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Serviço público pode encaminhar casais inférteis para tratamento no HC
03/02/2017

 

O sonho de conceber um filho, muitas vezes impedido por algum problema de saúde, pode vir a se tornar realidade com o apoio do Centro de Reprodução Humana Mario Covas, do Departamento de Ginecologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, na capital paulista.

Cerca de 30 profissionais, entre ginecologistas, obstetras, urologistas, anestesistas, enfermeiros e auxiliares de enfermagem, psicólogos, assistentes sociais, geneticistas e pessoal da área administrativa, atuam no serviço, reinaugurado em 2009.

O centro realiza, mensalmente, entre 10 e 15 ciclos de tratamento de reprodução assistida de baixa complexidade e 20 de alta complexidade. “De cada cem ciclos de tratamento de fertilização in vitro (FIV), considerado de alta complexidade, 40 mulheres conseguem engravidar. Entre elas, 30% concebem gêmeos e 70% são gestações únicas. Nossos números são comparáveis aos da literatura médica”, comenta o ginecologista e obstetra Pedro Augusto Monteleone, coordenador técnico do serviço.

A médica Carla Martins, membro da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), informa que de 10% a 15% dos casais brasileiros são inférteis, taxa semelhante à mundial, de acordo com dados da Rede Latino Americana de Reprodução Assistida. Ela enumera ovulação irrregular, obstrução tubária, alterações nos espermatozoides, problemas no útero ou no colo do útero e endometriose como principais causas da infertilidade.

Encaminhamento – Não há fila de espera para atendimento. No entanto, os pacientes são atendidos somente por encaminhamento da rede pública de saúde, conforme o número de vagas disponíveis. Um dos critérios de inclusão no serviço é que a mulher tenha até 38 anos de idade, pois o tratamento pode durar até dois anos ou mais. Primeiramente, o casal passa por triagem para avaliar as causas da infertilidade e identificar a melhor opção terapêutica. A unidade não admite pacientes com hepatite C e HIV/Aids, pois exigem fertilização em laboratórios específicos, de acordo com a norma da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A relação sexual programada e a inseminação intrauterina são técnicas de concepção de baixa complexidade. Na primeira, os especialistas tratam os problemas ovulatórios com a prescrição de hormônios e controle da ovulação por ultrassom. Depois disso, será indicado o melhor momento para a relação sexual.

Quando o sêmen apresenta diminuição de qualidade e quantidade, o que pode comprometer a fecundação, os especialistas recomendam a inseminação intrauterina. “Nesse caso, recolhemos o líquido seminal, para ser processado no laboratório. Depois, haverá seu enriquecimento com soluções apropriadas para melhorar sua qualidade e desempenho”, explica. Nos dias próximos à ovulação, esses espermatozoides são inseridos no útero da mulher.

Taxas – A FIV é considerada procedimento de alta complexidade, sendo mais indicada nas situações em que o sêmen apresenta qualidade muito baixa, há alterações nas trompas de falópio ou tubas uterinas (tubos que saem do útero e terminam próximo aos ovários), idade avançada da mulher (acima de 38 anos) e mais de três anos sem sucesso na tentativa de gravidez.

Inicialmente, a mulher recebe hormônios para induzir a ovulação. Em seguida, num procedimento cirúrgico com anestesia, os médicos captam óvulos dos ovários estimulados. Após a masturbação masculina, coleta-se o líquido seminal. No laboratório, os embriologistas fertilizam o óvulo e o espermatozoide, dando origem a embriões que serão transferidos ao útero.

O ginecologista informa que entre as mulheres submetidas ao ciclo FIV, 40% conseguem engravidar. Pelos métodos de baixa complexidade, a taxa de sucesso chega a 15%. As demais, não conseguem conceber um filho.

No centro, são implantados até dois embriões no útero, independentemente da idade, o que diminui as taxas de gestação múltipla. Entre as desvantagens da gestação com mais de um embrião, ele destaca: maior risco de prematuridade do recém-nascido e mais possibilidade de a mulher ter diabetes e pressão alta durante a gravidez. “Enquanto na gestação única, o risco de prematuridade extrema (bebê com menos de um quilo) chega a 1% dos casos, na gravidez de gêmeos, a taxa sobe para 10%, ou seja, o risco é dez vezes maior”, compara.

Um dos motivos para a gravidez múltipla ser considerada de alto risco é que “a anatomia do útero pode não sustentar dois ou mais fetos”. Na opinião do especialista do HC, o estresse e a ansiedade não atrapalham a reprodução assistida, mas podem prejudicar a qualidade de vida do casal.

Atendimento – Desde 2008, a funcionária pública Misselen da Penha Silva, 37 anos, e o autônomo Ivan Marques da Silva, 44, tentam gerar um filho. Em 2011, um médico identificou uma obstrução nas trompas e encaminhou o casal ao Centro de Reprodução do HC. “Logo no início do tratamento, fiz cirurgia para remover as trompas”, conta Misselen.

Depois da primeira tentativa frustrada pela FIV, o casal se prepara para a segunda e elogia o atendimento. “O suporte psicológico que nos deram aqui é excelente. Fomos muito bem atendidos. Agora recomeçaremos do zero, na segunda tentativa. Mesmo passando por tudo isso, os exames demonstraram que meu útero está saudável”, comemora Misselen, emocionada. Silva diz que ele e a mulher estão muito satisfeitos com o trabalho da equipe de saúde, que “não nos deixou desistir”. Agora, os dois têm certeza de que a segunda tentativa dará certo.

DOE, Executivo I, 03/02/2017, p. I