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No acervo do 'Estado', a história da economia
22/05/2012

 

Trajetória pode ser lida no arquivo digital a ser lançado em evento amanhã no Ibirapuera

 

CLEY SCHOLZ - O Estado de S.Paulo


A abertura da íntegra do acervo do 'Estado' na internet, que ocorrerá amanhã à noite no auditório do Ibirapuera, amplia os horizontes para a pesquisa histórica no Brasil em vários campos, em especial na área econômica. Desde que começou a circular, em janeiro de 1875, ainda com o nome de 'A Província de São Paulo', o jornal sempre deu destaque ao noticiário e análises sobre atividade econômica.



A transição de uma economia essencialmente agrícola escravagista exportadora de matérias-primas até os tempos atuais, passando pelo início da industrialização, abertura comercial e privatizações, está contada nas páginas do acervo, assim como todas as grandes mudanças que levaram o País a ganhar destaque entre as seis principais economias do mundo.


Nas páginas impressas ao longo dos últimos 137 anos o leitor poderá localizar notícias sobre grandes crises internacionais, os efeitos de duas grandes guerras, a disparada da inflação e todos os detalhes das nove reformas monetárias até o real.


No dia seguinte à chamada "quinta-feira negra" de 1929, por exemplo, o Estado trazia na primeira página os detalhes de uma das maiores tragédias econômicas da história, quando o preço das ações desabou em Nova York. "A sede da Bolsa foi teatro de uma cena inédita de atropelos e congestão em todas as suas dependências. Foi necessária a intervenção da polícia para permitir o desafogo das ruas que conduzem à Bolsa, onde milhares de especuladores procuravam desfazer-se dos títulos que eram portadores", informava o jornal.


Como ficaria claro nas edições seguintes, a recuperação da Europa dos estragos da Primeira Guerra ampliava a oferta de produtos e não havia consumo para absorver a produção. Os preços desabaram, abrindo um período de 12 anos de recessão.


Transição. O correspondente do Estado em Paris, Gilles Lapouge, que começou no jornal em 1951, conta que, na época, o noticiário econômico era voltado apenas para a agricultura. Em 1955, Lapouge viajou por quatro meses pela África para fazer uma reportagem sobre o café africano, visto como ameaça pelos produtores brasileiros. Alberto Tamer, colunista que começou como repórter há 54 anos, também escrevia apenas sobre agricultura no início, mas ao longo dos anos acompanhou a industrialização, as crises do petróleo e o processo de consolidação da economia em outras áreas.


O colunista Celso Ming, no jornal desde 1974, explica que a economia brasileira, até a década de 60, era basicamente reflexo do diálogo entre as classes produtoras e o governo: "Os setores agrícolas e a indústria incipiente pediam facilidade para a importação de matérias-primas e proteção contra os produtos acabados importados".


Com o fortalecimento da classe média no final dos anos 60 e na época do milagre brasileiro, o jornal passou a dar destaque ao mercado de ações e outras alternativas de investimento. Nos anos 70 e 80, o noticiário sobre finanças pessoais ganharia cada vez mais destaque.


"O brasileiro é um dos povos que mais entendem de inflação, por causa daquele período", comenta Ming. No início dos anos 90, a inflação média chegou a 500% ao ano. Só no primeiro trimestre de 1990, a inflação foi de 432%. Foi o período mais turbulento do custo de vida. Consumidores atendiam ao pedido do presidente e se transformavam em "fiscais do Sarney" para vigiar os preços.


Para escapar do congelamento, pecuaristas interrompiam o abate de bovinos e o governo mandava a polícia confiscar bois no pasto. O jornal noticiava congelamento de preços e outros sintomas de desorganização geral da economia, como a quebra de vários bancos. Um dos serviços financeiros que o jornal prestava nos anos 80 era a tabela de preços das linhas telefônicas. Na época, havia filas de espera de vários anos para se conseguir um telefone e as linhas existentes eram comercializadas no mercado paralelo. "Era uma grande distorção da economia, e só foi superada após as privatizações", comenta Ming.


Fonte: Estadão.com.br