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Memória social e afetiva dos ambientes dos palácios do governo
03/01/2017

 

A exposição Tesouros Paulistas – Coleções de arte dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo, em exibição na Galeria de Arte do Sesi-SP, reúne 322 peças entre pinturas, esculturas, mobiliário, tapeçaria, pinturas e louçaria pertencentes ao acervo artístico dos palácios do Governo do Estado de São Paulo.

As obras, originalmente expostas para visitação nos palácios Boa Vista (residência oficial de inverno do governador, em Campos do Jordão) e dos Bandeirantes (sede do governo estadual), traçam 106 anos da história da arte no Brasil. Ao mesmo tempo, oferecem ao público a oportunidade de conhecer objetos de arte raros pertencentes ao patrimônio público de São Paulo.

Esta é a primeira vez que um conjunto de obras em quantidade tão expressiva deixa os palácios. Até o momento, apenas algumas peças foram emprestadas individualmente a exposições e museus.

Ineditismo – Para a curadora do acervo artístico e cultural dos palácios, Ana Cristina Carvalho, esse é justamente um dos pontos altos da mostra: o ineditismo de apresentar ao público obras de arte fora do contexto do cotidiano doméstico e administrativo dos palácios.

Isso, porque, segundo ela, há uma importante diferença entre visitar uma exposição num museu ou galeria – onde a peça é interpretada somente como obra de arte – e observar esse mesmo objeto no seu ambiente, com todo o seu significado articulado à memória dos personagens e dos espaços onde esses viveram.

“É como se nós olhássemos pelo buraco da fechadura dos palácios. Por trás desses objetos há uma história de relações sociais, significados, usos, costumes e gostos da sociedade nos diversos momentos em que foram adquiridos pelo Governo do Estado. É uma história de escolhas”, analisa a curadora.

Referência europeia – Com 3,5 mil peças, o acervo artístico-cultural dos palácios começou a ser formado em 1911, aproximadamente à época da compra, pelo Governo do Estado, do Palácio dos Campos Elísios, construído pelo cafeicultor Elias Antônio Pacheco Chaves (1842-1903). No processo de formação das coleções que integram esse acervo, destacam-se dois momentos, segundo Ana Cristina. O primeiro, anterior a 1960, retrata a sociedade paulistana enriquecida pelo dinheiro proveniente da cultura do café, período em que as elites imitavam o gosto europeu, especialmente o francês. Móveis e objetos de decoração vinham diretamente do Velho Continente. Algumas peças dos serviços de louçaria eram também importadas do Oriente, por meio da Companhia das Índias.

Nesse sentido, a seleção de peças expostas na Galeria do Sesi contempla, entre outros objetos, a coleção histórica de porcelanas dos palácios, com monogramas das famílias de elite paulista, e o par de ânforas de Sèvres (França) – presente do marquês Pierre-Charles de Villette, o marquês de Villette, à rainha Maria Antonieta.

Uma mesa cenográfica com recursos multimídia revela, por meio de projeções de vídeo, a memória social e afetiva dos ambientes palacianos. Eventos como jantares, reuniões, visitas ilustres, além de fatos do cotidiano e notícias da época estão postos à mesa.

Identidade brasileira – O segundo momento importante da formação do acervo dos palácios e que está representado na exposição teve início entre as décadas de 1960 e 1970. O sentido de modernidade já se traduzia na arte nacional, que agora se voltava à reflexão sobre nossas raízes culturais. Saem as referências europeias e entra a identidade nacionalista. A decoração das residências contemplava o mobiliário colonial, acompanhado das coleções de arte moderna.

Posto isso, o visitante de Tesouros paulistas encontra diversas peças de arte sacra brasileiras, embora ainda haja algumas de origem portuguesa. Os oratórios e os santos de devoção invocam a religiosidade da época. É possível contemplar obras importantes, como a escultura São José de Botas, de Aleijadinho, e as duas esculturas barrocas – Nossa Senhora da Imaculada Conceição e São José com Menino Jesus – ambas do artista português Joaquim Machado de Castro.

Outro destaque é a série de santanas sentadas em cadeiras que representam, além da hierarquia de poder da época, os diversos estilos artísticos contemporâneos, como, por exemplo, o barroco e o rococó.

Na sala central do espaço expositivo, o visitante depara com a icônica tela Operários (1933), de Tarsila do Amaral. Inspirada em um cartaz de propaganda russa, a obra desperta até hoje reflexões a respeito de questões como o mundo do trabalho, o processo de industrialização e a diversidade étnica brasileira.

É de Tarsila também Religião brasileira (1927), que, assim como outros objetos da exposição, possui um exemplar tátil para apreensão pelo público com deficiência visual. Ao término da temporada na Galeria do Sesi-SP, algumas das obras de Tarsila do Amaral seguirão para Nova York, para serem expostas no prestigiado Museu de Arte Moderna (MoMA), em 2018.

Modernismo – Um dos ambientes da mostra, aparentemente o de maior representatividade, exibe um recorte da coleção de arte moderna dos palácios. O espaço reúne obras importantes do ponto de vista da história da arte e do colecionismo no Brasil, dispostas em ordem cronológica, partindo da década de 1910 até os anos 1970.

A visita ao espaço começa com Anita Malfati e a tela Ventania, pintada no ateliê da artista em Nova York. A obra foi exposta no Brasil pela primeira vez em 1917. Mas foi somente em 1922, precisamente durante a Semana de Arte Moderna, que o quadro – uma representação de paisagem dos Estados Unidos – inaugurou no Brasil as tendências expressionistas ligadas às experiências de Anita na Europa e no continente norte-americano.

O passeio pelo modernismo segue com outros nomes preeminentes da arte moderna brasileira, como Ismael Neri, Candido Portinari, Vicente do Rego Monteiro, Cícero Dias, Paulo Rossi Osir, Maria Leontina, entre outros. Há ainda diversas esculturas, com destaque para Daisy (1920), de Victor Brecheret, e Cabeça de donzela, de Galileo Emendabili.

Amazônia – Um dos destaques da sala modernista é a série de cem pinturas do artista pernambucano José Claudio da Silva. As telas foram concebidas a bordo de um barco durante expedição de 60 dias pela Amazônia, realizada a convite do herpetólogo e compositor Paulo Vanzolini. As pinturas documentam a viagem, com diversos registros da paisagem amazônica feitos do Rio Madeira, na década de 1970. O público com deficiência visual tem o privilégio de conferir essas obras por meio de audiodescrições realizadas pelo próprio artista, José Claudio da Silva.

Uma vitrine com xilogravuras japonesas do século 18 explica, ainda que em parte, a “reação em cadeia” que determinava o gosto artístico brasileiro da época. Originalmente chamadas ukiyo-e (retratos do mundo flutuante, em japonês), essas obras influenciaram os artistas modernistas europeus no século 19. A exuberância de cores, a ausência de sombras, entre outros elementos pictóricos, até então desconhecidos, encantaram artistas como Claude Monet, Edgar Degas e Paul Gauguin, cujos trabalhos serviam de referência para nossos artistas naquele tempo.

DOE, Executivo I, 03/01/2016, p. II