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Força-tarefa pretende zerar as filas de cirurgias de lábio e palato
5/10/2017

 

De um ano para cá, a vida do casal Alana e Ricardo Arantes Novaes, de 29 e 38 anos, respectivamente, alternou momentos de alegria, expectativa e angústia, com a chegada de Benício, primeiro filho de Alana, hoje com 3 meses de idade. A gravidez, tranquila a princípio, começou a preocupar durante os resultados de ultrassons. Neles, a imagem de Benício aparecia
sempre com a mãozinha na boca. No oitavo mês, o médico conseguiu detectar a fissura labial do bebê, mudando a rotina do casal de Cajamar, município paulista da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), situado a menos de 40
quilômetros da capital.

Ação iniciada na segunda-feira, 2, termina amanhã no Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais, o Centrinho da USP, localizado em Bauru

Na terça-feira, 3, Alana e Ricardo puderam comemorar o encerramento da longa jornada em busca de informações e pesquisas sobre o tratamento a ser oferecido ao bebê. Em Bauru, procuraram o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (HRAC-USP/Centrinho), referência nessa área. “Num prazo de 20 dias viemos três vezes aqui, a
última é hoje, já para a cirurgia”, diz Ricardo.

Força-tarefa – “Todo processo correu com muita eficiência e agilidade, além do tratamento solidário e humano da equipe médica”, completa a esposa, feliz, ansiosa e confiante, enquanto aguarda na recepção a vez do garoto, num ambiente colorido, semelhante a uma brinquedoteca. “Estamos tranquilos
quanto ao procedimento cirúrgico, que leva pouco mais de uma hora. O Benício tem fissura labial, mas não atingiu o palato e pode ou não afetar a dentição,
que deve ser corrigida facilmente”, ressalta o pai.

A cirurgia faz parte da força-tarefa que se iniciou no dia 2 e termina amanhã, 6, no Centrinho, com a finalidade de zerar a fila de pacientes do
Estado de São Paulo para cirurgias primárias de lábio e palato na instituição.

Com o reforço de um anestesiologista voluntário da ONG Smile Train na América do Sul, parceira do HRAC-USP, serão realizadas 75 cirurgias primárias
nesta semana. A ação integra a 1ª Semana de Fissura da América do Sul e a 3ª Campanha Nacional de Fissura Labiopalatina, promovida pela Smile
Train – maior organização sem fins lucrativos para a causa da fissura no mundo – em parceria com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) e Fundação Ideah (Instituto de Desenvolvimento, Ensino e Ação Humanitária).

O intuito principal da Semana de Fissura é promover a conscientização sobre o tema, reunindo renomados profissionais da área, num esforço conjunto,
para alcançar mais pacientes que necessitem de cuidados e reduzir o tempo de
espera pela cirurgia.

Superação – O HRAC-USP programou diversas atividades para a Semana, com destaque para palestras e conversas com o público que frequenta o hospital.
No evento, entre os presentes estavam a professora Maria Aparecida de Andrade Moreira Machado, superintendente do HRAC e diretora da Faculdade de
Odontologia de Bauru (FOB), e Mariane Goes, diretora da ONG Smile Train.

A escritora Raquel Alves, que nasceu com fissura labiopalatina, foi paciente do Centrinho durante 20 anos. Na terça-feira, 3, contou a pais e pacientes sobre como superou e lidou com a fissura em sua vida e como o seu pai – o educador e escritor Rubem Alves (1933-2014) – a ajudou.

Após sua explanação, os participantes receberam exemplares do livro Como nasceu a alegria, homenagem do pai, quando Raquel tinha seis anos de idade. Na publicação repleta de personagens – passarinhos, flores, sol e anjos –, o escritor fala sobre a filha como uma flor que nasceu com uma pétala partida.

“Importante mostrar que não adianta excelência técnica, tratamentos de ponta, se a pessoa estiver em frangalhos. Fui ajudada por um pai maravilhoso e sei que existem milhões de pais anônimos iguais ao meu, fazendo o mesmo por
seus filhos. O Rubem Alves tinha a caneta para expressar seus sentimentos, essa é a diferença. Abraço a causa dos pés à cabeça desde criança”, diz Raquel, ao ressaltar o reforço humano da força-tarefa. “Ao proporcionar o sorriso de volta a uma criança, com certeza o cirurgião e toda a sua equipe recebem vários sorrisos em troca”, comenta.

Parcerias – Neste ano, o HRAC-USP firmou parceria com a Smile Train para
preservar a qualidade do atendimento e trazer soluções às demandas do hospital. Com o convênio, o Centrinho passou a receber doação de US$ 250 da ONG por cirurgia de fissura labiopalatina realizada.

No mês passado, o recurso extra permitiu investimento na contratação de dois
anestesiologistas – uma das principais necessidades do hospital até então – por meio da Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo (Fusp). A doação também é utilizada para a compra de instrumentos cirúrgicos e material, como vitril (fio especial de sutura).

“Este é o nosso papel como gestor público: buscar inovações e parcerias que
beneficiem os nossos pacientes. Os trâmites legais e contratos foram concluídos no mês de agosto. Estamos muito felizes por conseguir, em um curto período, trazer resultados concretos e positivos”, comemora a superintendente do HRAC-USP, Maria Aparecida. “Essa união de esforços será benéfica tanto para a ampliação dos atendimentos quanto para incrementar e
trazer novas perspectivas em capacitação e pesquisa ao hospital”, salienta.

Segundo Mariane Goes, esse intercâmbio na área de fissura vai contribuir
para o excelente trabalho realizado pela equipe do Centrinho e dar oportunidade aos profissionais do hospital para participar dos projetos desenvolvidos no Brasil e no mundo. Além disso, esses profissionais serão, estrategicamente, referência para treinamento de muitos de nossos parceiros,
destaca a diretora da Smile Train. “O sucesso dessa semana diz tudo; essa lista de espera não vai mais existir”, festeja.

Maria das Graças Leocádio
Imprensa Oficial – Conteúdo Editorial

DOE - Seção I, p. III