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Quarteto fantástico: combinar Hungria, Eslováquia, Polônia e República Checa
26/06/2012

 

em um roteiro significa receber uma aula de história a céu aberto. E contemplar cenários que parecem saídos de um romance

 

26 de junho de 2012 | 3h 09
Ares de romance, história e aventura - uma dose de drama político, outra de originalidade cult e um bom copo de boemia. É o mínimo que se pode esperar de uma visita a Eslováquia, Hungria, Polônia e República Checa. Por ali a história deixou rastros marcantes como as heranças sombrias da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e os tempos severos da simbólica Cortina de Ferro, na Guerra Fria (1945-1989) - isso só para mencionarmos a história recente do século 20.

De lá para cá, a cortina se abriu: os horizontes cinzentos deram lugar a uma atmosfera sublime, fonte de inspiração para as artes, o cinema e a literatura. Não por acaso, premiadas produções cinematográficas como A Lista de Schindler (1993), de Steven Spielberg, e O Pianista (2002), de Roman Polanski, foram rodadas nesses territórios. E, não à toa, dali vieram intelectuais contemporâneos como Bruno Schulz, István Mészaros, Milan Kundera, Péter Esterházy e Zygmunt Bauman, além de saudosos literatos como Franz Kafka (1883-1924).

Desde 2003, Eslováquia, Hungria, Polônia e República Checa se uniram para aquecer o turismo em seus territórios, sob o selo Quarteto Europeu, iniciativa do grupo Visegrad Four (V4). Em 2004, os quatro países entraram na União Europeia - mas, por enquanto, só a Eslováquia foi aceita na zona do euro. Em 2007, aderiram ao Espaço Schengen (acordo diplomático sobre a política de abertura de fronteiras europeias entre os países signatários).

Por razões históricas e geopolíticas, atualmente preferem a designação Europa Central em vez de Leste Europeu - expressão agora reservada à posição geográfica de países como Bielo-Rússia, Moldávia, Rússia e Ucrânia. Além das questões políticas, a preferência semântica pretende marcar uma virada de página europeia para escrever um novo capítulo na aurora do século 21.

Por um lado, o pretérito imperfeito deve ser lembrado. Afinal, Eslováquia, Hungria, Polônia e República Checa compartilham raízes históricas, tradições e trajetórias bélicas aos trancos e barrancos, mesmo antes de o Império Austro-húngaro ser dissolvido pelo Tratado de Versalhes no fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). E dois países foram um só: a Checoslováquia, um Estado fundado em 1918 - após a Revolução de Veludo de 1989, as federações declararam pacificamente suas independências, culminando nas demarcações atuais de República Checa e Eslováquia. Há diversos museus e memoriais dedicados ao passado, com honra. Entre eles, exemplos como o castelo medieval de Bratislava, a sinistra casa fascista Terror Háza de Budapeste e o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, ingrato símbolo do Holocausto. Além disso, há inúmeros monumentos tombados como Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco.

Por outro lado, o presente deve ser celebrado. Atualmente, as quatro nações soberanas abrem com orgulho carteiras de identidade próprias, com culturas distintas e efervescentes. Nas capitais e principais cidades, é possível respirar ares cosmopolitas e vibrantes. Ao ziguezaguear por suas praças, ruas e travessas, contempla-se resquícios de arquitetura medieval de feitio vintage decadente, construções delicadamente lapidadas e restauradas e outras edificações marcadas pelo estilo eclético, numa mescla de correntes neorrenascentista, neogótica, neoclássica. É um ecletismo cheio de personalidade, como uma moldura moderna para a vitalidade urbana de um povo que, após diversas ascensões e quedas, se mostra capaz de se reerguer com impressionante altivez.

Esses cenários recebem histórias lindas, triviais e inusitadas: noivos chineses se casam na cidade histórica e desfilam na pomposa Ponte Carlos de Praga; hippies portugueses cantarolam Aquarela do Brasil por uns trocados nas ruas boêmias de Cracóvia; universitários húngaros fazem piquenique no bairro judeu de Budapeste; jovens eslovacos ocupam a grama verde à margem do Rio Danúbio para contemplar o pôr do sol de Bratislava; viajantes de diversas nacionalidades se enveredam por cidades até pouco tempo fora da rota europeia.

Por essas e outras, não é difícil imaginar a promessa de romance, história e aventura honrada nos domínios de Eslováquia, Hungria, Polônia e República Checa. Um quarteto fantástico.


Fonte: Estadão.com.br