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Pesquisador da USP e parceiros criam game sobre cultura indígena
08/11/2017

 

Um casal de gêmeos kaxinawá – um jovem caçador e uma pequena artesã – foram concebidos pela jiboia Yube em sonhos e herdaram seus poderes. Se conseguirem passar por uma série de desafios, poderão se tornar um curandeiro e uma mestra dos desenhos. Nesta jornada, vão adquirir habilidades e conhecimentos de seus ancestrais, dos animais, das plantas e dos espíritos, e se comunicar com os seres visíveis e invisíveis da floresta. Tudo isso para se tornarem, enfim, seres humanos verdadeiros, ou seja, Huni Kuin.


 


Jogo aborda a história dos índios Kaxinawá (ou Huni Kuin, como se denominam), que vivem no Acre, próximos à fronteira com o Peru


 


Esse é, em linhas gerais, o enredo do jogo Huni Kuin: Yube Baitana (Os Caminhos da Jiboia),


desenvolvido por antropólogos, programadores, artistas e indígenas do povo Kaxinawá. O projeto de criação do videogame foi coordenado por Guilherme Pinho Meneses, doutorando em antropologia social na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. O vídeo sobre o jogo está disponível em https://youtu.be/0sRiMs_6jeE


 


Os Kaxinawá (ou Huni Kuin, como eles próprios se denominam) são mais de 12 mil índios que


vivem na região do Rio Jordão, no Estado do Acre, próximos à fronteira com o Peru.


 


Com apoio financeiro do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), vinculado à USP, e investimento principal do programa Rumos Itaú Cultural, o projeto começou em agosto de 2012 e foi concluído após quase quatro anos.


 


Difusão – Meneses relata que a motivação para o projeto foram suas leituras de etnografias sobre os Kaxinawá. A ideia de produzir o jogo nasceu dentro da USP. “Como antropólogo, queria conhecer esse universo. Além dos livros, o único contato que tive inicialmente com eles foi quando líderes indígenas desse povo vieram a São Paulo”, conta o pesquisador.


 


Para produzir o projeto de game experimental, independente, Meneses almejava que o trabalho se tornasse digno de representar a beleza dessa cultura indígena e que contribuísse para a difusão desse conhecimento na sociedade.


 


Histórias – Em quatro viagens ao Acre, a equipe conversou com os índios para definir roteiro, desenhos, sons e narrativas. “Em oficinas com índios, decidimos fazer jogo sobre histórias dos antigos, histórias reais que contam a origem do que eles fazem hoje. Eles ficaram muito felizes. Não digo que é inédito, mas desconheço outro jogo com povo indígena brasileiro”, ressalta.


 


O jogo tem ação, diversão, desafio e desenhos. Narra cinco histórias antigas desse povo: como os indígenas usam uma bebida sagrada que aprenderam a preparar com a jiboia, origem dos desenhos (empregados no artesanato produzido pelas mulheres), história de um ser encantado da floresta (Shumani), história do tabaco e origem da transformação das pessoas com o uso de plantas medicinais.


 


Energia solar O jogo está disponível em quatro idiomas (português, inglês, espanhol e na língua indígena) e pode ser baixado gratuitamente no site http://www.gamehunikuin.com.br. É entretenimento para pessoas de qualquer faixa etária, desde que seja ela seja alfabetizada.


O game foi desenvolvido para computador; e não está disponível para celular nem tablet. Funciona com teclado, mouse e joystick de videogame.


 


Outro propósito das viagens foi a instalação de energia solar em oito aldeias para quase mil pessoas. A energia solar e o roteador wi-fi foram instalados em pontos de cultura, onde há conexão com computadores, câmeras e notebook. “A inclusão digital foi uma reivindicação deles, que não queriam ficar isolados e almejam contato com a cultura não indígena”, observa o


antropólogo. Além disso, foi possível iluminar as casas para trabalharem à noite, realizarem as refeições, artesanato (mulheres) e recarga de equipamentos.


 


O trabalho com o povo indígena exigiu estreitamento de relação, o que levou certo tempo. Meneses conta que como o jogo é longo, demorou para ser concluído devido à equipe reduzida (programador, artista digital e antropólogos).


 


Dificuldades “Sem experiência prévia, as viagens à aldeia não foram fáceis. Enfrentamos dificuldades de saúde e de adaptação na floresta”, lembra. Ele diz que não encontrou resistência para aplicação do projeto. Sem objetivo comercial, a proposta do trabalho “não é de resgate cultural”. Aliando tecnologia ao povo indígena, sua expectativa é de que as pessoas do Brasil e


do mundo conheçam a cultura desse povo, que não é ensinada nas escolas.


 


“Existe muito preconceito. É necessário que conheçam os rituais de cura e as suas celebrações. Se algumas pessoas conhecerem, já ficaremos felizes”, afirma.


 


O trabalho teve a colaboração de mais de 30 índios, a maioria jovens, do sexo masculino. Eles se engajaram nas oficinas para tradução, narração e instalação da energia solar e produção do game. O trabalho tem registro do coletivo Beya Xinã Bena (Cultura Novo Tempo), de autores indígenas e não indígenas.


 


Viviane Gomes


Imprensa Oficial – Conteúdo Editorial


 


SERVIÇO


O jogo pode ser baixado, gratuitamente, no site


http://www.gamehunikuin.com.br


 


DOE - Seção I, p. IV