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E agora, Flip?
05/07/2012

 

Ao completar dez anos, na edição que começa hoje em Paraty (RJ), Flip estuda alterações em modelo consagrado por crítica e público

 

FABIO VICTOR
DE SÃO PAULO
RAQUEL COZER
COLUNISTA DA FOLHA

Ao ser convidado, no ano passado, para assumir a curadoria da décima Flip, que começa hoje em Paraty com homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade, o jornalista Miguel Conde afirmou que não iria inventar a roda ao assumir a função.


De fato, ao longo dos seus dez anos, a festa literária consolidou um modelo que pouco se altera ao sabor de curadores ou autores convidados.


É inegável que o formato é um sucesso: a Flip entrou para o calendário cultural do país e continua a agradar público e crítica. Como de costume, os ingressos para as mesas mais concorridas (como as de Jonathan Franzen e de Ian McEwan e Jennifer Egan) acabaram em minutos.


Mas é também verdade que, salvo alterações graduais -abertura a linguagens como quadrinhos e urbanismo, por exemplo-, é um modelo engessado.


Os debates têm duração semelhante (de até uma hora e meia), costumam reunir autores com temáticas correlatas, que estejam lançando livro no país, a maioria de um grupo seleto de editoras.


O escritor homenageado ganha um miniprograma à parte, com a conferência de abertura (seguida de um show) e duas ou três mesas.


O que fazer então na encruzilhada da primeira década? Mexe-se em time vitorioso?


A organização estuda alterações para as próximas edições. Uma delas, apurou a reportagem, seria incorporar palestras mais breves, como as do TED (ciclo de conferências criado na Califórnia), de no máximo 18 minutos.


QUÍMICA


A editora inglesa Liz Calder, idealizadora da Flip, afirma que haverá mudanças, mas negou-se a antecipá-las. Ela admite que o atual formato de debate é arriscado por depender muito do desempenho do autor em público e da química com o mediador. "Isso pode ser revisto", disse.


Incentivador de primeira hora da festa, cuja primeira edição organizou com Calder, o editor da Companhia das Letras, Luiz Schwarcz, é um dos defensores de mudanças.


"A Flip tem um desafio de se renovar. Não vai virar de ponta-cabeça. Festas literárias são assim, encontros de autor com leitor e ponto. Mas, após dez anos, vale a pena criar outras coisas."


Diretor da Casa Azul, associação que organiza a Flip, o arquiteto Mauro Munhoz considera que há espaço para ampliar o "enraizamento" da festa em Paraty, com foco em educação e desenvolvimento local.


Miguel Conde, o atual curador, vai na mesma linha, ao mencionar um maior estímulo a escolas e bibliotecas como o espaço a ser explorado.


Curador das duas primeiras edições (2003 e 2004), Flávio Pinheiro, diretor do Instituto Moreira Salles, defende o modelo, mas ressalva que, ao convidar autores para falar de seus próprios livros, a Flip se pauta pelo mercado.


"Por que não trazer autores para falar sobre outros escritores? McEwan já foi a Hay-on-Wye [festival britânico que inspirou a Flip] falar sobre George Orwell. Isso não precisa se restringir à homenagem, sempre a brasileiros."


"Do jeito como a Flip é hoje", prossegue Pinheiro, "nunca teremos um debate sobre Georges Perec ou Italo Calvino. É estranho imaginar que a Flip possa completar 20 anos sem debater Borges".


O jornalista Cassiano Elek Machado, curador em 2007, diz que a festa tem dilemas relacionados ao tamanho: por questões estruturais, não pode crescer muito mais e hoje a programação principal não consegue atender a todo o público que vai a Paraty.


"Uma saída seria incluir mais autores das mesas principais em mesas paralelas, cada um falando duas ou três vezes ao longo do evento."


Diferentemente da Flip, festivais como os de Hay-on-Wye, Jaipur e Edimburgo comportam vários debates simultâneos na programação principal, a exemplo do que acontece com palcos em grandes festivais de música.


O crítico Manuel da Costa Pinto, curador em 2011, opina que um tempo maior para certas mesas seria desejável, dado o esforço para trazer alguns convidados, mas observa ser impossível prever que debates vão render. "Tenho a sensação, portanto, de que não há muito o que mudar."


Colaborou ANDRÉ BARCINSKI, crítico da Folha


Fonte: Folha de SPaulo/Ilustrada