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Enciclopédia do Humor
05/11/2011

 

Provocando o riso, Luis Fernando Verissimo toca em seu novo livro nos pontos críticos da sociedade contemporânea

 

Nenhum de nós chegará muito longe neste milênio, escreve Luis Fernando Verissimo no novo livro, Em Algum Lugar do Paraíso, mas, se ele chegar à Copa do Mundo de 2014, diz, o que vier depois é "gratificação". O tempo tem corrido rápido demais para as pernas de Verissimo, que, aos 75 anos, ainda é forçado a acompanhar o ritmo desenfreado da netinha Lucinda, de 3 anos e meio, nascida no dia do aniversário do Sport Club Internacional, 4 de abril. Uma vez colorado, sempre colorado. Verissimo, vítima de coloradismo crônico, tem uma neta que é um verdadeiro rolo compressor, como se diz entre os colorados, os torcedores do Inter. Dona Lúcia Helena, com quem ele é casado desde 1963, desconfia que o marido até ensinou a neta a derrubar a bandeirinha do Flamengo (ela é carioca e torcedora do rubro-negro) todas as vezes que desce para o escritório do avô, na entrada do qual monta guarda, advertindo os plebeus: "Aqui só entra princesa". É preciso muita diplomacia ou vestir a roupa da Barbie para convencer a loira aristocrata a abrir caminho entre estantes com livros de Cavafy, Virginia Woolf e, naturalmente, Érico e Luis Fernando Verissimo, o antigo e o atual morador da casa, em Porto Alegre.


 


Num breve intervalo em que Lucinda deixa de ser o centro das atenções, o avô concede uma entrevista ao Estado, do qual é cronista desde 1989. A maioria das 41 crônicas de Em Algum Lugar do Paraíso saiu, aliás, das páginas do jornal. Foram escritas nos últimos cinco anos e selecionadas entre 350 outras pela Objetiva, sua editora há 12 anos. Numa delas, Toda Vida, ele lembra que houve um tempo em que crianças de sua classe social eram mesmo tratadas como príncipes e princesas. "Está certo, elas também apanhavam muito, mas havia as compensações", observa. Uma das compensações era a avó, que morava junto ou perto dos filhos e enchia os netos de mimos. Lucinda, filha de Fernanda, a mais velha, não pertence à geração das palmadas. Colo e doces não faltam na confortável residência em que Verissimo escreveu essas crônicas.


 


É uma daquelas acolhedoras casas de filme inglês, cheia de pinturas de mestres (Iberê Camargo, Di Cavalcanti) e um porão de pedra em que o piano e o saxofone do escritor dividem espaço com os brinquedos de Lucinda. O sax não é só para enfeitar. Na segunda-feira, ele chega a São Paulo acompanhado do dono para o show de lançamento (no Sesc Consolação) do novo CD do quinteto Jazz 6, um disco repleto de standards e de bossa. Curiosamente, Verissimo fala pouco de música no livro. Ela entra de contrabando na crônica Língua, em que um casal à beira da separação divide a coleção de CDs - ela, esperta, fica com os dos Beatles, enquanto o coitado é obrigado a levar uma pilha de discos de Luís Miguel. Em Solidão, Verissimo também menciona en passant um computador maluco que boicota a missão de um astronauta (como o Hal de 2001, Uma Odisseia no Espaço), cantando Strangers in the Night em falsete só para chatear o infeliz e impedir que durma.


 


Paraíso perdido


Se no meio do caminho de Drummond havia uma pedra, há sempre uma mulher no dos personagens de Verissimo. Logo na crônica inaugural, que dá título ao livro, Eva chega para acabar com o "domingo eterno" na vida de Adão, introduzindo o tempo e a morte no paraíso. Verissimo, contudo, jura: não é misógino. Usa em sua defesa os 47 anos de casamento com dona Lúcia. Evoca, além disso, o mito de Pandora, aquela senhora com todas as qualidades (inteligência, paciência, meiguice) mas irresistivelmente curiosa, a ponto de abrir sua caixa e soltar todos os males pelo mundo afora. "É uma neurose masculina essa de demonizar a mulher", afirma, relembrando sua infância, quando nenhum bípede de saia ousava pisar num estádio de futebol, sob risco de levar boladas de papel na cabeça. "As mulheres ganharam pouco a pouco o poder, mas prevalece o desconforto de serem ao mesmo tempo objeto do desejo e mães." É uma explicação - freudiana -, mas duvido que o analista de Bagé usasse as mesmas palavras.


 


E o que as mulheres pensam dos homens? Se for a tia Amanda, de Surupinga, que um dia visita a sobrinha Celinha e seu marido Roberto na crônica Uma Mulher Fantástica, ela certamente responderá que os homens só servem para abrir pote, segurar porta e carregar mala. Claro que ela diz isso à sobrinha apenas para disfarçar a temperatura interna, não vendo a hora de ensinar respiração cósmica para o sobrinhão. E de onde Verissimo, um introvertido, tira esses tipos, logo ele, um homem de família, pacato, discretíssimo, que passa as noites ouvindo Charlie Parker, lendo Saul Bellow e, ao acordar, vai cuidar das camélias no jardim? Aposta certa são os filmes que vê. Verissimo, cinéfilo alucinado, desses capazes de repetir diálogos de Paddy Chayefsky, por vezes se inspira nos personagens humanos, demasiadamente humanos, das comédias italianas dos anos 1960, aquelas divididas por episódios. Acho estranho que nunca tenha escrito roteiros para o cinema. "Eu também, porque gosto muito de contar história por diálogos", admite.


 


Verissimo adora os filmes de Monicelli e cita alguns de seus atores preferidos: Totó, Marcello Mastroianni, Nino Manfredi. O último aparece num paleolítico filme dirigido por Dino Risi, Vedo Nudo (1969), encarnando um discreto empregado dos correios. Nele, Nino troca a gravata por pantufas cor-de-rosa quando chega em casa, usando o pseudônimo Ornella para se corresponder com um respeitável senhor de Turim. De passagem por Roma, o insuspeito senhor resolve conhecer Ornella e qual não é a sua surpresa quando descobre que... bem, tudo isso para falar de uma das crônicas mais engraçadas do livro, Suflê de Queijo 2, quase uma dessas impagáveis comédias italianas. Nela, Jorge, um alpinista social, convida seu novo chefe para jantar, pedindo à esposa Marta que use um vestido bem decotado, capaz de seduzir o homem. A mulher fica indignada. O chefe, mais ainda, ao descobrir que Jorge, o objeto de sua paixão, é casado. A vida é mesmo assim, assimétrica.


 


"A ideia do homem dominante e da mulher subserviente ficou para trás", reflete o humorista, concluindo: "O que restou foi uma simetria problemática, um conflito provocado pela igualdade entre os sexos". Antes, ao menos, havia uma amante para manter o equilíbrio da balança conjugal. Hoje, se o marido coloca outra na cama, a mulher logo aparece com um estepe. Dá para perceber que o casamento não é mais como nas peças de Nelson Rodrigues. Numa das crônicas do livro, A Represália, dona Cleide, por exemplo, chega da rua furiosa, atirando as compras do supermercado em cima da mesa da cozinha, tudo porque seu Hemínio, o vizinho, passou a mão boba na sua zona sul. Ela, claro, cobra do marido uma atitude. Melhor seria se tivesse ficado calada. Dona Lurdes, a mulher do seu Hemínio, acaba gostando da "represália branda" do marido de dona Cleide.


 


Caindo na rede


Se a relação de Verissimo com o casamento (dos outros) é engraçada, ainda é mais divertida a sua com os gadgets eletrônicos. Ele não usa celular, mantém cautelosa distância dos iPods, não cai nas redes sociais e ainda assim é obrigado a ouvir elogios por textos que nunca escreveu. Circula pela internet um apócrifo chamado Quase, que jura jamais ter escrito. "Mas recebi muitos cumprimentos por esse texto, incluído em antologias, que provocou reação gozada de um leitor." O homem, sem meias palavras, disparou: "Nunca gostei do que você escreve, mas adorei esse Quase". Verissimo ficou calado e assumiu, constrangido, a autoria. Poderia ter argumentado que a sintaxe de Quase é rudimentar, que jamais escreveria algo como "a paixão queima", ou "o amor enlouquece", mas silenciou para não contrariar o leitor.


 


Beckett revisitado


O que diria esse mesmo leitor diante da última crônica, Entra Godot, em que a peça de Beckett é reduzida a um diálogo de duas páginas entre dois vagabundos? Provavelmente teria desprezado as metáforas do gaúcho. Sorte que o Godot criado por Verissimo não é de frequentar o cyberspace. Prefere o ambiente teatral. Entra no palco sem ser convidado e pergunta a Vladimir: "Que diabo de peça é esta? Onde foi que eu me meti?" E segue reclamando e imprecando contra Beckett e o demônio, dizendo que não tem physique du rôle para ser Deus. "Se bem que, com a maquiagem e um pouco de enchimento..."


 


O leitor religioso não precisa se preocupar. Verissimo é íntimo do Criador. É por isso que toma essas liberdades. Na crônica Em Cafarnaum, outra parábola sobre o reino celeste, ele fala de um homem que transformava a água em vinho e recebe de um comerciante uma indecorosa proposta de parceria nos negócios, que acaba aceitando. Fugir de uma missão, como o Cristo de Kazantzakis no polêmico filme de Scorsese, não é uma heresia num mundo de fariseus como o nosso, embora Verissimo considere a versão para o cinema "um pouco simples, no mau sentido". Ele prefere o Cristo de Pasolini. "Não sou contra a religião, apesar de ter um pai agnóstico", garante. "Fui católico praticante até os 14 anos", revela. E, embora não pratique mais, é como andar de bicicleta: nunca se esquece.


 


Verissimo, contudo, considera a religião "importante como consolo". O seu é o humor. É certo que gostaria de ter escrito uma tragédia, dessas bem gregas, mas os bancos europeus já deram conta do recado na zona do euro. "Sou mais deprimido que engraçado", diz, considerando a hipótese de ter acabado como um trágico se tivesse ficado nos EUA, onde viveu. "Lá, os escritores judeus marcaram a literatura americana com a mesma força de um Hemingway ao colocar o pé na estrada e ver a vida em primeira mão ", analisa Verissimo, que recebe, na quarta-feira, o Prêmio Scopus da Universidade Hebraica de Jerusalém, oferecido aos amigos do povo judeu. Ele não virou trágico como Faulkner, mas aprendeu com os americanos que parodiar é também sinônimo de grandeza: estreia em novembro, na Globosat, uma série estrelada por Fernando Caruso no papel de Ed Mort, sátira aos detetives de Hollywood.


 


Fonte: Estadão.com.br

 

 

Neco Varella/AE

Luis Fernando Verissimo lança 'Em Algum Lugar do Paraíso'