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Atividade física é benéfica aos doentes pulmonares
17/08/2016

 

Exercícios aeróbios moderados (caminhada, corrida, natação, ciclismo e outros) diminuem a intensidade da inflamação ocasionada pela asma e agravamento da lesão na doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). Essas informações constam da pesquisa Efeitos do ambiente e do estilo de vida sobre a asma e a doença pulmonar obstrutiva crônica: Estudos experimentais e clínicos, realizada por dez profissionais (médicos e fisioterapeutas) do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

“A literatura médica sempre mencionou que os exercícios físicos melhoram a qualidade de vida do fumante, mas, até então, desconhecia os mecanismos que atuam na redução e prevenção da inflamação pulmonar, um dos temas de nosso estudo”, explica o fisioterapeuta Celso Carvalho, responsável pelas avaliações clínicas da pesquisa e professor de fisioterapia respiratória na FMUSP.

A asma é uma doença genética provocada pela inflamação dos brônquios e geralmente se inicia na infância. A DPOC é ocasionada principalmente pelo tabagismo a longo prazo (cerca de 20 anos). Os sintomas de ambas as moléstias são parecidos: falta de ar, dificuldade respiratória, cansaço e tosse. “Devido à dificuldade respiratória, em geral, o paciente tende a tornar-se sedentário”, informa Carvalho.

Proteção – “Nosso projeto aborda a asma e a DPOC no mundo real. Isto é, considerando os efeitos do tabagismo, da poluição atmosférica e da atividade física (três fatores relacionados ao estilo de vida), demonstramos que o exercício aeróbio atenua ou reverte a inflamação provocada pelo quadro asmático; desacelera a progressão da DPOC, mesmo em tabagistas; e protege contra as infecções”, afirma o também coordenador da pesquisa Milton de Arruda Martins, que é professor de Clínica Médica Geral da FMUSP e diretor do Serviço de Clínica Geral do HC da FMUSP.

Com apoio financeiro de R$ 1 milhão da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), a ampla pesquisa, com diversas linhas de estudo, começou em 2010 e foi concluída em 2015.

Em um dos estudos, camundongos foram condicionados em esteira. Parte deles inalou fumaça de cigarro numa câmara especial. Os animais foram divididos em quatro grupos: os que não inalaram fumaça de cigarro nem faziam atividade física; os tabagistas e sedentários; os que fumavam e praticavam exercícios; e os que não fumavam e faziam atividade física.

Enfisema – “Após seis meses de experimentos (o que corresponde a um terço ou um quarto da vida dos animais), os que foram expostos à fumaça do cigarro desenvolveram enfisema pulmonar evidente. Aqueles que, embora fumantes, fizeram atividade física, tiveram atenuação muito importante no desenvolvimento do enfisema”, informou o pesquisador Martins.

No segundo estudo, foi analisado o exercício entre os camundongos com asma induzida pelo contato com aerossol. Divididos em grupos semelhantes ao experimento anterior, Martins conta que os animais treinados tiveram inflamação pulmonar menos intensa do que os não treinados.

“Os que começaram a treinar depois de induzida a asma tiveram revertidas muitas das alterações provocadas pelo quadro asmático. Portanto, existe um efeito tanto preventivo quanto retroativo do exercício”, resumiu.

O terceiro estudo, liderado pelo professor Carvalho, investigou o efeito protetor do exercício aeróbio entre cem pacientes com asma moderada a grave e sintomas controlados por medicação. Com supervisão médica e acompanhamento de educadores físicos e fisioterapeutas, um grupo fez treinamento aeróbio na esteira, com aumento de carga e velocidade de acordo com avaliações periódicas. Outro grupo praticou apenas exercícios de alongamento e relaxamento.

Menos crise – “Comparando os dois grupos, três meses depois verificamos que aquele que fez atividade aeróbia apresentou melhor qualidade de vida, com menos crise, e melhora efetiva da inflamação pulmonar”, informou Carvalho. Ele relata que em 90% dos pacientes com asma houve 50% de redução das queixas da doença. Entre aqueles que fizeram alongamento, os sintomas de asma permaneceram inalterados.

Em outra pesquisa com voluntários, os estudiosos concluíram que o efeito positivo da atividade física aeróbia não afeta apenas o pulmão, mas sim todo o organismo. “Esse benefício pode ser alcançado por qualquer atividade aeróbia, desde que seja praticada de forma moderada”, frisa o professor Carvalho.

Houve ainda outro estudo com camundongos, em parceria com o Instituto Butantan, para analisar o impacto da atividade física na proteção contra infecções, como pneumonia. “O experimento mostrou que a pneumonia foi muito menos intensa no grupo de animais condicionados – tanto pelas alterações inflamatórias verificadas quanto pelo número de bactérias isoladas nos pulmões”, concluiu Carvalho.

Por causa do ineditismo das conclusões na literatura médica, esses estudos foram publicados em periódicos internacionais de maior impacto científico, por serem especializados em doenças respiratórias. Destaque para os jornais inglês Thorax (2015) e o americano Chest (2014). Nos últimos anos, esses trabalhos da FMUSP foram divulgados no Congresso Europeu de Doenças Respiratórias e no Congresso Americano de Doenças Respiratórias.

Tratamento – “O próximo passo é conscientizar a população com doenças respiratórias sobre a importância da atividade física de intensidade moderada e seus benefícios para melhorar a qualidade de vida. No entanto, é imprescindível aliá-la ao tratamento médico e medicamentoso apropriado”, observa o professor de fisioterapia. Ele diz que o exercício é considerado moderado quando realizado por 20 minutos e gera cansaço suportável, sem exaustão e sem falta de ar. “Os pacientes com asma e DPOC podem iniciá-lo de forma leve e aumentar sua intensidade aos poucos, até o nível moderado”, ensina.

DOE, Executivo I, 17/08/2016, p. II