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Escola estadual ensina Libras e estimula a inclusão social
25/08/2016

 

Instrumento de inclusão social que possibilita olhar diferenciado ao cidadão com deficiência auditiva, a Língua Brasileira de Sinais (Libras) é tema de aprendizagem na Escola Estadual Professor Teotônio Alves Pereira, na Vila São José, zona sul da capital paulista. “O projeto, chamado Mãos que Falam, é tão procurado que mais de cem alunos se interessaram na última inscrição, mas só temos capacidade de oferecer 35 vagas por semestre”, informa a professora de Matemática, Eliane Felippe, idealizadora da disciplina eletiva, incluída na grade da Escola de Tempo Integral.

Pelo ensino em tempo integral, os professores atuam com dedicação exclusiva para incentivar o protagonismo juvenil e o desenvolvimento de pensamento crítico entre os escolares. Além das disciplinas obrigatórias, os alunos também contam com disciplinas eletivas, pesquisa científica, clubes juvenis, orientação de estudos e a elaboração de um projeto de vida.

Na Teotônio Alves Pereira, a turma do ensino fundamental tem aula das 7h30 às 15h40 e a do ensino médio, das 7h30 às 16h30. No começo de cada semestre, os alunos participam do “varal dos sonhos”, ação que lhes permite compartilhar seus projetos de vida futura. “Muitos deles nos disseram que vão querer viajar, conhecer novas culturas e cursar uma universidade. Diante desses objetivos, pensamos em oferecer o curso de Libras”, relembra Eliane.

Alta receptividade – A primeira edição do Mãos que Falam foi realizada no segundo semestre de 2014. A professora diz que, em geral, as aulas eletivas não se repetem nos semestres seguintes. No entanto, a receptividade dos jovens foi tão positiva que os educadores decidiram oferecê-la também no primeiro semestre de 2015 e no segundo semestre de 2016, quando vai reunir também alunos do 6º, 7º e 8º anos do ensino fundamental.

As aulas incluem a exibição de trechos de filmes (O milagre de Anne Sullivan, de Arthur Penne, e Mr. Holland – Adorável professor, de Stephen Herek) e debates em sala de aula. O primeiro trata da incansável tarefa de uma professora para inclusão social de Helen Keller, uma garota cega, surda e muda. O segundo mostra a história de um professor de música que se esforça para financiar os estudos especiais do filho surdo.

“No projeto Mãos que Falam desmistificamos alguns conceitos, como a ideia errônea de que o surdo tem dificuldade de aprendizagem. Muita gente também acha que o surdo é mudo, mas isso não é verdade. Nós nos comunicamos com a voz porque reproduzimos o som. Quem não fala não consegue reproduzi-lo”, explica Eliane.

Ajudar o próximo – A professora ensina vocabulário básico de Libras e como ajudar o deficiente auditivo em situações do dia a dia – por exemplo, pegar ônibus, comprar alimento, pedir licença e outras. Durante as aulas, realizadas duas vezes por semana (50 minutos cada), a garotada aprende a expressar músicas famosas em Libras, bem como a cultura do surdo, sua aceitação social. Eles também são estimulados a desenvolver competências de leitura e escrita.

Eliane conta que muitos deles relatam que após a aprendizagem passaram a se comunicar com surdos e a fazer amizades. “Nesse mundo competitivo, nossos escolares perceberam a importância de adquirir um conhecimento diferenciado, o que favorecerá seu desempenho no mercado de trabalho. Além disso, aprenderam a acolher o surdo com respeito, sem dó”, avalia a professora de Matemática.

Não há na escola nenhum aluno com deficiência auditiva, mas estão matriculadas seis crianças, de 11 a 14 anos, com deficiências motora, neurológica, física e intelectual. A diretora Jeanete Correia de Godoi Silva relata outras mudanças observadas após as aulas de Libras: “Os alunos desenvolvem melhor a leitura e escrita, têm mais foco e atenção nas aulas”.

Todos iguais – Isadora Paula Silva, 16 anos, do terceiro ano do ensino médio, decidiu estudar Libras porque queria conhecer algo novo: “Pretendo ser médica, profissão que tem envolvimento com muitas pessoas diferentes. Após o curso, passei a ver os deficiente auditivo como qualquer outra pessoa. Acho que vou conseguir ajudá-los com o que aprendi aqui na escola”.

“O curso de Libras mudou minha percepção em relação ao outro. Hoje vejo que todos são iguais. Sou mais tolerante na sala de aula e com a família. Meu objetivo é cursar Letras com ênfase em Libras para dar aulas nessa área”, conta Mônica Hellen Vitorino, 17 anos, do 3º ano do ensino médio.

Guilherme Gouveia, 17 anos, do terceiro ano do ensino médio, diz que Libras é importante porque une as pessoas. Ele almeja seguir a carreira de publicitário e acredita que o aprendizado desse segundo idioma será um diferencial.

A professora Eliane revela que há 16 anos pensou em fazer algo diferente. Escolheu a dança de salão e o curso de Libras, com duração de cinco anos. “O surdo me chamou a atenção porque ele precisa defender seus direitos e deve ser respeitado. Eu me apaixonei pelo tema, o que reflete na importante receptividade dos alunos”, avalia.

DOE, Executivo I, 25/08/2016, p. III