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Morto há um mês, escritor Carlos Fuentes é tema de debate em SP
14/06/2012

 

Mexicano será lembrado em encontro apoiado pelo 'Estado' no Instituto Cervantes

 

MARIA FERNANDA RODRIGUES - O Estado de S.Paulo





O escritor Carlos Fuentes - Oscar Martinez/Reuters

Oscar Martinez/Reuters

O escritor Carlos Fuentes

Aos 83 anos, o mexicano Carlos Fuentes ainda era um ativo escritor que fazia planos para novos romances quando foi surpreendido, na madrugada de 15 de maio passado, por uma hemorragia que o colocaria em estado de choque. E o mundo seria surpreendido, horas depois, com a notícia da morte de um dos principais autores do século 20. Hoje, às vésperas do primeiro aniversário de sua morte, Fuentes será lembrado em debate no Instituto Cervantes, em São Paulo.

Para conversar sobre o escritor nascido na Cidade do Panamá - seus pais eram diplomáticos -, foram convidados Pedro Benítez Pérez, diretor do Instituto Cervantes de São Paulo; José Gerardo Traslosheros Hernández, cônsul-geral do México em São Paulo; Celso Lafer, economista e membro da Academia Brasileira de Letras; Danubio Torres Fierro, responsável pela operação da Fondo de Cultura Económica no país, e Ubiratan Brasil, editor do Caderno 2. O encontro tem apoio do Estado.

Vencedor dos mais importantes prêmios literários de língua espanhola, como o Cervantes, em 1987, e o Príncipe de Astúrias, em 1994, Carlos Fuentes não estava apenas no rol dos melhores escritores de seu tempo. Até o último momento, não deixou de acompanhar os passos da política internacional e a realidade social da América Latina e do mundo. Seu último artigo, publicado no dia em que morreu no periódico mexicano Reforma, saudava a volta de um socialista ao poder na França.

A identidade mexicana e também a latino-americana sempre estiveram presentes em sua obra. Foram quase seis décadas de uma vasta produção - em seu catálogo particular estão mais de 50 livros, entre romances, contos, peças de teatro e ensaios, especialmente sobre política e cultura.

George W. Bush foi um dos políticos que estiveram na mira de Fuentes, que chegou a compará-lo, durante entrevista ao Estado em 2004, a Hitler e Stalin. "Houve presidentes inteligentes e bons (Truman, Carter), bons e simplórios (Ford e Eisenhower), inteligentes e perversos (Johnson e Nixon), brilhantes e sacrificados (Kennedy), simplórios, mas obsessivos (Reagan). Agora, os EUA têm um presidente ao mesmo tempo simplório e perverso: George W. Bush."

E será essa sua múltipla faceta - literato, intelectual, crítico, e amigo - que estará em pauta no debate de hoje.

"Carlos Fuentes foi um dos escritores que mais fecundaram o que se chamou de boom latino-americano e um intelectual muito comprometido com sua época", diz o uruguaio Danubio Fierro, que o entrevistou em algumas ocasiões. Essas entrevistas foram publicadas em veículos como La Nación, de Buenos Aires, e Vuelta (1976-1998), revista mexicana criada e comandada por Octavio Paz e cuja sucursal argentina era dirigida por Fierro.

Ele conta que Fuentes foi um homem muito generoso e sempre teve uma "forte paixão pelo mundo e pelo conhecimento do mundo". Hoje à frente da Fondo de Cultura, maior editora da América Latina e mantida pelo governo do México, em São Paulo, ele lembra que foi ela quem primeiro lançou os livros de Fuentes. Alguns deles seguem no catálogo, como Cristóvão Nonato. Há também um volume que reúne as obras Fundaciones Mexicanas, La Muerte de Artemio Cruz e Los Años con Laura Díaz. No Brasil, ele é editado pela Rocco.

Fuentes se destacou entre os romancistas mexicanos, país com bastante tradição no gênero. "Dentro dessa grande tradição, ele irradiava uma luz própria", diz Fierro.

A última visita do escritor ao Brasil foi em novembro de 2011. Convidado para falar a funcionários de uma empresa, ele se encontrou com o jornalista Ubiratan Brasil no Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, durante sua breve estadia no País. Brasil acompanhou sua produção mais de perto nos últimos dez anos, quando o entrevistou pelo menos cinco vezes para o Caderno 2, e falará sobre essas entrevistas no encontro desta noite.

Autor de mais de 50 livros escritos ao longo de uma carreira de quase seis décadas, Carlos Fuentes deixou pelo menos duas obras completas inéditas. A primeira delas a chegar às livrarias espanholas será Persona. Com lançamento previsto para 20 de junho pela Alfaguara, o livro retrata as diferentes personalidades que conheceu e que influenciaram sua vida e obra.

Nesse livro, o mexicano traça perfis e recorda fatos e anedotas, conta as lições aprendidas e as peripécias vividas com essas pessoas tão importantes em sua formação. São elas: Lázaro Cárdenas, Jean Daniel, Fernando Benítez, Julio Cortázar, Luis Buñuel, Arthur Miller, Pablo Neruda, Alfonso Reyes, François Mitterrand, Susan Sontag, María Zambrano e Jesús de Polanco, entre outros. A situação do México e seu panorama cultural estão muito presentes nesse lançamento.

Outra obra a caminho, mas prevista para novembro, é Federico en Su Balcón. Sai na Espanha também pela Alfaguara e no Brasil pela Rocco. O romance mostra a segunda chance que Deus dá a Friedrich Nietzsche. Na obra, ele é integrado a uma família mexicana que vive em Berlim.

Quando esteve no Brasil em novembro de 2011, Fuentes contou ainda que trabalhava no romance histórico El Baile del Centenário, que seria ambientado na Revolução Mexicana. / COM EFE


Fonte: Estadão.com.br/Cultura