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Escola tem a primeira Academia Estudantil de Letras da rede estadual de ensino
18/10/2017

 


Onze estudantes da EE Dr. Alberto Cardoso de Mello Neto, localizada no Jardim Leonor Mendes de Barros, região norte da capital, tomaram posse como membros da primeira Academia Estudantil de Letras. A cerimônia de certificação ocorreu no início deste mês. O projeto, que consiste em fundar academias de letras adaptadas para o público infantil e juvenil, tem a finalidade de promover a valorização da língua portuguesa e incentivar o hábito da leitura entre os jovens. Concebida nas escolas participantes do programa Escola da Família, a Academia Estudantil quer mobilizar também os moradores das comunidades locais.


Agremiação literária adaptada para crianças e jovens pretende promover a valorização da língua portuguesa e incentivar o hábito da leitura


Certificação de posse, medalha, traje solene, flores. A cerimônia reuniu todos os elementos de uma verdadeira academia de letras. Até o tradicional chá literário será reproduzido em encontros quinzenais, nos quais os acadêmicos apresentarão à agremiação detalhes de seus estudos.


Cada um dos 11 titulares tem a missão de homenagear um escritor da literatura brasileira por meio do estudo aprofundado de sua biografia e obra. A escritora Ruth Guimarães Botelho (1920-2014) foi eleita patrona da cadeira principal da agremiação estudantil. O corpo acadêmico possui ainda 11 suplentes, com atribuições similares, e oito iniciantes – alunos do sexto ano do ensino fundamental que dedicarão seus estudos ao personagem Pedro Malasartes. Ao final de um ano, os suplentes passarão ao posto de titulares e novos suplentes serão nomeados.


Estudo literário Identificar o estilo de cada autor, o contexto histórico e político, as possíveis relações entre as obras. Na EE Dr. Alberto Cardoso de Mello Neto, os estudantes são familiarizados com o estudo literário por causa de outro projeto, a Feira Literária, organizada


pela professora de Língua Portuguesa Karina Volpe.


 


“Como já vínhamos trabalhando o tema, ficou mais fácil para todos. A única dificuldade foi o nervosismo no decorrer da cerimônia de posse”, avalia a professora que observa mudanças positivas na atitude dos alunos: “Estão mais responsáveis, atentos e motivados. A academia veio para acrescentar. Estamos estabelecendo um vínculo pleno entre eles e a escola, e acredito que esse seja um dos propósitos do projeto”.


 


Tais mudanças de comportamento são vivenciadas pela estudante Lidia Silva Nascimento, de 15 anos. “Curiosamente, nunca fui fã de leitura. Ultimamente, tenho trazido um livro na mochila para ler no ônibus a caminho da escola”, afirma a jovem, que tem como tema de pesquisa uma de suas maiores referências literárias na infância: o cartunista Mauricio de Sousa.


 


Resgate cultural Aos 16 anos, Gabriel Dias Trevisan é um admirador da obra de Jorge Amado (1912-2001). “Sinto-me honrado em integrar a Academia. Sou uma pessoa quieta, não costumo me destacar muito, não tenho desenvoltura para falar em público. Mas tenho o meu lado intelectual, gosto muito de fazer perguntas e de refletir”, afirma.


 


Luis Hiago Silva dos Anjos, de 17 anos, diz estar maravilhado com a história da escritora Carolina Maria de Jesus (1914-1977): “Uma característica que me impressiona muito nela é a obstinação. Carolina perseguiu por quase toda a vida o ideal de se tornar uma escritora. Foi catadora  de lixo e com esse trabalho sustentou os filhos sozinha. Uma guerreira negra”,


elogia o estudante.


 


Para a diretora Cecília Regina Bigatão, a Academia Estudantil de Letras é uma poderosa ferramenta de resgate cultural e fortalecimento de laços: “Queremos criar um espaço de arte e aprendizado, de maneira que o estudante realmente acredite na educação e na formação do conhecimento”, ressalta.

O folclore e o universo caipira pelo olhar de Ruth

Nascida em Cachoeira Paulista em 13 de junho de 1920, Ruth Guimarães Botelho foi a autora eleita pela EE Dr. Alberto Cardoso de Mello Neto para ser a patrona da primeira Academia Estudantil de Letras. Professora, tradutora, romancista, poeta, jornalista, crítica literária e pesquisadora do folclore nacional, a primeira autora negra a receber reconhecimento nacional publicou seus primeiros versos em jornais locais com apenas 10 anos de idade.


Seu primeiro romance, Água Funda, retrata o universo rural e caipira do Vale do Paraíba paulista e mineiro. Sucesso de público e de crítica, a obra reuniu, no dia do seu lançamento, em 1946, personalidades como Amadeu de Queiroz, Guimarães Rosa e Lygia Fagundes Telles.


 


Quatro anos mais tarde, Filhos do Medo rendeu a Ruth um verbete na Encyclopédie Française de la Pléiade e o posto de única escritora latino-americana a receber tal distinção. A obra


é resultado de ampla pesquisa folclórica sobre o diabo e as manifestações demoníacas que habitam o imaginário valeparaibano.


 


Fruto de mais de dez anos de estudos, Calidoscópio – A Saga de Pedro Malazarte (2006) é a mais completa pesquisa já realizada sobre o icônico herói dos contos populares, resultado


de dez anos de estudos.


 


Além dos mais de quarenta livros publicados, incluindo biografias, antologias e traduções, Ruth Guimarães escreveu também peças teatrais e inúmeros artigos e crônicas para revistas e jornais de São Paulo, Rio de Janeiro e Lisboa. Ocupante da cadeira 22 da Academia Paulista de Letras desde 2008, Ruth faleceu em 2014 aos 93 anos, em sua cidade natal.


 


Roseane Barreiros


Imprensa Oficial – Conteúdo Editorial


DOE - Seção I, p. II