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Turismo sensorial: nova modalidade ganha força no Estado de SP
25/10/2016

 

Pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2015, revela que a deficiência visual atinge 3,6% dos brasileiros, sendo mais comum entre as pessoas com mais de 60 anos (11,5%). O grau intenso ou muito intenso da limitação impossibilita 16% desse público de realizar atividades habituais – ir à escola, trabalhar e brincar. Para incluir essa parcela da população, o Estado de São Paulo tem adotado soluções para adaptar gradativamente museus, parques e teatros para beneficiar turistas com necessidades especiais, com investimentos regulares na nova modalidade de turismo: a sensorial.

Além do Executivo paulista, o setor privado – como, por exemplo, a Federação das Empresas de Transporte de Passageiros por Fretamento (Fresp) – promove iniciativas de sucesso. A entidade tem realizado algumas edições de turismo sensorial.

“Pequenas adaptações são suficientes para incluir o deficiente visual nas atividades ligadas ao turismo”, observa Rosangela Barqueiro, da Associação Brasileira de Assistência à Pessoa com Deficiência Visual. “A capacitação de guias e atendentes para lidar com esse público pode resolver a maioria dos problemas no segmento”, afirma. “Outro desafio é oferecer audiodescrição durante as visitas e textos em braile”, complementa.

A seguir, algumas ações desenvolvidas por parques estaduais, museus e teatros para atender pessoas com deficiência.

Parque do Jaraguá – Localizado na zona noroeste da capital, oferece a Trilha do Silêncio, que recebeu esse nome por propiciar ao visitante a oportunidade de poder se isolar (após curta caminhada) do ruído do tráfego de veículos que circulam nas rodovias Anhanguera e Bandeirantes e, também, no Rodoanel Mario Covas, vizinhos da Unidade de Conservação. O local é adequado para quem quer apreciar os sons da natureza, como o do riacho existente na região ou, então, o do balançar da folhagem da vegetação da mata atlântica e o canto das aves ali existentes.

Com apenas 800 metros (ida e volta), a trilha autoguiada está adaptada para receber pessoas com mobilidade reduzida (cadeirantes e idosos, por exemplo) e também aquelas com deficiência visual. Totalmente plana, tem trechos de terra e outros com tablados de madeira, para facilitar o deslocamento, e, ainda, corrimãos e placas com informações em braile. Quando a visita é feita com o auxílio de monitores (para grupos com mobilidade reduzida, por exemplo), realiza-se o “exercício do silêncio” – atividade de sensibilização na qual os visitantes ficam de olhos vendados para perceber sons, cheiros e temperatura locais.

Memorial – Possibilitar o acesso para todos é a proposta do programa Livros para Ouvir, desenvolvido pela Biblioteca Latino-Americana Victor Civita, do Memorial da América Latina. Idosos, pessoas com deficiência visual e de baixa escolaridade formam o público-alvo da ação. Os livros do acervo são digitalizados em áudio.

O projeto começou a ser estruturado há cinco meses pelo funcionário Carlos Alexandre Campos, deficiente visual, e soma mais de 20 títulos selecionados entre as obras de grandes autores da literatura mundial – Machado de Assis, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles e Dalton Trevisan – que lideram o ranking dos livros mais procurados, seguidos por Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa e Jorge Luiz Borges.

É oferecida, inclusive, a facilidade de armazenar o áudio do livro em arquivo e levá-lo para casa. Basta que o interessado leve o equipamento adequado para a gravação. O serviço é gratuito.

Museu do Futebol – Trata-se do primeiro museu da Secretaria de Estado da Cultura planejado para ser acessível. Desde sua concepção, suas salas e seu conteúdo foram pensados para atender diferentes perfis de públicos: brasileiros e estrangeiros; de diversas classes sociais; pessoas com deficiências física, intelectual e mobilidade reduzida; crianças, jovens, adultos e idosos.

Para o Museu do Futebol, ser acessível é propiciar que um serviço seja usufruído pelo maior número de interessados possível, independentemente de suas condições físicas, sociais e intelectuais.

A instituição recebeu o certificado 5 estrelas da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida de São Paulo em fevereiro de 2009. Em 2012, ganhou o Prêmio Darcy Ribeiro, conferido pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), pelo projeto educativo Deficiente Residente. No ano seguinte, conquistou o Prêmio Ibero-Americano de Educação em Museus, também pelo projeto educativo Deficiente Residente.

Projetos – O Programa de Acessibilidade do Museu do Futebol (PAMF) reúne uma série de recursos que têm como proposta facilitar o acesso ao museu a um número maior de pessoas.

A instituição também tem disponível, gratuitamente, o serviço de audioguia, que permite a cegos ou pessoas com baixa visão fazer uma visita autônoma ao espaço expositivo. O recurso reúne informações sobre o trajeto, descrição das salas, exploração do conteúdo desenvolvido e metáforas poéticas que buscam aproximar o visitante das construções visuais.

Em 2010, a equipe do museu deu início ao programa Deficiente Residente. Seu principal objetivo é a atuação na área comportamental, pois visa alterar a forma de sua equipe prestar atendimento. A pessoa com deficiência faz uma “residência” por um período determinado (em geral, durante três meses). A cada ano são convidados dois interessados com diferentes deficiências para conviver por alguns meses com a equipe do museu.

Pinacoteca – Até janeiro de 2020, a Pinacoteca oferece o projeto Galeria Tátil – conjunto de 12 esculturas de bronze. A seleção das obras foi realizada com a indicação de pessoas com deficiência visual que participaram de visitas orientadas ao acervo nos últimos cinco anos. Entre os artistas selecionados para a mostra estão Rodolfo Bernardelli, Victor Brecheret, Bruno Giorgi e Amilcar de Castro.

O visitante pode explorar e reconhecer, por meio do toque, todas as obras da Galeria Tátil apresentadas segundo criterioso padrão de acessibilidade, complementado por outros recursos de apoio, como fôlder e catálogo em dupla leitura (tinta e braile), além de audioguia. O percurso da exposição é orientado por piso tátil, que indica um caminho para a exploração das obras. A ação é parte do Programa Educativo para Públicos Especiais (Pepe), que assegura a chance de fruição da arte para pessoas com necessidades especiais – sensoriais, físicas ou mentais.

Theatro São Pedro – Localizada na Barra Funda, a Casa de Ópera de São Paulo tem disponível, desde 2004, durante as óperas, recursos de acessibilidade para cegos e surdos por meio de celular ou tablet. O conteúdo acessível das apresentações, desenvolvido pela Mais Diferenças – Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), é composto por audiodescrição, janela de Língua Brasileira de Sinais (Libras) e legendas. Os recursos são transmitidos via aplicativo WhatsCine diretamente para smarthphones e tablets.

Picinguaba – O visitante com deficiência visual que quiser sentir o mar bem de pertinho deve se deslocar até o Núcleo Picinguaba do Parque Estadual Serra do Mar. O atrativo é a Trilha da Rendeira, com extensão de 300 metros (ida e volta). De curta duração, o caminho é rico em biodiversidade e indicado para pessoas com mobilidade reduzida.

Para os cegos, há a Trilha Sensorial com 50 metros de extensão. Situa-se na Praia da Fazenda (dentro do parque). Pessoas que enxergam, se quiserem, podem percorrê-la de olhos vendados. Com os pés descalços (deficientes ou não) é uma maneira de aguçar todos os sentidos do corpo em contato com a natureza.

DOE, Executivo I, 25/10/2016, p. II