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Exposição celebra espírito combativo de Nelson Rodrigues
20/06/2012

 

"Até hoje ele é visto como um autor reacionário, depravado", diz curadora sobre Nelson Rodrigues, tema de exposição

 


Por Diego Viana | De São Paulo







Um "outsider" em todas as áreas a que se dedicou: assim é definido Nelson Rodrigues (1912-1980), dramaturgo, jornalista, cronista, por sua filha Maria Lúcia Rodrigues Muller. No centenário de nascimento do pai, Maria Lúcia é responsável pela curadoria da "Ocupação Nelson Rodrigues", exposição que entra em cartaz no Itaú Cultura, em São Paulo, amanhã.

Maria Lúcia relata que mergulhou em textos autobiográficos, depoimentos e entrevistas de Nelson, de onde recolheu os trechos que são o fio condutor da exposição paulistana. A curadora explica que seu objetivo era tirar o foco dos estudos e análises sobre o trabalho do autor que revolucionou o teatro brasileiro com "Vestido de Noiva" (1943), ressaltando sua consciência, suas ideias e sua visão crítica da sociedade brasileira.


"Até hoje ele é visto como um autor reacionário, depravado e tantas outras coisas", diz. "A sociedade brasileira não mudou nada. Continuamos tendo um estranho horror à diferença, a tudo aquilo que não é espelho."


Para Maria Lúcia, a independência intelectual do "outsider" vinha a um custo: um isolamento em relação aos demais autores de seu tempo. Nelson não manteve, diz a filha, um arquivo pessoal, porque não queria ler o que era escrito sobre ele por outros escritores - "para se manter independente, ele não podia ter fãs" - ou pelos críticos - "ele sentia que não era entendido, as críticas tinham um moralismo atroz".


Por outro lado, esse isolamento leva o crédito pela liberdade do autor para colocar o dedo em feridas brasileiras. "Hoje é corriqueiro denunciar o racismo no Brasil, mas ele já fazia isso em 1948", diz Maria Lúcia. O ano faz referência à primeira montagem da peça "Anjo Negro", que Nelson escreveu pensando em Abdias do Nascimento, então um jovem ator negro. Foi o próprio dramaturgo quem exigiu que Ismael, o protagonista, fosse representado por um ator negro, em vez de um branco com o rosto pintado.


O espírito combativo e independente é atribuído por Maria Lúcia à origem pernambucana de Nelson Rodrigues, nascido em Recife a 23 de agosto de 1912 - a mudança para o Rio de Janeiro teria lugar quatro anos mais tarde. "Essa tradição de dar murro em ponta de faca, dizer as coisas que as pessoas não querem ouvir, é da alma pernambucana. Eles mantêm suas posições mesmo sob ataque cerrado", diz a curadora.


Mário Leite Rodrigues, pai de Nelson, foi proprietário dos jornais "A Manhã" e "Crítica", que figuravam entre os mais combativos da Primeira República. Muitos dos 14 filhos de Mário seguiram a carreira jornalística, entre eles Nelson e Mário Filho, fundador do "Jornal dos Sports" carioca, que dá nome ao estádio do Maracanã. "Mário Filho foi o primeiro jornalista esportivo a se dar conta de que os jogadores de futebol deveriam ser entrevistados", cita Maria Lúcia.


Crescido no Rio de Janeiro, Nelson Rodrigues jamais perdeu completamente as raízes pernambucanas e essa ligação com a terra natal, visitada apenas uma vez na adolescência, está na abertura da exposição. "Meu pai se definia como um carioca de sotaque pernambucano", diz Maria Lúcia. Em seus escritos autobiográficos, publicados em jornais como "Correio da Manhã", "O Globo" e "Última Hora", o cronista descreve as lembranças e as imagens que guardou do Recife. Esses textos foram reunidos em livros, como "O Reacionário", "Menina Sem Estrela", "O Óbvio Ululante" e "A Cabra Vadia".


Morto em 1980, o combatido autor dos contos de "A Vida Como Ela É" foi "canonizado em vida", para surpresa de sua filha. "Tudo que escreveram sobre ele na época foi igual, à direita, à esquerda e ao centro", diz Maria Lúcia. Depois disso, porém, seu nome atravessou um período de relativo esquecimento, até ser biografado por Ruy Castro em "O Anjo Pornográfico" (1992). Maria Lúcia considera que outras biografias ainda são necessárias. "Ainda resta muita coisa a ser dita, além de tanto que já se descobriu e se estudou de 1992 para cá", diz.


A classe teatral e a torcida do Fluminense jamais esqueceram Nelson. O dramaturgo é um dos mais célebres torcedores do clube carioca e criador de personagens que entraram para a história da crônica esportiva, como o Sobrenatural de Almeida, e a Grã-Fina de Narinas de Cadáver. Na exposição paulistana, o futebol aparece por meio das crônicas que o autor produziu para a imprensa, particularmente o jornal de propriedade de seu irmão. "Gostaria de ter podido colocar muito mais futebol", diz Maria Lúcia, "mas a maior parte dos artigos pertence a empresas falidas, como 'Manchete' e 'Última Hora'. Não consegui encontrar alguém que autorizasse o uso."


A exposição paulistana, organizada pelo Núcleo Cênicas do Itaú Cultural, tem cocuradoria de Sonia Muller e cenografia de Valdy Lopes Jr., que realçou, segundo Maria Lúcia, os aspectos sensoriais da mostra: dez projetores, quatro monitores, tablets e espelhos d'água. Além da exposição, que ocupa uma área de 120 m2 também estão programados espetáculos teatrais e mesas de debate. Em cartaz até 29 de julho, a exposição segue para Recife no segundo semestre.


"Ocupação Nelson Rodrigues"


Itaú Cultural - av. Paulista, 149, tel. (11) 2168-1777; de quinta (amanhã) a 29/7. Ter. a sex., 9h às 20h; sáb., dom.: 11h às 20h; grátis.




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