Notícias

Pesquisa pode originar remédio contra a doença de Chagas
25/06/2016

 

Estudo em andamento avalia a possibilidade de se conseguir um medicamento contra a doença de Chagas a partir da molécula isolada de uma vegetação do cerrado, a Arrabidaea brachypoda. Conhecida como cervejinha-do-campo, essa planta é utilizada pela população para tratar cálculos renais.

O trabalho foi iniciado no doutorado da pesquisadora Cláudia Quintino da Rocha, na Universidade Esta dual Paulista (Unesp). Parte de sua pesquisa foi realizada na Faculdade de Farmácia da Universidade de Genebra, na Suíça, com os professores Jean-Luc Wolfender e Emerson Queiroz.

No desenvolvimento do projeto de doutorado, Cláudia separou e identificou um tipo de substância nunca antes isolada de espécies da flora brasileira. “Algumas das moléculas mostraram-se ativas para algumas enfermidades, entre as quais a doença de Chagas”, relata. Ao decidir trabalhar nessa via, Cláudia considerou também o fato de que os medicamentos existentes hoje no mercado para essa enfermidade provocam efeitos colaterais. “Isso acarreta abandono do tratamento por parte dos pacientes. Há necessidade de novos tratamentos eficazes e seguros”, avalia a pesquisadora.

O pós-doutorado de Cláudia, que é atualmente professora da Universidade Federal do Maranhão, foi realizado com os mesmos dois grupos, no Brasil e na Suíça. A pesquisa teve então continuidade. Na Unesp, o trabalho ficou sob supervisão do professor titular Wagner Vilegas, do Instituto de Biociências do câmpus do litoral paulista, em São Vicente.

Fitoterápicos – Vilegas é o pesquisador responsável por um projeto amplo chamado Fitoterápicos Padronizados como Alvo para o Tratamento de Doenças Crônicas, que, como o nome indica, trabalha com a possibilidade de encontrar medicamentos a partir das plantas. “Com o envelhecimento, a população vai ficando cada vez mais dependente de remédios para tratar doenças crônicas – diabetes, inflamações e úlceras. Como muitos remédios são caros, o povo recorre às plantas medicinais, acreditando que contenham substâncias que possam curá-las. Isso pode ser verdade, mas há também várias plantas tóxicas”, alerta o professor.

“Nosso grupo pesquisou mais de 20 plantas e encontrou algumas que servem para o tratamento dessas doenças, enquanto outras mostraram que são tóxicas e não devem ser ingeridas. Esse é o trabalho do cientista: buscar, em conjunto com as sábias informações da população, opções para aproveitar as riquezas naturais de nosso país”, diz Vilegas. O projeto foi realizado com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

A doença de Chagas, causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi, é transmitida pelo inseto conhecido como barbeiro. Até agora, os testes com o material extraído da cervejinha-do-campo foram feitos em células (in vitro) e em animais de laboratório (camundongos) contaminados com Trypanosoma cruzi.

Observou-se, nos animais tratados com algumas doses da substância, grande redução no número do parasita no sangue. “Isso nos leva a concluir que ela é capaz de matar o protozoário, sendo forte candidata a se tornar um medicamento contra a doença de Chagas”, diz Vilegas.

Os resultados são promissores, mas não é possível ter certeza de que se chegará a um medicamento, nem do prazo necessário para que fique pronto. “Alguns ensaios ainda serão necessários para avaliar o grau de segurança dessa substância. Será preciso também realizar mais ensaios pré-clínicos (com animais) e em seguida os ensaios clínicos (com pacientes). Por enquanto não temos previsão do tempo exigido para que a substância se torne um medicamento disponível no mercado”, afirma Cláudia.

Escala – A pesquisa passou por estudos de toxicidade, para saber se, além de princípios ativos benéficos, a planta não tem também substâncias que possam provocar danos ao ser humano. Cláudia afirma: “Durante os ensaios em laboratório, foi realizado teste comparando a substância ativa com as tóxicas de referência. Nesses experimentos não foi observado indício de toxicidade nas doses testadas das substâncias isoladas de Arrabidaea brachypoda”.

Cláudia e os pesquisadores associados conseguiram também criar em laboratório a substância produzida pela planta. Isso é importante para a eventual produção em grande escala, pois esse trabalho seria muito difícil no caso da Arrabidaea brachypoda, cujos princípios ativos estão contidos nas raízes. Sem a produção em laboratório, explica Vilegas, “teríamos de arrancar e matar a planta para obter a substância”.

Negligenciada – A doença de Chagas é uma das moléstias classificadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como negligenciadas, por não receberem grandes investimentos da indústria farmacêutica. São enfermidades – entre as quais estão a esquistossomose, hanseníase, leishmaniose, malária e tuberculose – que afetam principalmente as populações de baixo poder aquisitivo das regiões tropicais do planeta.

“Grande parte da população não tem poder aquisitivo suficiente para comprar medicamentos caros. Por isso, diversas indústrias decidem não investir nas pesquisas nem produzir remédios que possam auxiliar ou curar essas doenças. Esse quadro é desumano e requer atenção dos governantes quanto à obrigação de viabilizar condições apropriadas de saúde a todos os seus cidadãos”, avalia Vilegas.

DOE, Executivo I, 25/06/2016, p. IV