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Parceria cria centro de pesquisa para estudar o bem-estar
31/08/2016

 

O Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP) sedia o Centro de Pesquisa Aplicada em Bem-Estar e Comportamento Humano, primeira instituição brasileira criada a partir de modelo de financiamento compartilhado entre uma empresa privada (Natura) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

O Centro é formado por uma rede de 30 pesquisadores das áreas de psicologia e neurociência da IPUSP, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM).

A abordagem principal será a psicologia positiva – estudo e desenvolvimento das qualidades humanas e dos aspectos saudáveis da vida, como sabedoria, criatividade, coragem, cidadania, a partir do entendimento de que a promoção do bem-estar não é simplesmente a redução do mal-estar. Enquanto a neurociência cognitiva pesquisa a atenção, a memória e a linguagem, além da regulação emocional e sua influência nas relações sociais, em questões como raça, gênero e condições sociais, entre outros fatores.

A professora Emma Otta, do Departamento de Psicologia Experimental do IPUSP, explica que o tema bem-estar é bastante estudado no exterior, assim como na Universidade de Princeton (Estados Unidos) e na Universidade de Cambridge (Reino Unido).

Entender emoções – Ela cita que para os pesquisadores Daniel Kahneman e Angus Stewart Deaton, da Princeton, bem-estar indica satisfação com a vida (recursos como habitação, transporte e saúde) e qualidade emocional de acordo com as experiências cotidianas (como alegria, ansiedade, raiva), o que torna a vida agradável ou não. Esses dados são mensurados numa escala específica de 0 a 10.

Pela parceria acadêmica, cada instituição desenvolverá estudos em determinada área. O IPUSP aprofundará temas na área de psicologia ativa, enquanto a Unifesp atuará na saúde mental e o Mackenzie, na neurociência.

“Dez projetos estão em andamento, e cada um deles é desenvolvido em parceria com pesquisadores da Natura, que há 10 anos estudam temas relacionados ao bem-estar social. Queremos entender as emoções e seus impactos na fisiologia do corpo humano”, explica Patrícia Tobo, vice-diretora do centro e gerente científica de Ciências de Bem-Estar da Natura.

Os investimentos previstos para criação do centro e condução de suas atividades chegarão a R$ 40 milhões em dez anos, dos quais R$ 20 milhões serão divididos igualmente entre Natura e Fapesp. Outros R$ 20 milhões serão despendidos como contrapartida pelas universidades, para apoio institucional e administrativo aos pesquisadores comprometidos (salários e infraestrutura).

Beneficiar sociedade – A proposta do centro é realizar estudos multidisciplinares para gerar novos conhecimentos, metodologias, tecnologias, ações de educação, desenvolvimento de indicadores, estruturação de uma base sólida para avaliação e promoção do bem-estar da população brasileira e projetos de negócios.

“Nossa ideia é aproximar a empresa da pesquisa acadêmica para aplicação de novos conhecimentos. Além disso, o interesse comum é beneficiar a sociedade”, salienta Patrícia. A expectativa dos parceiros é que a cada dois anos sejam concluídos e divulgados resultados dos estudos.

Para a professora Emma, há grande potencial de aplicação do conhecimento produzido por pesquisas em psicologia positiva nas áreas da educação, da saúde, do trabalho e das organizações, para o desenvolvimento das pessoas e da sociedade, com a possibilidade de se diminuir o custo econômico e social de doenças, na medida em que as pessoas aprendam a fazer escolhas que promovam o bem-estar e a saúde.

A Unifesp inicia, em setembro, pesquisa que incluirá professores, alunos e seus familiares para avaliar condições de saúde mental e convivência. “Observamos muito estresse no ambiente de trabalho dos educadores. Queremos estudar o que deve ser feito para diminuir essa situação e facilitar a convivência dos alunos na escola e na família”, adianta a professora Ana Horta, da Unifesp.

Até nos cosméticos – “Os cosméticos modulam emoções e a autoestima da população e modificam a percepção do outro. A fragrância remete as pessoas a certas memórias. Como avaliar essas situações? Como esses efeitos são potencializados? Qual é o papel da maquiagem e do perfume? Uma das propostas de nossa parceria é responder a essas questões”, explica Ana Paula Azambuja, gerente-científica da Natura e coordenadora de Educação e Difusão Científica do Centro.

Para José Goldemberg, presidente da Fapesp, o centro deverá fornecer subsídios para ajudar a entender as necessidades de bem-estar da sociedade e a obter condições mínimas para a melhoria da qualidade de vida das pessoas. “O centro se dedicará ao levantamento de dados qualitativos e quantitativos, com vistas à melhoria da qualidade de vida das sociedades modernas a partir da interação da universidade com o setor produtivo”, disse.

Para Vahan Agopyan, vice-reitor da USP, universidade escolhida como sede do centro, as parcerias da Fapesp com o setor produtivo demonstram que a Fundação tem conseguido somar seus recursos aos de empresas que buscam na pesquisa resultados de longo prazo.

“Neste caso, ganha a empresa, por aproximar-se da academia, ganha a universidade, por receber mais recursos para pesquisa, e ganha a sociedade, pois os resultados dos estudos estarão disponíveis com maior rapidez”, observou.

DOE, Executivo I, 31/08/2016, p. II