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Arquivo Público descobre material sobre a origem da USP
4/10/2016

 

Eu chamo essa documentação de ‘o achado’”, salienta a supervisora técnica de gestão documental do Arquivo Geral da USP, Lilian Miranda Bezerra, durante a conferência A história da Universidade de São Paulo e a contratação de seus primeiros docentes – Contextualizando documentos.

Realizado no Arquivo Público do Estado de São Paulo (Apesp) na semana passada, o encontro foi motivado pela localização de três livros de registros das contratações dos primeiros professores da USP, entre 1934 e 1940. Até então, o material estava oculto em meio ao acervo mantido na instituição de guarda, por ter sido, em algum momento, desconectado de seu contexto de produção.

O diretor técnico do Centro de Acervo Permanente do Apesp, Marcelo Quintanilha, relatou que o material foi descoberto, com surpresa, durante o trabalho, em andamento, de criação de um guia da totalidade do acervo, formado por mais de 20 milhões de documentos textuais e 1,5 milhão de fotografias, negativos e ilustrações.

Segundo ele, os livros estavam em meio ao material do fundo privado de um historiador e professor da USP, já falecido, doado à instituição, e desconectados de seu contexto de produção, ou seja, a Secretaria de Estado da Educação e Saúde Pública. “É interessante perceber como um documento de cunho administrativo tornou-se, com o passar do tempo, um monumento histórico”, declarou.

Elo perdido – Lilian falou ao público presente, formado principalmente por membros da comunidade da USP (na atualidade e do passado) e pessoas que atuam na área de arquivo, sobre a importância dos documentos descobertos. “Nós não sabíamos da existência desses livros, que são prova irrefutável da vinculação dos primeiros professores com a universidade”, ressalta.

Os registros referem-se à contratação de um grupo de mais de 80 docentes, a maioria estrangeiros, e grandes nomes da intelectualidade da época. “Neles estão descritos como viriam e para quais aulas foram contratados”, relata a especialista, acrescentando que a maior parte das pesquisas feitas no Arquivo-Geral da USP refere-se a esse tema.

De acordo com Lilian, além de complementar a documentação referente à origem da principal universidade brasileira, “os achados” vão agregar informações para as investigações sobre o tema.

A chefe técnica de divisão do Arquivo-Geral da USP, Bárbara Julia Leitão, enfatizou a importância da parceria das duas instituições, pois o material continuará sob a guarda do Apesp, conforme a legislação, mas o Arquivo-Geral terá acesso a cópias físicas e digitais.

“Para nós, esses livros têm a representação de um elo perdido, porque é um documento administrativo e também memória da USP”, afirmou. Suas palavras foram reforçadas pela fala do vice-reitor da USP, Vahan Agopyan, que salientou a necessidade de se “recuperar a história do começo para um entendimento melhor da gênese”, e a do coordenador do Arquivo Público, Fernando Padula. Segundo ele, cabe à instituição de guarda o trabalho em dois aspectos: da gestão documental e da preservação de documentos.

Influência – O evento de apresentação dos livros de registros teve ainda a presença de intelectuais, que participaram, como alunos, do processo de formação da USP. A historiadora e professora livre-docente Anita Novinsky e o geólogo e professor-emérito do Instituto de Geociências da USP, Setembrino Petri, integraram a mesa O alvorecer da Universidade de São Paulo: Memórias de ex-alunos, sob a mediação da professora Neuza Guerreiro de Carvalho, ela também testemunha dos tempos iniciais da universidade.

A professora do Departamento de História da USP e consultora na área de arquivística Ana Maria de Almeida Camargo também integrou essa etapa com a palestra Entre arquivos e memórias: A história da Universidade de São Paulo, na qual discorreu sobre a importância da contextualização adequada dos documentos de arquivo.

Graduada em 1956, Anita disse considerar memoráveis os tempos do começo da USP, assim como a atuação dos mestres vindos de longe. “Eram professores que marcavam o aluno para sempre”, disse. Segundo ela, tudo o que escreve e faz ao longo de sua carreira ainda é marcado pelas aulas da época.

Para Petri, que ingressou na USP no início dos anos 1940, tanto a criação da universidade quanto a vinda dos estrangeiros foram marcos culturais fundamentais para o País. O primeiro, porque ainda não havia por aqui uma instituição dedicada à pesquisa, além do ensino, e, o segundo, por ter levado à mudança da mentalidade. “Todos trouxeram novidades e técnicas de pesquisas”, explicou o geólogo.

Neuza, por sua vez, falou sobre o Palacete da Glette, o primeiro prédio da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, a FFCL. Demolido na década de 1970, o edifício teve sua história resgatada em 2014 no livro A Glette, o palacete e a Universidade de São Paulo, do qual é organizadora. “A maioria dos professores foi destinada para lá. Fui aluna de três”, lembrou.

Por fim, Ana Maria Camargo ressaltou a necessidade, na pesquisa, de se percorrer toda a prática de prestação de contas de uma instituição para conhecer a sua história. “Ela só é passível de ser construída a partir de uma série de documentos, que podem estar em muitos locais diferentes. Daí, a importância de estarem bem referenciados, para que não se tornem invisíveis”, apontou.

DOE, Executivo I, 04/10/2016, p. IV