observada na campa do fundador da USP, Armando de Salles Oliveira.

“Trata-se de uma rocha de cor branca com veios acinzentados e estrutura maciça”, comenta a professora Eliane. Luciane explica que os jazigos mais antigos, localizados essencialmente nas primeiras quadras construídas no cemitério, foram feitos, principalmente, de mármores importados da Itália e de Portugal.

“Estamos falando de uma época em que o material estrangeiro conferia status”, complementa. Primeiro cemitério público do município, o da Consolação foi criado tendo em vista o objetivo de acabar com os sepultamentos no interior de igrejas, considerados pelos higienistas como perigosos à saúde, além de causarem mau cheiro. Assim, após sua inauguração, em 1858, começou a receber os restos mortais de pessoas de todas as classes sociais, num período em que se consolidava na cidade a elite cafeeira.

“A nova burguesia queria se destacar, e passou a marcar sua posição social inclusive no cemitério, com a construção de túmulos imponentes, ornamentados com materiais luxuosos e esculturas, geralmente de imagens religiosas feitas por artistas renomados”, ressalta a professora. Como principal exemplo disso, Luciane cita o mausoléu da família Matarazzo, uma das mais ricas do Brasil no princípio do século 20. “Realizado pelo escultor Luigi Brizzolara (1868–1937), é o maior existente no cemitério e na América Latina”, informa ela.

A edificação de 1925, com 23 metros de altura e dois subsolos, exibe várias pedras importadas, entre as quais o calcário italiano rosso verona (piso), de tom avermelhado, e o raro mármore paonazzetto (soleira), de cor branca, originário da Ásia Menor. Na fachada, chama a atenção o granito rosa e, no interior, as especialistas identificaram o serpentinito, de tom verde-escuro. “A cidade de Verona tem muitas construções feitas com essa pedra”, lembra Eliane.

Prece abstrata – O mármore travertino, o mesmo do Obelisco do Ibirapuera e da Praça São Pedro, no Vaticano, compõe o conjunto escultural O adeus, feito pelo artista Galileu Emendabili (1898–1974), em 1953, para a homenagem fúnebre da família Joaquim dos Santos. O calcário fossilifico que reveste os túmulos de Eleutério da Silva Prado e Joaquim Antonio da Silva e família é motivo de encantamento para Luciane. “Quando vi, fiquei emocionada. É muito bonito, mostra até os fragmentos de coral e conchas que formam a rocha”, explica.

Mais um destaque é o mausoléu da família Siciliano, que apresenta o mármore nero portoro, rocha italiana com coloração cinza-escura e branca, no seu interior. Elaborado pelo escultor Amadeu Zani (1869–1944), em 1927, para abrigar os restos mortais do Conde Alexandre Vincenzo Siciliano, importante industrial e banqueiro que propôs, em 1903, o Convênio de Taubaté (firmado em 1906 entre os governadores do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais para proteger a produção cafeeira). O conjunto comporta uma capela, alegorias assírio-babilônicas e uma figura feminina sobreposta.

“É preciso chamar a atenção, ainda, para a escultura de mármore Prece, comprada para ornamentar o túmulo de Armando de Sales Oliveira”, avisa a responsável pela dissertação. “Feita pelo artista Bruno Giorgi (1905–1993), em 1970, a peça representa duas mãos unidas e é o único exemplar de arte abstrata encontrado nos cemitérios de São Paulo”, revela.

Granito dá beleza e resistência às obras

No segunda rota proposta no trabalho reinam os granitos que, de acordo com a pesquisa de Luciane, apresentam as melhores condições de conservação nos túmulos. “Os usados nas campas mais antigas foram escolhidos por questões estéticas e circunstanciais, mas esse tipo de rocha é mais resistente às intempéries”, explica ela. As autoras contam que, com a crise do café, houve verdadeira revolução na ornamentação dos túmulos e a atenção se voltou para as pedras nacionais.

“Nesse período, a tecnologia de extração no Brasil também havia se aprimorado. Isso fez os granitos vermelhos, como o rosa de itupeva, o de itu e o de salto, inundarem a paisagem do Consolação”, afirma Eliane. Além deles, o granito cinza-Itaquera, uma das pedras mais utilizadas em São Paulo, passou a compor muitas construções funerárias.

Tragédia – Ponto de interrogação, obra que ornamenta o túmulo de Moacyr de Toledo Piza (1891–1923), foi esculpida nessa rocha por Francisco Leopoldo e Silva para representar a memória de uma tragédia. Advogado da turma de 1915 da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, o homenageado suicidou-se dentro de um táxi, após assassinar a amante.

A história, cheia de reviravoltas, causou comoção à época e inspirou a obra do artista, que também usou a pedra para criar a imponente Solitudo, representação da solidão elaborada para a sepultura do advogado Teodureto de Carvalho.

O granito cinza-itaquera constitui ainda o monumental portal de entrada, projetado por Ramos de Azevedo, e a escultura mais famosa do cemitério. Trata-se de O sepultamento (mise au tombeau), considerada uma das principais obras de Victor Brecheret.

Lobato – Premiada no Salão de Ou - tono de Paris, em 1923, a imagem foi incorporada posteriormente ao túmulo do marido de Dona Olívia Guedes Penteado, grande incentivadora do Modernismo no Brasil. Também do artista, Grande anjo, de 1938, de bronze, decora o jazigo da família Botti, e é sustentada por uma estrutura em granito cinza-mauá.

Entre as 18 sepulturas selecionadas nesse grupo, estão ainda a de Monteiro Lobato, revestida de granito preto-bragança, a de Luiz de Toledo Piza e Almeida, na qual o granito azul-norueguês, classificado como larvikite, por ser uma rocha explorada na cidade de Larvik (Noruega), empresta seu tom azulado a um sarcófago decorativo, e o túmulo do acordeonista Mário Zan – autor do hinos dos 400 e 450 anos da cidade de São Paulo – constituído de granito branco-dallas.

Museu a céu aberto

Fundado em 1858, o Cemitério da Consolação abriga 6.138 túmulos, entre os quais os de várias personalidades, como Marquesa de Santos, Mario de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Monteiro Lobato, Prudente de Morais, Campos Salles, Guiomar Novaes, Líbero Badaró, Luís Gama, Ramos de Azevedo, entre outros.

Além de importante caráter histórico, o local dispõe, ainda, de muitas obras de arte, o que levou o Serviço Funerário do Município de São Paulo a desenvolver, em 2014, o Programa Memória & Vida. Segundo o órgão, a iniciativa propõe a ocupação cidadã dos cemitérios como museus a céu aberto e parques de memória. E obteve a inclusão desses estabelecimentos no sistema de parques e áreas verdes do Plano Diretor publicado em julho de 2014.

O programa desenvolve uma agenda diversificada de eventos culturais e de formação nas necrópoles municipais, tais como exposições, visitas guiadas (Roteiro Arte Tumular), peças de teatro, saraus de música e poesia, seminários, trilha ambiental, contação de histórias e cinema. No ano passado, a visita guiada no Cemitério da Consolação, com o Roteiro Arte Tumular, atraiu 1.425 estudantes, além de 272 pessoas do público em geral. Em 2016, a expectativa é de que esse número seja superado, já que até o mês passado mais de 700 pessoas haviam procurado o serviço. Mais informações, inclusive sobre agendamentos, estão disponíveis em goo.gl/C7QLUz.

DOE, Executivo I, 07/06/2016, p. II