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Resenha de 'À Margem da Filosofia'
28/05/2012

 

Regina Schöpke



A história é, para além de qualquer definição, uma escrita. Mais precisamente, a escrita dos vitoriosos. Os vencidos não escrevem a história. Ao contrário: eles são excluídos, esquecidos, quando não são desacreditados, difamados. Não é sem razão que Nietzsche dizia que a história da filosofia era a história da metafísica tradicional, a história da vitória do pensamento do ser sobre o pensamento do devir ou, mais exatamente, da metafísica socrático-platônica sobre filósofos como Heráclito, Demócrito e Lucrécio. Também seguindo esta mesma linha, Deleuze e Guattari afirmavam que a história da filosofia representava a vitória dos sedentários sobre os nômades, entendendo-se por nômades os filósofos marginais, ou seja, os que viveram (e ainda vivem) à margem de uma história que só privilegia os que não colocam em risco este “mundo vitorioso”.


Talvez se possa dizer que, desde Nietzsche, tudo começou a mudar, mas nem por isso os vencidos se tornaram vitoriosos. Na verdade, instaurou-se apenas uma crise de enormes proporções na própria razão, embora isto não queira dizer que os filósofos “marginais” (e aqui incluímos o próprio Nietzsche) tenham sido suficientemente ouvidos. Em outras palavras, apesar das aparências, a guerra contra o pensamento continua viva e forte, e é por isto que incluímos entre as obras de grande valor para a compreensão deste tema a Contra-história da Filosofia, de Michel Onfray. 


Afinal, Onfray tem sido um autêntico defensor de um pensamento que deseja verdadeiramente libertar o homem dos preconceitos enraizados por uma filosofia metafísica e moral - que só triunfa à custa de denegrir o corpo, as paixões, a sensibilidade e, por fim, a própria razão (cujo descrédito absoluto nos deixa à mercê da fabulação desenfreada do universo mágico-religioso).


Onfray bem sabe, e tem mostrado isso em sua Contra-história, que a produção de uma filosofia de cunho mais materialista, calcada no corpo, no “aqui e agora”, hedonista em sua essência mais profunda (mas não porque viva em busca de prazeres, mas porque sabe o valor da alegria para o fortalecimento da vida e do próprio pensamento), tem sido esmagada desde o início da filosofia e é, por isto, que ele luta para restituir aos vencidos a voz que lhes foi roubada. Uma voz que nada tem de irracional e que, “se cheira a enxofre”, como ele próprio ironiza, é porque se opõe às ficções criadas por uma filosofia que “não entristece ninguém”, uma filosofia que continua pagando seu tributo aos poderes estabelecidos.


No fundo, Onfray tem sido parte desta voz; e sua grandeza consiste exatamente em reconhecer que, na filosofia, “estamos sentados nos ombros de gigantes” - que foram todos aqueles que, a despeito dos perigos do mundo, não deixaram de lutar pela verdade e pela liberdade. Neste quarto volume da Contra-história, lançado agora no Brasil, Onfray trata do período que se convencionou chamar de Iluminista, dando-lhe o sugestivo subtítulo de “Os ultras das Luzes”, referindo-se aos seus representantes mais radicais (ou seja, os verdadeiros iluministas da época, os verdadeiramente livres).


Seguindo a linha dos filósofos nômades, Onfray deseja desfazer as ilusões, mostrando que as luzes da razão nem sempre predominaram nas mentes do século XVIII. É assim que ele vai mostrando, com clareza e simplicidade, embora com rigor conceitual, que, além das ideias estapafúrdias que nunca saem muito “de moda”, os chamados “iluministas” - como Voltaire, Rousseau ou Diderot - ainda são reféns (por comodidade ou por crença) de um mundo que eles dizem querer demolir. Mesmo partidários da liberdade e inimigos dos preconceitos, eles estão bem longe dos “ultras”, como Jean Meslier, La Mettrie ou o brilhante Barão de Holbach que, defendendo a etocracia, provava a Voltaire que o materialismo e o ateísmo não negam a virtude (ao contrário, a exigem em bases mais sólidas). Em suma, nestes nossos tempos de descrença na verdade e na razão, Onfray nos convida a pensar junto com aqueles que nunca duvidavam do valor do pensamento como potência crítica e transformadora.


* Regina Schöpke é filósofa e autora dos livros Matéria em movimento e Dicionário Filosófico 



À MARGEM DA FILOSOFIA


Contra-história da filosofia IV


Michel Onfray


Tradução: Claudia Berliner


Martins Fontes, 338 páginas