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Modigliani, um maldito em processo de reavaliação
18/05/2012

 

Por Mariana Shirai | Para o Valor, de São Paulo






A mostra no Masp traz obras como "Grande Figura Nua Deitada", retrato de Céline Howard



A aura de artista maldito continua a acompanhar a obra de Amedeo Modigliani (1884-1920), mais de 90 anos após sua morte. A exposição "Modigliani: Imagens de Uma Vida", que tem abertura hoje no Museu de Arte de São Paulo (Masp), após ser vista por 120 mil pessoas em Vitória e no Rio de Janeiro, teve sua organização dificultada por acusações de fraude. "Está sendo um desafio", diz Paulo Solano, da produtora Museu a Céu Aberto, responsável pela mostra que segue para Curitiba no segundo semestre. "A figura de Modigliani sempre provoca. A mística em torno dele transcende sua morte".


Pouco tempo antes da abertura, em outubro do ano passado, da exposição no Brasil, no Palácio Anchieta, em Vitória, uma das obras escolhidas pelo curador Christian Parisot, presidente do Instituto Modigliani, em Roma, foi excluída da mostra. "Achamos melhor não apresentar o 'Retrato de Marevna' pois há pesquisadores que afirmam que a obra não foi pintada por Modigliani", diz Solano. "Não podemos servir a interessados em esquentar uma obra no mercado." A obra acabou permanecendo no catálogo carioca da mostra, que ocorreu entre fevereiro e abril no Museu Nacional de Belas Artes.


Além do desfalque, Solano afirma que "Modigliani: Imagens de Uma Vida" tem sido alvo de um anônimo que manda dossiês, desqualificando o trabalho do Instituto Modigliani, para a diretoria das instituições por onde a mostra passa. "Teve até colecionador que chegou da Costa Rica com obra sem atestado querendo que a incluíssemos na exposição", diz Solano, que ainda procura patrocinadores para levar a mostra ao Nordeste (dos R$ 3,5 milhões aprovados pelo Ministério da Cultura para a realização da mostra, apenas R$ 2,3 mi foram captados até agora). "Não tem jeito, quando começamos a trabalhar nesse projeto já sabíamos que seria difícil. Afinal, estamos lidando com Modi."



"Jovem Mulher com Olhos Azuis"



"Modi" é como o artista era conhecido na Paris do início do século passado. O som do apelido coincide com "maudit", "maldito" ou "amaldiçoado" em francês. A fama deve-se não só à personalidade provocativa, mas também a algumas circunstâncias de sua biografia. Modigliani nasceu em Livorno, na Itália, em uma família judia decadente. A saúde frágil, atacada por pleurisia, febre tifoide e tuberculose, marcou a vida do artista. Aos 14 anos, durante um delírio causado por febre, clamou que queria, mais do que qualquer outra coisa, conhecer as pinturas no Palácio Pitti e na Galeria Ufizzi, em Florença. Depois de recuperado, sua mãe o levou num tour pela Itália, satisfazendo a curiosidade do filho pela arte do Renascimento.


Após estudar com artistas italianos e ser influenciado por autores como Nietzsche, Baudelaire e Lautréamont, Modigliani mudou-se para Paris em 1906. Ali, em meio à boemia da cena artística, renunciou às origens burguesas e se tornou conhecido por suas farras, romances e rixas com artistas como Pablo Picasso (1871-1973). Mais do que isso, foi em Paris que depurou sua arte, criando um estilo próprio, restrito à figura humana. Formas alongadas, quase geométricas, viraram sua assinatura em retratos, nus e esculturas (cabeças).


"Sua naturalidade nos faz esquecer a profundidade da pesquisa científica", diz o curador Christian Parisot. Um dia depois de sua morte causada pela tuberculose, sua amante Jeanne Hébuterne, grávida, suicidou-se jogando-se pela janela do quinto andar da casa de seus pais.


A vida de Modigliani é o enfoque principal da mostra do Masp, que tem linha do tempo, amplo acervo de fotos de época, documentos, cartas, escritos e 23 obras de artistas de seu tempo. As 11 pinturas, as cinco esculturas e os 22 desenhos de Modigliani foram escolhidos de maneira a representar diferentes momentos de sua obra.



"Jovem Mulher"



"A exposição tem um caráter educativo, de apresentar ao público pela primeira vez não só quem foi Modigliani, mas também outros artistas de seu tempo", diz Olívio Guedes, curador brasileiro de "Modigliani: Imagens de Uma Vida". Entre os destaques de Modigliani, estão "Grande Figura Nua Deitada - Celine Howard" (1917) e uma réplica original de "Tetê" (1910-1912), que entrou para a lista das mais caras esculturas já vendidas em 2010, quando foi leiloada por 43,2 milhões de euros.


Na última década, a arte de Modigliani tem ganhado interesse do mercado e das instituições. "Uma das razões para isso foi a grande retrospectiva no Museu de Luxemburgo, em Paris, que aconteceu em 2002 e teve enorme repercussão", diz a historiadora Ana Magalhães, professora do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP). Seguiram-se mostras da obra do artista em vários países. A exposição em itinerância no Brasil é reflexo desse movimento. Segundo a pesquisadora, há grandes chances desse interesse crescer ainda mais. "Modigliani faz parte da segunda fase do modernismo, um período que passa atualmente por grande revisão na pesquisa acadêmica, com trabalhos em arquivos italianos, que só agora estão sendo estruturados", diz Magalhães.



"Madame G. van Muyden", faz parte do acervo do museu de SP



Para o curador do Masp, Teixeira Coelho, Modigliani ainda não é um nome tão lembrado. "Ele nunca foi radical, ocupa um lugar intermediário na história da arte e sua obra é conhecida dentro do contexto da Escola de Paris". Coelho refere-se ao fato de que a arte de Modigliani não faz parte das grandes rupturas promovidas pelas vanguardas do início do século XX. A segunda fase do modernismo, à qual o artista pertence, foi marcada pelo retorno à ordem, um resgate de elementos da arte clássica. "Para o gosto do colecionador médio, ele é um artista capaz de se comunicar bem, é possível até reconhecer o retratado em suas pinturas, coisa que não acontecia com Picasso, por exemplo."


"O preço das obras de Modigliani tem subido", diz Christian Parisot. "Sua produção é pequena, são cerca de 400 óleos, 30 esculturas e 1.600 desenhos apenas. A raridade faz aumentar o preço." Iniciativas recentes do Instituto Modigliani também ajudam a popularizar o nome do artista. Em 2010, foi criada a Modigliani Brand, que tem escritório em Nova York e comercializa produtos como aparelhos de jantar fabricados em porcelana Richard Ginori estampados com obras do artista. As peças podem ser encontradas em São Paulo, na Casa Modigliani, primeira sede internacional do Instituto Modigliani, aberta no ano passado.


"Modigliani: Imagens de Uma Vida"


Masp - av. Paulista, 1.578, SP, tel. (11) 3251-5644; ter. a dom.: 11h às 18h; qui.: 11h às 20h. R$ 15 (grátis às ter.). Em cartaz até 15/7.


Fonte: Valor Econômico