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Uso consciente da internet é aliado na prevenção de crimes virtuais
28/06/2016

 

Mais da metade dos 67 milhões de domicílios brasileiros (54,9%) tem acesso à internet. Em 80% dessas residências, a navegação está na ponta dos dedos, nos smartphones. Os números, retirados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2014, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dão a dimensão da presença da web na vida da população e expõem, também, o tamanho do universo em que podem ser registrados os crimes virtuais.

O cibercrime é um delito que necessita de técnicas diferenciadas para a investigação. “No crime eletrônico, a averiguação é conduzida partindo-se do princípio de que as provas são muito voláteis. Se não houver a experiência para a coleta adequada – em um notebook, tablet, servidor, switch –, corre-se o risco de perdê-la”, ressalta o delegado da divisão de tecnologia da informação do Departamento de Inteligência da Polícia Civil (Dipol), José Mariano de Araújo Filho.

“Essa apuração requer que o agente tenha conhecimentos técnicos, jurídicos e policiais”, afirma. Para dar apoio a procedi mentos dessa natureza no Estado de São Paulo, a corporação utiliza os serviços do Laboratório de Análise de Crimes Eletrônicos (LAB-E), que possui recursos tecnológicos para avaliar provas e auxilia na apuração de delitos de todas as regiões.

Anonimato – Muitos crimes na internet ocorrem sob a forma de pseudônimos, perfis falsos ou anônimos. No entanto, nas etapas de investigação, o delegado Araújo Filho, que também é supervisor do LAB-E, afirma que há uma ilusão no sentimento dos criminosos com a certeza de que não serão descobertos. “Existe aquela visão de que atrás de um computador a pessoa não será identificada, e isso é uma inverdade. Anonimato numa rede como a internet não existe”, reforça.

O especialista acrescenta: “O que de fato ocorre é o surgimento de obstáculos que dificultam temporariamente a identificação dos autores”.

“Qualquer rede trabalha com uma linguagem que permite a interação com outro equipamento a distância; na internet, essa conexão chama-se protocolo TCP/IP”, explica. O princípio para a interação entre duas máquinas é a identificação, ou seja, só falam entre si equipamentos que são identificados.

Para dificultar o acesso a esse IP, os infratores podem utilizar, por exemplo, proxys – servidores intermediários entre o usuário e o servidor, o que exige que a polícia solicite essas informações a outros países. “O sucesso na identificação vai depender da capacidade de obter esses dados. É burocrático, mas o anonimato propriamente dito não existe”, diz o delegado.

Conhecimento – A atuação da Dipol diante dessas ocorrências revela que muitos registros poderiam ser evitados se houvesse o uso consciente das ferramentas on-line.

Seja nos crimes contra a honra e ameaças, muito comuns, seja em ocorrências relacionadas com o comércio eletrônico e o uso de cartões de créditos, Araújo Filho diz haver certo desconhecimento nas ações dos usuários perante a rede.

“É impossível falar de utilização segura da internet sem a educação digital. As pessoas são empurradas para a navegação sem o mínimo conhecimento para executar tarefas básicas, e isso é muito sério”, alerta.

As publicações indevidas em redes sociais, exemplifica o delegado, têm resultado em casos de polícia, além de gerarem um complicador: são postagens que tendem a se eternizar. Ele cita o exemplo recente de uma garota norte-americana que teve fotos íntimas divulgadas e teria cometido suicídio diante do fato.

“Estão pondo armas nas mãos de pessoas que não têm a perícia adequada para manejá-las. Basta entrar em qualquer rede social e verificar a quantidade de menores e adolescentes que estão on-line. Eles falsificam a idade para ter acesso, pois não querem estar fora. Do contrário, serão considerados párias”, exemplifica. Para se cadastrar no Facebook, por exemplo, é preciso ter ao menos 13 anos de idade.

O especialista aborda ainda outra situação relacionada a crianças. “Se na porta do colégio a pessoa encontra o filho conversando com um estranho, ela vai tentar saber quem é e, ao chegar em casa, até dá bronca e o orienta. Na internet, muitos pais não fazem ideia de quem são os amigos dos filhos ou o que eles fazem nesse ambiente.” O delegado afirma haver um distanciamento tecnológico entre as redes sociais e a geração dos pais.

LAB-E – Um corredor branco dá acesso a uma área de segurança restrita, onde somente pessoas que trabalham no laboratório estão autorizadas a entrar.

Uma vez no interior do LAB-E, as provas passarão por diversos procedimentos dos agentes – que são delegado, investigadores, carcereiros, todos com formação na área de tecnologia da informação – até que sejam encontradas as evidências necessárias.

Para isso, são utilizadas tecnologias como o kit de cópia forense, um dispositivo que pode ser levado para qualquer local e com uma simples conexão de cabos, copia as informações necessárias de um computador em uma cena de crime, por exemplo.

Pelo fato de os smartphones serem tão utilizados atualmente, a maleta carrega impressionante variedade de cabos, modelos e entradas para efetuar a gravação de dados da memória do aparelho que está sob investigação policial.

O laboratório analisa, ainda, vídeos e fotos para ajudar na identificação de possíveis autores, além de processar dados e registros. Os policiais têm recursos para apurar informações de celulares, tablets, smartphones, GPS, discos rígidos, pen drives e cartões de memória.

“Está na hora de todos tomarem conhecimento da necessidade de promover essa consciência e implementar a educação digital (ver boxe). Senão, vamos ter incidentes cada dia mais graves e concordar com a expressão ‘internet é terra de ninguém’”, finaliza o delegado.

DOE, Executivo I, 28/06/2016, p. IV