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Um claro enigma
02/07/2012

 


Por Amarílis Lage | Valor






Drummond: suas "linguagens poéticas descontínuas e variadas", no dizer de Silviano Santiago, influenciaram poetas de outras gerações, como Ferreira Gullar e Paulo Henriques Britto, de maneira diferente


"Não serei o poeta de um mundo caduco/ Também não cantarei o mundo futuro", diz Carlos Drummond de Andrade nos versos que abrem o poema "Mãos Dadas". "O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente."


Foi fiel ao compromisso. Drummond sempre quis escrever na clave do que lhe era contemporâneo. A afirmação é do escritor Silviano Santiago, que, ao lado do poeta Antonio Cicero, realizará na próxima Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) a primeira de uma série de conferências em homenagem ao poeta que nasceu em Itabira (MG), foi "gauche" na vida e morreu em 1987, aos 84 anos.


Do "tempo presente" Drummond foi capaz de extrair uma obra atemporal e se tornou uma das principais referências da poesia no Brasil. Para seus herdeiros, fica a proposta: 29 de junho de 2012. Onde está a poesia brasileira hoje e de que é feita? Como e por quem? E com quem, afinal, ela fala?


A venda de livros de poesia no Brasil é absolutamente tímida: não chega a 2% da venda dos livros de ficção, segundo dados da GFK levantados a pedido do Valor. É um produto comercialmente difícil, dizem representantes do mercado editorial. Em compensação, a internet oferece um novo terreno para jovens poetas e, na periferia, versos se transformam em cápsulas para mensagens de protesto.


O cenário é complexo. Quase 90 anos atrás, quando um ainda inexperiente Drummond escreveu "Os 25 Poemas da Triste Alegria", seu segundo livro de poemas (o primeiro, "Teia de Aranha", sumiu), ele sabia para onde olhar: a Semana de Arte Moderna de 1922 concentrava as atenções da vida cultural no país. Drummond enviou o material para o modernista Mário de Andrade e recebeu respostas que o ajudariam a direcionar sua obra. Ao longo do século passado, a poesia nacional ainda veria o surgimento de outros grupos, como a geração de 45, os concretistas, os neoconcretistas e os poetas marginais, cada um com suas propostas e contrapropostas.


Já no tempo presente... "é cada um com seu projeto; o bloco do eu sozinho", descreve o poeta Paulo Henriques Britto, autor de livros como "Macau", que venceu os Prêmios Portugal Telecom e Alceu Amoroso Lima em 2004, e "Formas do Nada", publicado neste ano.


"Desde os anos 90, há uma pluralidade no repertório, uma diversidade dos parâmetros", afirma Italo Moriconi, organizador da antologia "Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século" e diretor da Editora Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), onde criou a revista "Ciranda da Poesia". "Cada um tem o próprio panteão de referências, que vai do rock aos quadrinhos ou à obra de Paul Valéry. Essa é a diferença fundamental para as décadas anteriores, quando havia grandes poetas referenciais."


A comercialização de livros de poesia no Brasil é tímida: não chega a 2% da venda dos livros de ficção, segundo dados da GFK


Ainda assim, é possível buscar alguns pontos em comum na produção atual. "Acabamos nos acomodando a viajar a reboque do 'didatismo' da época das vanguardas", diz o poeta Marcos Siscar, professor da Unicamp e autor do livro "Poesia e Crise". "Se quisermos entender o que acontece à poesia, é importante problematizar o conceito de pluralidade."


Para ele, a poesia feita hoje revela "um impulso de negação do passado recente, no que ele tinha justamente de conflituoso, de comprometido, de propositivo ou, ainda, de 'autoritário'". Na prática, isso se traduz no resgate de opções literárias que antes eram evitadas e tachadas como anacrônicas. Por exemplo: escrever redondilhas e sonetos.


"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo/ Perdeste o senso", declama Ferreira Gullar, de 82 anos, citando o famoso soneto de Olavo Bilac (1865-1918). "Quando comecei a escrever lá em São Luís [MA], fora dos centros de cultura mais atualizados, a visão de poesia que preponderava era essa, da versificação, do parnasianismo", conta Gullar, que venceu o Jabuti no ano passado com o livro de poemas "Em Alguma Parte Alguma".


Um dia, um amigo lhe emprestou um livro de Drummond, e foi aí que Gullar descobriu a poesia moderna. Ficou chocado, diz, ao ler versos como "Ponho-me a escrever teu nome/ com letras de macarrão". E mergulhou num processo que o levaria a questionar as formas fixas e buscar novas estruturas, o que o conduziria, anos depois, às experiências concretistas.


"Ao produzir textos que, violando as regras tradicionais, não só pretendiam ser poemas, mas, efetivamente, funcionavam como verdadeiros poemas, as vanguardas superaram o fetiche que existia pelas formas fixas. Essas são as maiores lições que elas nos legaram", avalia Antonio Cicero.


Hoje, observa, as formas fixas são retomadas sem a antiga noção de obrigatoriedade. "Os poetas contemporâneos as usam como autoimposições formais arbitrárias que se contrapõem à espontaneidade criativa e colocam tensões estimulantes para a produção do poema. Elas são meios e não fins."



Gullar, que identifica um risco para a poesia atual, a tendência ao hermetismo: "Se eu, que li e estudei poesia a vida inteira, não consigo entender, para quem eles estão escrevendo aquilo?"



Essa é uma das marcas, por exemplo, da poesia de Paulo Henriques Britto, que trabalha com métrica e rimas, mas interfere nas formas fixas e usa palavras e estruturas coloquiais. O curioso é que, assim como Gullar encontrou uma alternativa às formas fixas na obra de Drummond, Britto lista entre suas influências... Drummond. Principalmente "o" Drummond de "Claro Enigma" (1951), com seus versos decassílabos: "E a máquina do mundo, repelida/ se foi miudamente recompondo,/ enquanto eu, avaliando o que perdera,/ seguia vagaroso, de mãos pensas".


Contraditório? Sim. "Para se adequar à mobilidade do indivíduo e da história no século XX, Drummond adotou linguagens poéticas descontínuas e variadas que, vistas no seu conjunto, se contradizem", diz Santiago.


Mudavam as formas e também os conteúdos. Drummond passou por uma fase "anárquico-sentimental" nos anos 30, outra cosmopolita e engajada contra a ditadura Vargas (1937-1945), dedicou-se às lembranças da infância nos volumes de "Boitempo", relaciona Santiago. Multiplicidade que se apresenta ao folhear uma antologia poética de Drummond: "José", "Nosso Tempo", "Morte do Leiteiro", "Intimação", "Lira Romantiquinha", "Nudez", "Nova Canção do Exílio"... "Um sabiá/ Na palmeira, longe./ Estas aves cantam/ Um outro canto", diz a versão de Drummond para o poema de Gonçalves Dias, que também foi atualizada, entre outros, por Murilo Mendes ("Minha terra tem macieiras da Califórnia/ Onde cantam gaturamos de Veneza"), José Paulo Paes ("… sabiá… papá… maná… sofá… sinhá… cá? bah!") e Oswald de Andrade ("Não permita Deus que eu morra / Sem que volte pra São Paulo").


O passarinho, parece, não tem inspirado muito a poesia nacional. "Há hoje uma crise do próprio sentimento de pertença", afirma Italo Moriconi. "Até os anos 90, a produção poética era marcadamente sobre o Brasil. Hoje, existe um horizonte cosmopolita."


Paulo Henriques Britto faz a mesma avaliação. "Desde o romantismo até a Tropicália, todos os movimentos brasileiros têm a necessidade de se posicionar em relação à questão nacional. É preciso mostrar que a gente assimilou a lição das vanguardas na França. No caso dos concretistas, é preciso mostrar que a gente faz um produto moderno que nem Brasília e a bossa nova. No caso da Tropicália, é preciso mostrar que a gente não tem medo da cultura pop americana. Essa necessidade, que, na minha geração, que está na faixa dos 50, já perde força, não tem sentido para a geração mais jovem, na faixa dos 30." Além disso, compara Britto, os novos poetas são poliglotas, adeptos do verso livre, misturam cultura pop com elevada e escrevem, com frequência, sobre viagens.


"Nada bate um rilke shake / no quesito anti-heartache", escreve a poeta Angélica Freitas em "Rilke Shake", poema que dá nome a seu livro de estreia, que integra a coleção "Ás de Colete", coordenada pelo poeta Carlito Azevedo e publicada pela Cosac Naify e pela 7Letras. A mistura de idiomas, diz Angélica, não vem de uma proposta planejada. "Saiu assim", diz ela.


Assim como Gullar se surpreendeu com Drummond na juventude, Angélica se lembra do impacto que sentiu quando, aos 15 anos, leu Ana Cristina Cesar (1952-1983). "A minha reação foi: dá para escrever desse jeito, então? 'As mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios.' Você lê isso e gera estranhamento. É uma coisa que aparentemente não seria vista como poesia."


A preocupação com a "brasilidade" não está, de fato, entre suas preocupações, conta Angélica. "Mas isso não faz parte, de modo geral, da minha vida. Eu não acordo e penso 'sou brasileira' ou 'sou gaúcha'", diz. "A grande questão é: como se pode escrever poesia ainda, o que eu consigo fazer com o meu repertório de vivências, de leitura, que seja minimamente relevante, e não só um exercício de beletrismo, uma pirueta verbal."


A poesia feita hoje revela "um impulso de negação do passado recente, no que ele tinha justamente de conflituoso", afirma escritor e professor


Para Santiago, esse cenário está relacionado também ao processo de democratização do país. "Hoje, a geração dos mais velhos é a dos que tiveram o batismo poético na época das lutas contra a ditadura. Todos padeceram a intromissão da luta política na sua poesia. Começaram pela coleção 'Violão de Rua', da Civilização Brasileira, na qual a linguagem poética recebia a tintura populista e, nos piores casos, demagógica." Já a geração seguinte, diz, viu aflorar bons tradutores de poesia estrangeira. "A tradução foi o modo como Ana Cristina Cesar e Paulo Leminski, entre outros, se desviaram da tradição recente. Escrevem dentro de um repertório atual e cosmopolita, independentemente dos problemas políticos nacionais." Porém, brinca Santiago, quem achar que não tem nada a ver com a questão nacional é "ingênuo e fanfarrão". "Tanto melhor para ele, tanto pior para a obra que quer realizar."


Gullar identifica outro risco para a poesia atual: uma tendência ao hermetismo. "Isso é algo que não acho bom e não tem nada a ver com Drummond, com Manuel Bandeira... Sinceramente: se eu, que li e estudei poesia a vida inteira, não consigo entender, para quem eles estão escrevendo aquilo?", questiona. "Não vou dizer o que alguém pode ou não fazer. Mas pergunto: para quê? O sentido da vida é o outro, o da literatura também."


Com ou sem hermetismo, é disseminada a ideia de que a poesia é um gênero "difícil". E isso está presente até entre quem opta por trabalhar com literatura, conta Marcos Siscar, que tem percebido cada vez mais alunos de letras com uma atitude defensiva em relação a poemas. "Eu me pergunto que tipo de educação poética a escola lhes deu. Em poucos anos, serão eles os encarregados da formação de novos leitores."


Marcas do tal "tempo presente", como a busca por instantaneidade e eficiência, também entram em conflito com a poesia, afirma Antonio Cicero. Em uma sociedade multitarefas - e multiatarefada -, a poesia exige tempo e concentração. "No entanto, parece que, justamente por isso, é ela que pode nos livrar, ao menos temporariamente, dessa cadeia, proporcionando acesso a outra temporalidade. Ela representa uma alternativa à vida escravizada ao princípio do desempenho."


O fato é que a poesia não está no top 5 de gêneros favoritos do brasileiro ("Bíblia", livros didáticos, romances, livros religiosos e contos, nessa ordem, segundo a mais recente edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil). Ela aparece em sétimo lugar, logo atrás de literatura infantil. E, nas pesquisas de mercado feitas pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), a poesia nem aparece como categoria específica.


A pedido do Valor, a GFK, que acaba de divulgar dados preliminares do serviço Painel do Livro, sobre venda de livros no país, fez um recorte sobre poesia. Segundo a consultoria, as obras de ficção correspondem a 23% das vendas (a maioria, 61%, é de não ficção). Considere só o grupo dos livros de ficção: a venda de poesia corresponde a 1,8%.



Paulo Henriques Britto: entre os poetas de hoje que trabalham com métrica e rimas, o que seria condenado tempos atrás, mas interferem nas formas fixas e usam palavras coloquiais


É uma proporção parecida com a de títulos de poesia dentro da Livraria Cultura, por exemplo. Dos 25 mil títulos que há numa loja da rede, em média, cerca de 500 são de poesia. O que vende, diz o gerente de vendas da rede, Ricardo Schil, são autores consagrados, como Drummond, Bandeira e Fernando Pessoa. "Tirando os clássicos, o grande nome é Manoel de Barros, que tem um resultado comercial impressionantemente bom."


"Poesia Completa", de Manoel de Barros, já vendeu 25 mil exemplares desde que foi lançado, em 2010. "Escritos em Verbal de Ave" foi lançado em dezembro, com 10 mil exemplares, e uma reimpressão de mais 7 mil está sendo preparada. "Coisa raríssima [em poesia]", comenta Pascoal Soto, diretor no país da editora portuguesa LeYa. "Na ficção, você termina um livro e quer outro. O livro de poesia, você relê. A fidelidade do leitor para a obra de um poeta faz com que ele não experimente tanto."


"Poesia é difícil de vender", afirma Marta Garcia, editora da Companhia das Letras. E isso se reflete nas tiragens: enquanto um livro de prosa de um jovem escritor tem tiragem inicial de 3 mil a 5 mil exemplares na editora, a de um jovem poeta tem 2 mil. Mas, ainda que a poesia não seja carro-chefe em termos comerciais, ela confere "sucesso de estima", diz Marta.


Um exemplo disso foi a boa repercussão que a editora teve no ano passado com o lançamento do livro "Poemas" da polonesa Wislawa Szymborska, Prêmio Nobel de Literatura de 1996. A partir daí, conta Marta, a empresa decidiu reeditar sua coleção de poesia traduzida, lançada no início dos anos 90. Dessa coleção já foram relançados "Omeros", de Derek Walcott, e "Poemas", de Rainer Maria Rilke.


Em relação aos livros de poesia brasileira contemporânea, a editora adotou uma estratégia aparentemente simples: passou a dar às obras o mesmo tratamento visual, o que confere uma unidade, diz Marta, citando livros de jovens autores, como "Da Arte das Armadilhas", de Ana Martins Marques, e "Esquimó", de Fabrício Corsaletti.


A Companhia das Letras tem, ainda, os direitos sobre a obra de Vinicius de Moraes e, desde o ano passado, os da obra de Drummond. Dele a editora está lançando "José" (3 mil exemplares), "As Impurezas do Branco" (10 mil), "Antologia Poética" (10 mil) e "Sentimento do Mundo" (25 mil). "Vinicius e Drummond são outra história. Seus livros são muito lidos nas escolas", diz Marta. "Quando um livro entra nos programas de leitura do governo, há muita diferença na tiragem."


"Até os anos 90, a produção poética era marcadamente sobre o Brasil. Hoje, existe um horizonte cosmopolita", diz poeta e antologista


A poesia tem presença um pouco mais forte nas compras governamentais do que nas livrarias. No ano passado, o Programa Nacional Biblioteca da Escola adquiriu, para o ensino médio, 1.723.632 livros - dos 149 títulos selecionados, 12 eram de poesia, como "Navios Negreiros", de Castro Alves, uma antologia de João Cabral de Melo Neto e outra voltada para a poesia contemporânea. Para o ensino fundamental, foram 3.861.782 exemplares; dos 149 livros, 14 de poesia.


"Poesia para criança é um gênero muito comprado pelo governo", diz Soto, da LeYa, que, em 1992, quando era editor-assistente na Moderna, sugeriu a Manoel de Barros que escrevesse para o público infantojuvenil. O poeta, conta Soto, respondeu que nunca havia pensado no assunto e não escrevia por encomenda. Continuaram se correspondendo e, cerca de sete anos depois, o poeta enviou a Soto o poema "O Menino Que Carregava Água na Peneira". Soto, que havia acabado de ter uma filha, pediu um poema para a menina. "Ele ficou bravo. Disse: 'Lembre-se de que não escrevo por encomenda, mas lá vai'. E mandou o poema 'Menina Avoada'." Era a origem de "Exercícios de Ser Criança".


Ferreira Gullar também atendeu a esse apelo e, em 2000, lançou "Um Gato Chamado Gatinho". "Comecei a fazer para mim mesmo poemas sobre meu gato. Um dia, recebi um telefonema da editora pedindo um livro para crianças e ofereci esse", lembra. Depois, vieram um livro sobre lembranças da infância, outro de poesias e um de colagens. "Uma editora viu as colagens aqui em casa, disse que era interessante e sugeriu fazermos um livro", diz Gullar. "É algo que as editoras solicitam. Senão, eu não teria ido por aí."


De olho no mesmo público, a José Olympio planeja lançar um livro com poemas do modernista Raul Bopp (1898-1984). "Ele não escreveu para crianças, mas selecionamos poemas que podem ser lidos por elas", afirma sua gerente editorial, Maria Amélia Mello.


Para nosso hipotético poeta, porém, vale lembrar que, mesmo com o aquecimento do mercado editorial no Brasil, o acesso às grandes editoras ainda é difícil. "Elas estão muito mais pressionadas pelas vendas, mais restritas aos consagrados. As pequenas são o celeiro dos novos poetas", diz Soto.


A boa notícia é que, desde a década de 90, ter seu livro publicado se tornou um processo mais fácil no Brasil. O barateamento de ferramentas de edição e publicação levou ao surgimento de editoras que publicavam pequenas tiragens de obras pagas pelos próprios autores, com qualidade quase industrial.


A má é que os poetas logo entraram em contato com uma conhecida máxima econômica: quanto maior a oferta, menor a demanda. E o gargalo apareceu nas livrarias.


"É um movimento de mercado: há uma oferta muito grande que as livrarias não conseguem absorver", conta Jorge Viveiros de Castro, dono da editora 7Letras, uma das pioneiras nesse setor. "As editoras maiores têm um giro rápido, é um mercado muito alimentado pela novidade. Com tiragem menor, você nem consegue aparecer", diz Castro, que planeja, para agosto, a abertura de uma livraria própria da 7Letras em Ipanema, zona sul do Rio. Ao mesmo tempo, como o próprio Castro ressalta, as editoras menores podem se beneficiar muito do comércio eletrônico.


Mas é do outro lado do balcão, ou do poema, que estão as expectativas em relação à internet. "Nunca antes o poeta esteve tão alicerçado pelos meios. O Facebook e o Twitter facilitam a divulgação da poesia", afirma Fabrício Carpinejar, que dividirá a mesa Vidas em Verso, na Flip, com a poeta escocesa Jackie Kay. "A internet é mais propícia à leitura de poemas que de um romance, por exemplo. E o poema, assim como o texto digital, lida com a ideia da descontinuidade", observa o poeta, que lançou em 2009 o livro www.twit ter.com/carpinejar, com frases que havia divulgado por meio da rede social. "O poeta, hoje, precisa ter uma vida digital, além da impressa. A questão é o excesso de visibilidade. Será que Drummond hoje conseguiria sobreviver ao tópico no Twitter?"


Para Moriconi, a questão digital pode vir a ser o elemento que define uma preocupação comum na poesia contemporânea. "O suporte digital cria um espaço outro, que traz condições de existência para o poema para além do livro", diz, citando "Enter", antologia digital desenvolvida por Heloisa Buarque de Holanda, e o site "As Escolhas Afectivas", que se define como uma "curadoria autogestionada de poesia brasileira".


"A internet me parece um espaço de experimentação dos modos da interação autor/obra/leitor e afeta, sem dúvida, os três pontos da cadeia, sobretudo acelera-lhe o trânsito, desloca suas finalidades", diz Marcos Siscar. Mas, para ele, do ponto de vista da criação poética, as alterações ocorridas até agora ainda não são decisivas.


Paralelamente ao mundo digital, os bairros de periferia também têm sido palco de um burburinho poético, aponta Frederico Barbosa, diretor da Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, em São Paulo. A instituição fez um levantamento de saraus de poesia na cidade e, após excluir aqueles em que a programação era basicamente de hip-hop, chegou a 80 eventos - dos quais mais da metade ocorre na periferia. Desses, um dos que têm maior visibilidade é o Cooperifa, criado em 2001 e realizado no Campo Limpo, na zona sul.


"A poesia está mudando de mãos. Não é nem a classe C que está chegando à poesia, são a D e a E", diz Barbosa, que associa o processo a mudanças socioeconômicas que vêm ocorrendo no Brasil nas últimas duas décadas, como o aumento da escolaridade e o maior acesso aos bens culturais. "Na década de 40, todo mundo que fazia poesia se conhecia. Nos anos 80, quando comecei, eu também sabia quem era quem. Hoje, não sei quem são os poetas deste país."


Com um discurso relacionado principalmente a denúncias sociais, esses poetas encontram nos versos um instrumento capaz de conferir impacto a suas mensagens. "Claro que tem a questão da qualidade. É uma poesia rudimentar, com aquelas rimas em 'ar', em 'ão'. Mas é uma produção que está cada vez melhor", constata Barbosa, que acaba de renovar o contrato com o governo do Estado para administrar a Casa das Rosas por mais quatro anos. De acordo com ele, a meta para esse período é transformar o espaço num centro de apoio a quem quer escrever, com cursos sobre literatura e informações sobre como publicar. "Acredito que poesia pode ser aprendida."


Drummond se dispõe a ensinar: "Penetra surdamente no reino das palavras / Lá estão os poemas que esperam ser escritos".


Leia artigo de Antonio Carlos Secchin sobre "Os 25 Poemas da Triste Alegria" na pág. 34




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