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Idosos e o museu é tema de curso de aprimoramento na Pinacoteca
11/10/2016

 

A psicóloga Nori Navarro Marchini define: “Se viver é um desafio, envelhecer é uma arte”. Ela é uma das 28 pessoas que integram o curso Idosos e o museu: Possibilidades educativas 2016, criado pelo Núcleo de Ação Educativa da Pinacoteca do Estado de São Paulo e ministrado, há quatro anos, ao público que trabalha com as pessoas dessa faixa etária.

Por entender que, “pela arte, essas pessoas podem perceber de maneira criativa que seus conhecimentos são úteis à melhoria da sua vida e que continuam capazes de realizações”, Nori se inscreveu no curso para aprimorar a exploração do mundo das artes no atendimento aos pacientes.

“Tirar as pessoas mais velhas de casa e romper com o círculo de isolamento criado ao longo dos anos” motivaram a assistente social Francisca Dantas a frequentar a oficina, realizada sempre às quintas-feiras, das 13h30 às 17h30, que começou em 18 de agosto e termina no dia 20 de outubro.

Expertise – “Àqueles resistentes em participar, mostraremos que o museu é acessível e as artes fazem bem para o olfato, memória, visão, cognição, etc.”, diz Francisca, que atua no Núcleo Convivência para Idosos, na capital.

Sueli Mendonça sai de Niterói (Rio de Janeiro), onde trabalha no Museu Janete Costa de Arte Popular, para “fazer as dinâmicas das aulas e obter conhecimento e prática direcionados ao público mais velho”. Apesar de novo, o museu conquistou o público infantil com as oficinas e agora queremos ampliar o alcance, frisa ela.

“Estamos no pé do morro, mas a comunidade do entorno frequenta pouco o local, apesar de ser gratuito. Queremos cativar todos os públicos, especialmente os idosos, para os projetos que pretendemos desenvolver a partir do conhecimento obtido aqui.”

Coordenadora de programas educativos da Pinacoteca, Gabriela Aidar enfatiza que ser profissional atuante com idosos é requisito para participar da oficina. “O intuito é mostrar as possibilidades educativas que o museu oferece, tanto para a visita dessa faixa etária às instituições culturais quanto para contribuir com o trabalho desenvolvido por esses profissionais com os mais velhos. “O curso alia a experiência profissional deles com os idosos à nossa expertise no campo das artes.”

Programa60+ – Entre os resultados dessa parceria estão novas orientações em relação a essa faixa etária. O setor de segurança, por exemplo, foi alertado para o fato de o idoso se aproximar mais das telas apenas para enxergar melhor. O guia Banquete para os olhos, entregue ao visitante mais velho, foi feito com consulta aos participantes das oficinas. “É escrito com letras ampliadas, há contraste de cor (acuidade visual), a sequência é linear, o texto é objetivo e claro, há caça-palavras (muito apreciado)”, enumera Gabriela.

“Os participantes trazem novas parcerias e visitas educativas, e a Pinacoteca amplia a inclusão com o Programa 60+, que abre as portas (quando está fechado ao público) aos familiares de funcionários com mais de 60 anos”, acrescenta Aline Stivaletti, assistente de coordenadora de programas educativos.

Na aula do dia 6, no auditório da Pinacoteca, os alunos foram divididos em cinco grupos e receberam a tarefa de elaborar percurso educativo para visita ao museu dessa faixa etária. “Esse roteiro servirá de apoio para elaborar qualquer projeto de visita educativa”, frisa Gabriela.

Inclusão – O grupo de Francisca começou com debate de terminologias e conceitos. “Há quem não goste de ser chamado de idoso, nome criado para tirar o peso que a palavra ‘velho’ carrega”, salienta Francisca. Em sua obra A velhice, de 1970, a escritora e filósofa existencialista francesa Simone de Beauvoir (1908-1986) discutia esse tema”, ressaltou. “O mais importante é respeitar a pessoa como sujeito e a sua individualidade”, defende.

A turma de Leunice Mantovani Parajara, pedagoga da Casa do Olhar Sacilotto, em Santo André, decidiu caminhar pela Pinacoteca antes de definir o percurso do projeto. Ao passar pela obra Fonte das quatro nanás, da artista franco-americana Niki de Saint-Phalle (1930-2002), observou que seria o local ideal para acolher o público. “Além de ser um espaço lúdico, é possível observar as obras de ângulos diferentes e até do piso superior”, pontuou Leunice.

O grupo dedicou tempo maior à sala Almeida Júnior, por ser um dos seis espaços a ser incluídos no projeto deles. Entre as obras do pintor e desenhista brasileiro (1850-1899) expostas no local está a tela Caipira picando fumo, datada de 1893.

Provocação – A proposta do grupo de Nori é transformar o Jardim de Esculturas da Pinacoteca “em algo provocativo, muito além do social e contemplativo. Vamos nos mobilizar para tornar a arte mais estruturada e menos abstrata. Desenvolveremos ações que sejam envolventes, fascinantes, filosóficas e pragmáticas, como essa oficina da Pinacoteca”.

Para isso, a equipe recorrerá aos recursos da natureza: “Recolheremos folhas, flores, sementes para servir de alimentos à criatividade”, explica. “As folhas de outono, que marcam o fim de ciclo de vida, costumam ser associadas aos idosos”, lembra a psicóloga. No entanto, ela faz a ressalva: “A paciente mais velha, de 94 anos, que participa da minha oficina de arte, criou um mandala de cores vibrantes celebrando a primavera. É um espírito jovem”.

Nos dois últimos dos 20 encontros previstos, os grupos farão apresentação e discussão dos projetos elaborados. Direcionado a educadores, profissionais de saúde e assistência social, o curso da Pinacoteca, vinculada à Secretaria de Estado da Cultura, teve 62 inscritos neste ano. As inscrições para a próxima turma devem ser abertas no segundo semestre de 2017.

DOE, Executivo I, 11/10/2016, p. II