Notícias

Agressividade pode indicar síndrome do pavio curto
19/07/2016

 

Comportamento desproporcionalmente raivoso e que se repete com frequência diante de situações do cotidiano pode ser indício de transtorno explosivo intermitente (TEI), popularmente conhecido como pavio curto. O TEI é uma modalidade de transtorno do impulso, que atinge entre 5% e 6% da população brasileira, de acordo com estudos do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas (HC), ligado à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

“Muitas pessoas têm esse transtorno, desconhecem ser um problema de saúde e que há tratamento”, alerta a psicóloga e coordenadora do Ambulatório de TEI do IPq, Liliana Seger. Criado há nove anos, o ambulatório é o único do Brasil especializado na assistência da doença.

A unidade recebe pacientes por encaminhamento da rede básica de saúde ou mediante procura espontânea pelo site (ver serviço). Ao se inscrever, a pessoa passa por triagem para confirmar o diagnóstico e aguarda a disponibilidade de vaga para iniciar o tratamento.

Bons resultados – O serviço oferece 15 sessões de psicoterapia em grupo na abordagem cognitivo- comportamental e acompanhamento psiquiátrico e medicamentoso enquanto for necessário. O ambulatório atende entre 30 e 45 pessoas por ano, distribuídas em dois ou três grupos de psicoterapia. A psicóloga diz que o tratamento é promissor, pois mostra que os pacientes aprenderam a adquirir controle da agressividade e conquistaram melhor qualidade de vida.

As explosões de raiva, características do TEI, são classificadas em dois tipos: leves e severas. As explosões leves são ameaças, xingamentos, ofensas, gestos obscenos, arremesso de objetos e agressões físicas sem lesão corporal, numa frequência média de duas vezes na semana por no mínimo três meses. As explosões severas geram destruição de propriedade ou patrimônio, ataques físicos com lesão corporal e ocorrem ao menos três vezes em um ano. Sem assistência médica adequada, a pessoa com pavio curto fica tão irritada que o transtorno do impulso ocasiona problemas nos relacionamentos familiares, afetivos e profissionais. “Muitas delas são demitidas do emprego. Algumas conseguem se manter no trabalho porque são profissionais muito qualificados”, acrescenta a psicóloga.

Diferenças – “As pessoas podem sentir raiva diante de uma situação incômoda que gera estresse, como desemprego, humilhação do chefe e problemas no trânsito. A diferença é que quem tem pavio curto manifesta explosão de raiva independentemente do estresse”, compara.

Segundo a profissional do IPq, pacientes com essa patologia reagem por impulso, mas normalmente arrependem-se depois.

O TEI é causado por questões ambientais, biológicas e hereditárias. Suas causas biológicas e físicas são atribuídas à disfunção de neurotransmissores do hormônio serotonina (responsável pela regulação do humor, entre outras). Causas emocionais ou psicológicas devem-se a um histórico familiar permeado por instabilidade, explosões verbais, abusos físicos e emocionais, presença de transtornos do humor e vícios.

Ineditismo – “Além do ambulatório do IPq, não existe no País outro serviço especializado que ofereça o tratamento de TEI com terapia em grupo e apoio psiquiátrico”, informa a especialista. Por esse motivo, o Programa do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso (Pro-Amiti) do instituto oferece curso de formação (on-line e/ou presencial) direcionado a psicólogos e psiquiatras.

A nona edição do Curso de Transtorno do Controle do Impulso 2016 será realizada em agosto, no IPq. “A participação dos profissionais de saúde nesse curso é importante porque quanto maior for a difusão do conhecimento, mais serviços devem ser criados para atender à elevada demanda de pacientes com TEI”, diz Liliana.

Em 14 módulos, serão abordados temas como jogo patológico, compras compulsivas, TEI, amor patológico e ciúme excessivo, dependência de alimentos e outros transtornos do impulso.

DOE, Executivo I, 19/07/2016, p. II