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23 DE MAIO DE 1932 – 80 ANOS DO MMDC
23/05/2012

 

 Antônio Sérgio Ribeiro*


 


Na manhã do domingo, 22 de maio de 1932, a notícia da inesperada chegada de Oswaldo Aranha, ministro da Fazenda, a São Paulo causou perplexidade.


Sua vinda à capital paulista tinha a notória finalidade de interferir, em nome do chefe do governo provisório Getúlio Vargas, na reforma do secretariado do governo do Estado, sob  intervenção desde a ascensão de Getúlio ao poder. Os secretários nomeados eram de inteira confiança do interventor, o embaixador Pedro de Toledo. Uma forte indignação contra o governo federal tomou conta não só das elites paulistas, como também da população, que não concordavam com mais uma intromissão do governo na vida política de São Paulo. Em 1931, o desembargador Laudo de Camargo, que exercia o cargo de interventor em São Paulo, renunciou à função quando foi informado de que o seu secretariado seria trocado pelo Executivo federal à sua revelia. O descontentamento com os rumos da política de Vargas e a situação de inferioridade em que São Paulo se encontrava em relação à política brasileira levaram à formação de uma frente integrada pelos membros do Partido Republicano Paulista


(PRP), derrotado pela Revolução de 30, e do Partido Democrático (PD), que havia apoiado Vargas no movimento que o levou ao poder em novembro de 1930. Apesar das posições antagônicas, as correntes acabaram se unindo e iniciando uma campanha pela imediata convocação de uma Assembleia Constituinte e pelo fim das intervenções nos Estados.


Uma comissão constituída por notórios integrantes dos dois partidos paulistas, que formavam a denominada Liga Paulista Pró-Constituinte, em protesto contra a visita de Oswaldo Aranha, convocou para a tarde da segunda feira, dia 23 de maio, um comício na praça do Patriarca. Milhares de panfletos, impressos na gráfica do jornal O Estado de S. Paulo, foram distribuídos pela cidade chamando a população para o evento:


“Paulistas: mais uma vez o ministro Oswaldo Aranha, como enviado especial do Ditador, vem a São Paulo com o intuito de arrebatar ao povo paulista o sagrado direito de escolher os seus governantes.


Mas o povo paulista, cuja paciência não é ilimitada, não mais suportará tamanha afronta e humilhação. Tendo consciência do seu valor e da sua força, ele repele a indébita e injuriosa intromissão na vida política daqueles que estão conduzindo São Paulo e o Brasil à ruína e desonra.


Para manifestar e impor a sua vontade, na reivindicação dos seus direitos e das suas liberdades, o povo reunir-se-á, hoje, às 15 horas, na praça do Patriarca, para decidir os seus destinos. Eia, povo de São Paulo! É chegada a hora da libertação e da vitória!”


“Reparação pelas armas”


A frase final da convocação, um verdadeiro clamor em defesa do brio do povo bandeirante. Dias antes, em 12 de maio, João Neves da Fontoura, antigo deputado federal e vice-presidente (vice-governador) do Rio Grande do Sul, em carta ao antigo governante do Estado gaúcho Borges de Medeiros, acertadamente afirmava:


“A São Paulo já não interessa apenas a realização do pleito. Ocupado militarmente, talado, humilhado, martirizado, ele deseja – mais do que uma eleição – uma verdadeira reparação pelas armas”.


O movimento organizado para o centro da capital ganhou o apoio da classe média e dos estudantes, a manifestação liderada por Ibrahim Nobre, Cesário Coimbra e Sílvio de Campos contou com a presença de milhares de pessoas, que portavam bandeiras paulistas e brasileiras, e entoaram hinos patrióticos. Discursos inflamados foram pronunciados contra Vargas e o seu governo considerado ditatorial. Nobre foi o primeiro a discursar, depois falam José Lefevre, Gomes Martins, Dario Ribeiro Filho, Pereira Lima, entre outros. O último orador foi Sebastião Saraiva, que sugeriu que todos fossem para frente da sede do Quartel-General


da 2ª Região Militar para prestar uma homenagem ao Exército brasileiro. A multidão ordeiramente foi até a rua Conselheiro Crispiniano, onde se situava o QG; lá falou Nobre e em resposta, em nome dos oficiais da 2ª RM, falou o capitão Gastão Goulart, que hipotecou solidariedade à causa paulista.


Ficou então decidido que todos seguissem para o Quartel da Força Pública, situado no bairro da Luz. Lá uma comissão formada por Sílvio de Campos, Pereira Lira, Ibrahim Nobre, Aureliano Leite, Luciano Gualberto e alguns mais foi recebida pelo coronel Elisário Paiva, em nome do comandante geral da corporação, coronel Castro Campos, que se encontrava ausente. Enquanto parlamentavam, para a surpresa dos integrantes da Liga, o Regimento de Cavalaria investiu contra a multidão que se encontrava na rua. Ouviram-se tiros, gritos e correrias. O estudante Lima Neto é o primeiro ferido do dia. A comissão se julgou vitima


de traição e os ânimos só foram serenados quando os seus membros apareceram na rua.


A revolta tomou vulto com a violência praticada contra os manifestantes, sendo decidida a invasão das redações dos jornais Correio da Tarde e A Razão, este de propriedade de Alfredo Egídio de Sousa Aranha, primo do ministro, depredando suas instalações. O próximo alvo era a sede do Clube Três de Outubro, não realizando o seu intento pela intervenção pessoal do


general Isidoro Dias Lopes, que convenceu os populares exaltados da iniquidade do ato. Mas, não satisfeitos, os populares resolveram atacar a sede do Partido Popular Paulista (PPP), que apoiava o governo de Getúlio Vargas.


A antiga Legião Revolucionária de São Paulo havia sido criada por Miguel Costa logo depois da Revolução de 1930. Costa, militar de carreira, havia sido até há pouco tempo comandante da Força Pública paulista (hoje Polícia Militar), e por divergências políticas havia sido exonerado do cargo. A sede do PPP estava situada na rua Barão de Itapetininga, número 70, esquina da


praça da República. Ao chegar ao local os atacantes foram recebidos à bala pelos que defendiam o prédio e suas vidas, caindo mortalmente feridos Euclydes Bueno Miragaia e Antônio Américo de Camargo Andrade.


Reação do povo


Os populares reagiram contra os que defendiam a sede do PPP, inúmeros tiros foram disparados. Toldos das lojas foram abaixados para proteger os revoltosos, dificultando


a visão daqueles que estavam no alto do prédio. Uma lata de gasolina foi trazida e jogada contra a entrada do edifício, formando grandes labaredas que invadiram o hall de entrada. O Corpo de Bombeiros foi chamado para combater as chamas, mas a guarnição que tentou


se aproximar foi impedida de agir, sendo recebida a tiros pelos exaltados e obrigada a retornar ao seu quartel.


Alguns populares resolveram atravessar um bonde na esquina da rua Barão de Itapetininga, para que servisse como uma trincheira. Quando o pesado veículo estava avançando


contra o prédio uma rajada foi ouvida, caindo morto Mário Martins de Almeida. A praça da República estava às escuras desde o início da madrugada, e somente as 4h15 é que os


ânimos se acalmaram com a chegada de tropas do Exército e da polícia estadual. Os oito defensores da sede do PPP foram então removidos para o quartel de Santana; com eles


foram recolhidos cinco fuzis, um deles imprestável. Segundo informações da época, as armas teriam sido entregues aos legionários pelo próprio general Miguel Costa.


No conflito na praça da República em 23 de maio foram vitimados à bala 11 manifestantes, sendo que três caíram mortos no local: Euclydes Bueno Miragaia, Antônio Américo de Camargo Andrade e Mário Martins de Almeida.


 


O jovem Drausio Marcondes de Souza, de apenas 14 anos, morreu cinco dias depois, em 28 de maio. Outra vítima, Orlando Oliveira Alvarenga, gravemente ferido, morreu 82 dias depois, no dia 12 de agosto, quando o movimento já havia sido batizado com a sigla que trazia as iniciais dos quatro primeiros tombados: MMDC, uma sociedade secreta, organizada no dia 24 de maio.


Através do Decreto Estadual 5.627-A, de 10 de agosto de 1932, assinado pelo governador Pedro de Toledo, foi oficializado pelo Executivo paulista o MMDC como entidade, sendo presidida pelo secretário da Justiça do Estado, o jurista Waldemar Ferreira. O MMDC muito


colaborou com a Revolução Constitucionalista.


Vargas, preocupado com a grave crise em São Paulo, nomeou como comandante da 2ª Região Militar o coronel Manoel Rabelo, e determinou o envio de tropas do Exército para a capital paulista.


Epopéia paulista


A partir de 23 de maio a situação política em São Paulo foi se agravando, culminando no glorioso 9 de julho de 1932, uma verdadeira epopeia do povo paulista, que se insurgiu em armas contra os desmandos praticados pelo governo federal. Depois de quase três meses de luta, sem os reforços e adesões que haviam sido prometidos por outros Estados da federação, e sem condições materiais para continuar, completamente só e sitiado, São Paulo para continuar, completamente só e sitiado, São Paulo se rendeu em 2 de outubro de 1932.


A tão almejada Constituinte seria eleita em 3 de maio de 1933, e a nova Carta Magna, promulgada em 16 de julho de 1934. A luta dos paulistas não foi em vão. Hoje, passados 80 anos da inesquecível data de 23 de maio, o povo brasileiro vive em plena democracia, graças, em grande parte, aos heróis de 1932.


 


 


OS HERÓIS: MMDC


• Mário Martins de Almeida – Nasceu em São Manuel (SP), em 8 de fevereiro de


1901. Era filho do coronel Juliano Martins de Almeida e de Francisca Alves de Almeida.


Foi estudante do Mackenzie College, na capital, tendo terminado seu curso sob a direção


do professor Alberto Kullmann. Martins era fazendeiro na cidade de Sertãozinho, estando


naquele 23 de maio de 1932 de passagem na capital, em visita aos pais. Seu corpo foi


sepultado no Cemitério da Consolação.


• Euclydes Bueno Miragaia – Miragaia nasceu em São José dos Campos (SP), em 21 de


abril de 1911. Solteiro, era fi lho de José Miragaia e Emília Bueno Miragaia. Aluno da Escola de


Comércio Carlos de Carvalho, foi transferido, no terceiro ano, para a Escola de Comércio Álvares Penteado. Quando faleceu, em 23 de maio de 1932, era auxiliar de cartório em São Paulo.


• Dráuzio Marcondes de Souza – Nasceu na cidade de São Paulo, em 22 de setembro


de 1917. Era fi lho do farmacêutico Manuel Octaviano Marcondes de Souza e de Otilia


Moreira da Costa Marcondes. No tiroteio de 23 de maio de 1932, foi gravemente ferido,


vindo a falecer, com apenas 14 anos de idade, em 28 de maio, tendo sido seu corpo


sepultado no jazigo da família no Cemitério da Consolação. Era ajudante de farmácia


na capital de São Paulo.


• Antônio Américo de Camargo Andrade – Nasceu na capital paulista em 3 de


dezembro de 1901. Era filho de Nabor de Camargo Andrade e de Hermelinda Nogueira


de Camargo. Foi casado com Inaiah Teixeira de Camargo, tendo deixado três filhos:


Clesio, Yara e Hermelinda. Camargo era comerciário na capital quando morreu vitimado


pelos tiros de 23 de maio de 1932.


• Orlando de oliveira Alvarenga –  Alvarenga nasceu na cidade mineira de


Muzambinho, em 18 de dezembro de 1899. Filho de Ozório Alvarenga e de Maria


Oliveira Alvarenga, deixou viúva Annita do Val, com quem tinha um fi lho de nome Oscar.


Gravemente ferido em 23 de maio de 1932, foi conduzido ao Hospital Santa Rita, onde


faleceu 82 dias depois, no dia 12 de agosto, tendo sido sepultado no Cemitério São


Paulo. Exercia, quando de sua morte, as funções de escrevente juramentado. Em sua


memória, o governo do Estado de São Paulo oficializou pelo Decreto 46.718, editado


em 25 de abril de 2002, o Colar Cruz do Alvarenga e dos Heróis Anônimos.


As primeiras vítimas de 1932, ao contrário do que muitos escrevem e dizem até os dias atuais, não eram todos estudantes. Os restos mortais dos grandes mártires da Revolução Constitucionalista de 1932 descansam hoje no Monumento Mausoléu no Obelisco do Parque do Ibirapuera. Os cinco heróis de 1932 foram homenageados com nomes de ruas no bairro do Butantã, na capital. (MLF)


*Antônio Sérgio Ribeiro, advogado e pesquisador, é diretor do Departamento de


Documentação e Informação da Assembleia Legislativa.


 


Fonte: DOE, 23/05/2012, p.13