Notícias

Cadernos de Receitas são tema de mostra no Museu da Imigração
30/12/2016

 


Nesses tempos de reality shows culinários, invasão de caminhões de comida (food truck) nas ruas e receitas rápidas no YouTube, o Museu da Imigração (MI), da Secretaria da Cultura do Estado, apostou em mostrar um espetáculo diferente – autêntica caça ao tesouro. Garimpou as receitas tradicionais de famílias migrantes, registradas em cadernos manuscritos ao longo dos anos, para compor sua nova exposição temporária Migrações à mesa – desenvolvida num processo colaborativo com o público.


Exposição Migrações à mesa, desenvolvida em colaboração com o público, segue até junho carregada de histórias afetivas de cada família participante, com receitas de imigrantes e migrantes


Com curadoria de Marília Bonas, diretora do MI, e das historiadoras Mariana Esteves Martins e Angélica Begheni, a ideia foi lançada e desenvolvida entre janeiro e março, por meio de uma campanha que estimulou o envio de informações e fotos de cadernos de imigrantes ou migrantes. Oriundos de diferentes períodos, os objetos foram estudados pela curadoria e equipe, que avaliaram anotações, manchas e detalhes que somam fragmentos úteis para reconstruir a história das famílias.


Fontes “Recebemos 24 cadernos e selecionamos 10”, conta Mariana. “Depois do anúncio no Facebook, a adesão surpreendeu. Gratificante mesmo foram as entrevistas preciosas, ouvir as histórias e ver de perto a vontade de trocar experiências.” Os participantes foram convidados a narrar a história de peças de cozinha usadas naquela época, expostas junto aos cadernos. Segundo Mariana, a intenção foi mapear, pesquisar e proporcionar a comunicação de acervos, receitas e práticas de grupos imigrantes e migrantes.


Passados de geração a geração, os cadernos de receitas funcionam como valiosa fonte histórica, rica em conteúdos, que dificilmente estariam disponíveis em documentos oficiais. Por meio deles, é possível acessar o passado, descobrindo seus hábitos alimentares, tradições, utensílios da época e muitas outras informações deixadas em anotações de rodapé.


Surpresas – Os itens recém-chegados estavam em perfeito estado de conservação, mesmo os mais antigos, datados de 1880 e da década de 1920, como os dois cadernos de Heloísa, levados ao museu pela bisneta Celina Monteiro. A legenda que acompanha a trajetória da família é de autoria de Celina, durante entrevista ao MI.


“Lembro-me muito bem dela, era uma figura austera, estava sempre de preto, sentada ao lado de um móvel, que tinha uma gavetinha, de onde ela tirava os rebuçados (balas) para dar aos bisnetos. Procurei nos cadernos de minha bisavó se tinha receita de rebuçado, mas não encontrei. Ficou só na memória.”


Mas a peça pequena de material metálico escurecido, que dava forma à guloseima preferida de Celina, pode ser apreciada ao lado de fotos e objetos da família. Um dos retratos mostra quatro gerações descendentes de Heloísa: Zélia (nora), sua filha Celina (neta), a filha, também Celina (bisneta), e Ana Maria (trineta).


Guardiã Os demais volumes estão em vitrines de acrílico ao lado de fotos e objetos da família – moedores manuais de carne de famílias síria e libanesa e as charmosas máquinas de madeira para macarrão caseiro. Como os papéis não podem ser manuseados, os curadores tiveram a ideia de afixar um tablet na parede contendo todas as páginas escaneadas para serem exploradas pelo público.


Mariana Weber cedeu para a exposição três cadernos de família: um dos anos 1970, da mãe Amanda, e dois da avó materna, de origem espanhola, dos anos 1940. Mariana, jornalista, diz que as receitas de sua família passaram de mão em mão, permaneceram por certo tempo em poder das tias, até ela ser a guardiã.


Ela conta que a avó Viquinha começou a anotar receitas quando estava noiva e o noivo precisou ficar um tempo fora do Brasil. Era uma espécie de preparação para a vida a dois, como no caso da minha avó, diz. “São cadernos bem trabalhados, com letra bonita, escritos sem pressa. Há receitas de drinques para senhores (mais fortes) e senhoras (mais adocicados).”


Redes sociais Chamam a atenção as medidas, por exemplo, 1 xícara (das de chá) meio cheia, leite o quanto baste, além de ingredientes como a araruta, difícil de encontrar.” Mariana testa há algum tempo esses pratos e tenta adaptá-los, utilizando menos açúcar, ovos e óleo. “A comida conecta as pessoas, além de ser uma forma de contar histórias. Muita coisa acontece ao redor da mesa”, diz a jovem. “Transmitido entre vizinhas, o registro de receitas em cadernos eram as redes sociais da época.” Patrícia Lopes, outra herdeira de descendência espanhola, em prestou o caderno da mãe (Edna), cujas receitas foram anotadas entre a década de 1970 e o ano de 1992. É um mix de receitas trocadas entre avós e tias, vindas de Brasília, Goiânia, Cuiabá e Vitória. Edna tinha o hábito de levar o caderno nas viagens que fazia.


Herança “Para mim, é quase um diário de infância, pois quando mamãe enviuvou e precisou sair para trabalhar, delegou a mim e minhas irmãs a tarefa de cuidar da casa. Passei a infância na cozinha, somente mais tarde, depois de ter cursado Direito, me formei em gastronomia e me especializei no exterior. Hoje, faço o que minha mãe fazia: resgatar receitas.”


A jovem Viviane Sobral, nascida em Aracaju, mora no Belenzinho, fez doutorado em Ciência, Tecnologia e Sociedade na Universidade Federal de São Carlos, e levou os amigos cariocas para uma visita ao Museu da Imigração. Morena Freitas e Lucas Bártolo estudam Antropologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no curso de doutorado e mestrado.


“Faz sentido pensar antropologicamente a comida. Para o trabalho que desenvolvemos no Museu Nacional da UFRJ, são informações muito ricas.” Viviane não perdeu tempo: enviou mensagem para a avó Maria, doceira de mão cheia, em Aracaju, pedindo o caderno de receitas.


DOE, Executivo I, 30/12/2016, P.I